Livro aberto
Palavras
Brincam solitárias
Correm
Pulam
Se escondem
Se aproximam
Formam pares
Se conjugam
Formam tribos
No coração distraído
Novas emoções
Autora: Rita Marília

Fotografia antiga pertencente à autora
Livro aberto
Palavras
Brincam solitárias
Correm
Pulam
Se escondem
Se aproximam
Formam pares
Se conjugam
Formam tribos
No coração distraído
Novas emoções
Autora: Rita Marília

Fotografia antiga pertencente à autora
Atrás da moça
Passante
Cabelo
Dançante Dançante
Passou
sou
ou
u
......................................................
Autora: Rita Marília

Foto autoral de Rita Marília
Desculpa, hoje eu te traí.
E te traí com aquele homem elegante
Te traí com aquele sonho alucinante
Te traí com o teu eco
Com o teu espectro
Com o teu reflexo.
Desculpa, hoje eu te traí.
E te traí totalmente
Completamente
Dançando com o teu fantasma
Beijando tua sombra
Amando tua lembrança.
E te traí muito
E me deleitei
E ri muito
Porque finalmente
Enlouquecidamente
Hoje eu te traí.
Autora: Rita Marília
07/12/2007

Fotografia Autoral de Rita Marília
Na calada do dia
Quando a morte se fez fria
Fui embalada na sombra
Do teu abraço de despedida
Morrestes.
Morri contigo.
Estava na hora de perceber
Quanto eras minha vida,
Sangrar o coração aflito
Para aceitar tua partida.
Ledo engano!
Vinte anos depois
Tua morte
A sangrar meu coração aflito
Sem poder aceitar tua partida
Morrestes.
Sim, eras minha vida.
Continuo morrendo contigo
Em pequenos pedaços,
Em lânguida agonia!
Autora: Rita Marília
15/01/2006

Foto autoral de Rita Marília
20/06/2026
Boa tarde amiga do céu
Mande notícias
Aqui tudo igual
Mesmo jeitinho
Nem lá nem cá.
No meio
Impossível
Lá ou cá
Sem saída
Sem entrada
Seguindo sempre
Pé lá
Pé cá
Só cuidando
Para não exagerar
(Autora: Rita Marília )
11/05/2026

Fotógrafa: Rita Marília
Voltar ao simples
Simples respirar
Respirar sem mais nada
Nada desejar
(Autor: Rita Marília)
setembro / 2015

Fotógrafa: Rita Marília
No livro
Cabe
Palavras
Pedras
Gotas
Uma estrela
Um cometa
No livro
Coube
O beijo da partida
O olhar numa lágrima
Teu corpo
Minha vida
O intangível...
... minha sombra.
No livro cabe o mundo.
O silêncio do mundo
O rufar dos tambores
O tufão
O furacão
Apocalipse
Só não coube o nosso adeus.
(Autora: Rita Marília)
22/12/2018

Foto: Fotógrafa Rita Marília
Sou lua
Cheia
Minguante
Sou nova
Você me olha
No quarto
Crescente
Cheia
Minguante
Sua amante.
(Autora: Rita Marília)
28/06/2017

Foto: Fotógrafa Rita Marília
Minha vida é caminho
Só caminho
Se posso, escolho
Chão batido
Árvores
Canto de passarinho
Se não
Calço as pantufas
Desenho um assobio
E vou como posso
Autora: Rita Marília
18/11/2017

Fotografia autoral de Rita Marília
Eles não pedem permissão.
Mil sons gritam em minha cabeça
É ensurdecedor
Tonta, jogo-me de um a outro
Salve-me, Deus
Sou do Teu rebanho
Não sei por que derramas
Tua ira
A noite vem
A loucura cresce
Sozinha, incapaz
Vampiros sugam minh'alma
Debaixo do meu teto
Riem, dançam, rodopiam
Olhos vermelhos
Sangue a escorrer
Pela boca
Tapo os ouvidos
Fecho os olhos
Eles adentram
Pelos poros
Silêncio
Os anjos dormem
Os demônios se divertem
Não estou em mim
Loucura ou demônio
Apossaram-se de mim
Rio, danço, rodopio
Não sou mais
Autora: Rita Marília
03/07/2015

Foto autoral de Rita Marília
Primeiro Dia
Hoje
Nada tenho
Para escrever
Segundo Dia
Hoje
Ainda nada tenho
Para escrever
Terceiro Dia
Hoje
Pensei algo:
Esqueci.
Autora: Rita Marília
28/02/2017

Fotografia autoral de Rita Marília
No poleiro canta o galo
Para a moça da janela
"Ouça bem moça malvada:
Não vou hoje p'ra panela".
E cantando todo dia
Vai o galo bem feliz
Vendo que da morte fria
Vai fugindo por um triz
O sol levanta bem cedo
O galo é seu aprendiz
"Vou viver eternamente"
Canta assim o infeliz.
(Autora: Rita Marília)
09/05/2018

