Pela minha "mansarda" vi uma cena inusitada.
Defronte ao meu apartamento, do outro lado da rua, há um pequeno prédio branco no terreno do departamento de limpeza e coleta do lixo da cidade.
Neste local, de madrugada, é depositado o lixo da praia e de uma parte do bairro.
Pela manhã, um caminhão próprio recolhe tudo, deixando sempre o local relativamente agradável, embora a limpeza dure pouco tempo porque os transeuntes e os restaurantes no entorno colocam lixo durante todo o dia.
São, na verdade, dois pequenos prédios que estão de costas para mim, pintados de branco com aberturas verdes.
Isto não me importuna.
Meu apartamento fica na esquina e daqui posso ver todo tipo de acontecimento porque é, o que chamo, o centro nervoso do meu bairro.
Pela frente passa a rua principal do bairro e na lateral outra rua bem movimentada, única que dá acesso a um conglomerado de casas.
É nessa esquina que muita coisa acontece.
Parece que há uma amostra do mundo todo cruzando por aqui.
E é daqui, da minha “mansarda”, que tenho a oportunidade de observar muitos tipos diferentes de humanos.
Hoje foi mais um dia para observar uma cena inusitada.
Eis o que aconteceu:
No terreno da empresa coletora de lixo, entre um prédiozinho e outro, instalou-se um “talvez” morador de rua.
Era cedo, 6h30 da manhã, quando olhei pela janela e vi no terreno uma barraca, não de lona, mas toda feita com plástico preto. No topo, bem amarrado, um balão a gás, prateado, com a forma do número dois, ainda altivo.
Dois: dois corações? dois anos? dois olhares?
Permaneci olhando o pequeno espaço quando vi, mais à esquerda, um homem agachado com o rosto quase colado na parede do prédiozinho.
Era bronzeado, tinha cabelos castanhos escuros encaracolados, estava sem camisa e vestia uma bermuda amarrotada.
Não me mexi para não ser vista.
Não demorou, o homem levantou-se segurando um balde rosa cheio de água e dirigiu-se para o espaço entre os prédios onde havia uma mureta de uns 60 cm de altura e da largura de um tijolo.
Colocou o balde sobre a mureta, pegou, ao lado do balde, o que julguei ser um sabonete e começou a lavar-se.
Primeiro, mergulhou o sabonete dentro do balde, inclinou-se e começou a lavar a cabeça, ora esfregando com o sabonete que saía de dentro do balde pingando, ora esfregando com as mãos. Depois, apenas jogou água para retirar toda espuma.
Na sequência, com o sabonete na mão, começou a lavar o pescoço, o peito nu e, colocando a mão por dentro da bermuda, as partes íntimas, com o mesmo cuidado e vigor usados nos cabelos.
Não sei se eu respirava neste instante.
E assim ele fez nas pernas e nos pés.
Imediatamente pegou o balde rosa, encheu-o novamente de água e despejou todo o conteúdo sobre a cabeça.
A água penetrou nos cabelos, escorreu pelo dorso bronzeado, se dividiu entre as partes e juntou-se nas coxas, pernas e pés, desmaiando no chão.
Eu nada pensava.
Mais um balde, agora com menos água, para concluir.
Depois, dirigiu-se até a entrada da barraca, inclinou o corpo para dentro e de lá tirou uma toalha que, sem poder se dividir, fez o mesmo trajeto da água.
Por último, esfregou novamente os cabelos com a toalha e estendeu-a sobre a mureta onde uma nesga de sol também se estendia.
Voltou a colocar a cabeça e parte do tronco dentro da barraca e, contorcendo o dorso, logo saiu carregando algo que eu não pude identificar pela distância em que eu me encontrava.
Aguardei alguns segundos.
Ele parou perto da mureta onde estava o balde, virou-se em direção ao sol, levou uma das mãos junto ao rosto e manteve a outra um pouco afastada, logo à sua frente.
Para conseguir ver, apertei os olhos ao máximo e então entendi que ele estava se olhando num espelhinho e fazendo a barba.
Concluída a tarefa, depôs o objeto cortante e o espelho sobre a mureta, pegou a toalha e passou-a no rosto.
Mas seu asseio não havia terminado e eu, me sentindo invasora, deixei de olhar por alguns instantes quando, não suportando a curiosidade, olhei novamente e vi que ele havia trocado de bermuda e, mirando-se no espelhinho, penteava-se.
Voltou para dentro da barraca, talvez para guardar o barbeador, o pente e o espelhinho e saiu com outra toalha que estendeu sobre o carrinho de supermercado estacionado na porta de sua barraca.
Pegou o sabonete e outros itens que não consegui identificar, colocou dentro do balde rosa e este dentro do carrinho.
Alisou a bermuda, passou os dedos por entre os cabelos para ajudar a secar e se foi, deixando sua barraca com a bandeira hasteada, seu carrinho estacionado na frente e eu.
Autora: Rita Marília

Foto autoral de Rita Marília
