Cedo cedo coração com sede nessa sede Cedo cedo nessa sede coração com sede Cedo nesta sede cedo coração com sede Cedo cedo sede dum coração com sede Coração com sede cede cedo sua sede Cedo coração com sede cede sua sede.
Imagem: Composição visual criada por IA a partir de conceito autoral
A Pedra e o Caminho Tinha uma pedra no meio do caminho No meio da pedra tinha um caminho No caminho tinha meia pedra Tinha um meio entre a pedra e o caminho
Nunca me esquecerei desse acontecimento Quando a pedra atrapalhou meu caminho Meu caminho que não era de pedra Nem de meias pedras, nem de meios caminhos
Recadinho para Mário Quintana Meu tempo Também passará Passarinho! Apenas penas Ficarão Do meu caminho
Entre Pedras e Penas A melhor parte da chegada É o caminho Com pedra ou sem pedras Com pena ou sem penas Um caminho de pedras e penas. Minha pena corre E não tropeça na pedra
Há encontros que não são planejados — acontecem. Um poema chama outro. Uma pedra chama um caminho. Uma pena pousa onde antes havia obstáculo. O que começou como diálogo com vozes que admiro tornou-se percurso próprio. Percebi que os três textos não estavam lado a lado por acaso: eles se movem. Do peso à leveza. Da lembrança à escrita. Do tropeço à maturidade. Hoje assumo essa travessia. Entre pedras e penas, a palavra segue. E não tropeça.
Mira teu castigo Eu Mira meus olhos Teus Mira minha boca Oca Mira meu pescoço Colosso Mira meus seios Cheios Mira minha cintura Pura Mira minha pele Desvele Mira meu ventre Entre Mira!
Senhor! Não olheis assim para mim Minhas rugas denunciam minha idade Mas, nem de longe, o meu desejo Pois que pode desnudar minha volúpia E buscar em vós o meu prazer.
Senhor! Ficais assim a instigar-me? Não sabeis então Que navega em vossos olhos A pretensão de minha boca?
Ora, Senhor meu! Não fiqueis a bulir Quem quieta está Quem sob o disfarce da Indiferença Cobre com panos gélidos A volúpia
Olhais, por certo, as mais moças Para mergulhardes no imaginário Onde o espelho do tempo vos mentirá Dizendo quem já não sois
Eu, Senhor meu, miro vossa estampa Vejo vossas rugas Percebo vossos contornos E imagino Ainda possuirdes Em vossas mãos o meu desejo A descobrir que a vida, Em velhas curvas sem beleza, Também pode levar-me, Em queda livre, ao prazer
Por isso Senhor meu! Conservai o vosso olhar no meu decote E percebei Minha respiração ofegante Lentamente ofegante Misteriosamente ofegante E concedei-me Bulir vossa íris Massagear vossa pupila E ver-me, e sentir-me Penetrada Pelo vosso olhar.
Então, Senhor meu! Grávida de vossos desejos Irei embora Vaidosa e confiante.
Imagem: composição visual criada por IA a partir de conceito autoral.
Feliz por ter sido incluído na revista “Chicos” conforme mensagem recebida
“Olá Rita,
teu poema chegou a Cataguases MG, pelo Fernando Abritta com a sugestão de publicação numa e-zine chamada Chicos que mantemos cá na terrinha. Li e gostei. Prontamente acatei a sugestão de publicá-lo. Só circulamos pela internet. ..(à págna 25). Segue o link da edição: Ler Aqui
Qualquer coisa é um nada Que devagar lentamente De nós vai se apoderando Pulsando Abrindo, fechando Se tornando Ser Crescente A nos envolver docemente Semente Eternamente
Foi assim: Num dia qualquer, Sancho Pança chamou-me para juntos regalar o bofe com os manjares de seu bornal. Aceitei. Mal me ajeitava, surgiu diante de mim um senhor — não, um Duque — que, após uma mesura caprichada, apresentou-se: — Ilustre dama, deixai que me apresente. Sou Dom Quixote de La Mancha, cavaleiro da Triste Figura, vosso criado e, se me permitis, vosso guia nesta jornada. Encantaram-me suas mesuras. Alegraram-me os trajes. Já a fala… exigia fôlego. — Senhor — respondi —, com tantas honras me abasteço em seus dizeres, mas creio que sozinha não darei conta nem dos saberes que dizem existir no lombo de seu cavalo. Ele ergueu o queixo, seguro de si: — Senhora, a espera sem espora é justa e necessária. Aconselho-a a aceitar o convite que virá — mais ligeiro que a mula de Sancho, ainda que não tão veloz quanto meu Rocinante. E antes que eu pudesse insistir, partiu, seguido de seu fiel escudeiro. Fiquei entre o livro e o mundo, à espera do tal convite. - Podemos ler juntas? Ergui a cabeça ... como quem volta
CHÁ DAS CINCO
Três meninas faceiras Sentam-se à mesa Para o chá das cinco
Riem de tudo De Sancho De nada
Falam De si Do amor Da Triste Figura
À noitinha Retornam à casa Nutridas de pôr-do-sol
Saudades!
Imagem: composição visual criada por IA a partir de conceito autoral
Tentei matar O poeta que mora em mim Descobri que o poeta Há muito Já havia matado a mim E que eu Eu em mim Sou Apenas sou Um saco de ossos tatalando Que o poeta vai arrastando.
Estes textos não nascem prontos, nem pretendem ser grandes. São registros de um olhar em construção — pequenos momentos, pensamentos, tentativas.
Durante muito tempo guardei tudo por medo do erro. Hoje, com mais liberdade, escolho compartilhar o que considero mais vivo, mesmo que ainda imperfeito.
Aqui há cenas, restos, palavras que ficaram. Há também dúvidas, silêncios e um esforço contínuo de nomear o que sinto e vejo.
Este espaço é parte de um caminho: aprender a dizer.
Árvore frondosa Galhos balançam Vento ou passarinho
Árvore caduca Passarinho Canta ao sol
Latido de cão Passarinho voou Todos atentos
Florzinha amarela Pétala andante
Barco balança Nas ondas do mar Sol de verão
Ondas do mar Barco apoitado Sol de verão
Sol Pela fresta Vitamina D
Deitei os olhos No livro Amanheceu
Rompe o dia Apneia Taquicardia
Corpos aceitam Longas horas de sol Final de verão
Fim de tarde Mar sereno Leve brisa Corpos ao sol
Foram-se todos Ficaram as palavras Nas cadeiras
Foram-se todos Ficaram as palavras E as cadeiras
Sobre a mesa Caderno Caneta Sem ideia
Primavera florida Até cadeira olha Pela janela
Costuro poemas Penduro Na janela
Penduro poemas Que na janela Costuro
Autocentrada Leio-me Indefinidamente
Olhar um Livro pelas frestas Suscita Mau aconselhamento
Calço os chinelos de pano Chego à janela Vejo o mundo Espio o horror Fecho os postigos que se batem Puxo as cortinas Acendo as velas do candelabro Chopin ou Mozart? Vou até a lareira Coloco uma acha de lenha Reavivo as línguas de fogo
Contemplo a gata dormindo no sofá Vou até a cristaleira Pego uma taça Abro uma garrafa de vinho Volto à lareira Tiro o casacão Agacho-me ao pé do sofá onde está minha gata Coloco no chão a taça e a garrafa Vou até a estante Pego o livro deitado na frente dos outros Coloco-o no chão junto à taça e à garrafa Busco almofadas dispostas no sofá Ouço o crepitar da lenha me chamando E os gritos dos seres além de meu postigo
Vou até a vitrola Escolho um disco entre alguns nos escaninhos Pego o braço da agulha Empurro-o para trás Vejo o prato girar - o prato gira lentamente A rotação aumenta Cai o vinil Coloco a agulha na primeira ranhura Ouço o silêncio perfeito criado pela minha apneia Espero A música se impõe aos gritos apavorantes dos transeuntes, atrás do postigo Volto ao tapete em frente à lareira Inclino-me Sento no chão Pego meu livro Analiso a capa Aliso seu volume acetinado Releio a contracapa Percebo novamente a música a se sobrepor aos barulhos das sirenes do outro lado do postigo
Ergo a garrafa Ergo a taça Despejo um pouco de vinho cor de sangue na taça Giro o copo Analiso o anel colorido deixado pelo vinho nas paredes da taça Inspiro seu buquê suave Lembro-me do sangue derramado na rua em frente à minha janela Sinto o cheiro ácido-oxidado do sangue livre Volto à suavidade da música Ao perfume do vinho Ao toque macio no livro Ao divino sabor da uva transformada em vinho Lembro-me dos seres transformados em feras do outro lado do postigo Acomodo-me entre as almofadas Aqueço-me diante da lareira Lembro-me dos mendigos acomodados nas calçadas Minha gata pula do sofá Aproxima-se de mim Ronrona Estico a mão Aliso sua cabeça macia e peluda Ela devolve-me com um giro de corpo Lembro-me das crianças retorcidas do outro lado do postigo Inclino a taça Inspiro novamente o buquê do vinho Bebo um gole Lembro-me da sede entre homens do outro lado da minha janela
Abro o livro Busco a marca onde parei Reclino a cabeça Fecho os olhos Ouço a música suave Sinto a gata do meu lado Toco os contornos do livro Percebo meu coração parando Ouço ao longe os últimos pedidos de socorro Crianças chorando Homens esbravejando Mulheres em histeria Velhos em agonia Respiro com dificuldade Abro os olhos Leio: “tudo é efêmero”, Um gole de vinho Uma nota musical Um afago na gata Uma dor no peito Um golpe de ar apaga as velas do candelabro... 19.07.2015