Fotografia autoral de Rita Marília
Também na Revista eletrônica “Escritores do Brasil” número 5, à pagina 73 editada em 30.07.2019
Segue link: Leia aqui
Vô pedi a Santantônio
Nesse mês que é o seu
Pra ranjá um namorado
Que seja todinho meu
Não precisa sê bonito
Elegante ou coisa e tar
Só precisa tê carinho
Prá mode me conquistar
Pode sê preto, amarelo
Grandão ou pequeninote
Só não pode fazê feio
Na hora de dançá o xote
Pode falá de mansinho
Pode falá rastadinho
Só não pode ficá mi oiando
Sem sorri um bocadinho
Pode inté usá gravatinha
Bombacha ou clavinote
Só não pode vin cherando
A mulher no seu cangote
Inté pode facão na cinta
Lenço branco ou encarnado
Só não pode comê angú
E fica ajumentado.
Santantônio conseguindo
Um noivo prá modi eu casá
Eu compro uma capelinha
Prá Ele ir lá morá
Todo dia dô uma vela
Pru seus pé alumiá
Verde, encarnada, azur
Prá Ele nus bençoá.
Autora: Rita Marília
24.junho.2018

Começa em Mi
Completa em Si
Estando Só
Sentindo Dó
Se vai a Ré
Aqui ou Lá.
Fá
( Autora: Rita Marília)
29/09/2015

Cedo cedo coração com sede nessa sede
Cedo cedo nessa sede coração com sede
Cedo nesta sede cedo coração com sede
Cedo cedo sede dum coração com sede
Coração com sede cede cedo sua sede
Cedo coração com sede cede sua sede.
(Autora: Rita Marília ) – 18/08/2015

Imagem: Composição visual criada por IA a partir de conceito autoral
Vovô viu a uva
A uva não viu vovô
A uva não uiva
O cão de vovô uiva
Vovô viu a noiva na curva
A noiva de luva uiva
Vovô não usa luva
Noite de chuva
Vovô uiva
Morre vovô na curva.
Vovô não mais verá a uva
Nem a noiva de luva
(Autora: Rita Marília)
25/10/2016

A poesia também foi editada à pagina 19 do Suplemento Literário A ILHA
número 144 de março/2018 – Ler Mais
A Pedra e o Caminho
Tinha uma pedra no meio do caminho
No meio da pedra tinha um caminho
No caminho tinha meia pedra
Tinha um meio entre a pedra e o caminho
Nunca me esquecerei desse acontecimento
Quando a pedra atrapalhou meu caminho
Meu caminho que não era de pedra
Nem de meias pedras, nem de meios caminhos
Recadinho para Mário Quintana
Meu tempo
Também passará
Passarinho!
Apenas penas
Ficarão
Do meu caminho
Entre Pedras e Penas
A melhor parte da chegada
É o caminho
Com pedra ou sem pedras
Com pena ou sem penas
Um caminho de pedras e penas.
Minha pena corre
E não tropeça na pedra
Autora: Rita Marília

Imagem: composição visual criada por IA a partir de conceito autoral.
Há encontros que não são planejados — acontecem.
Um poema chama outro. Uma pedra chama um caminho. Uma pena pousa onde antes havia obstáculo. O que começou como diálogo com vozes que admiro tornou-se percurso próprio. Percebi que os três textos não estavam lado a lado por acaso: eles se movem. Do peso à leveza. Da lembrança à escrita. Do tropeço à maturidade. Hoje assumo essa travessia. Entre pedras e penas, a palavra segue. E não tropeça.
Amanheceu para nós
Para fazer novos nós
Ou desfazer alguns nós
Na conivência de nós.
Nós que amamos
Nós que precisamos
Nós que desejamos
Nós que abandonamos
Nós que não queremos.
Nós em nós
Nós, só nós
Do choro ao silêncio
Eternamente
Nós.
- eternamente sós -
(Autora: Rita Marília- 08.12.2018)

Sentada na pedra
Eu e uma formiga
Verão acabou
Sentada na pedra
Eu e uma formiga
Outono passou
Sentada na pedra
Eu e uma formiga
Inverno findou
Sentada na pedra
Eu e uma formiga
Primavera, Ah!
Autora: Rita Marília
05/12/2015

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Eu sou uma pandorga
A balançar pelo ar
E você é o menino
A me levar a voar
Olha, solta, estica, larga
Corre atrás e torna a puxar
E assim você menino
Faz a pandorga bailar
Lá longe muito distante
Olhos atentos aos céus
Todos olham a pandorga
Ninguém olha os olhos seus.
Autora: Rita Marília
11/11/2017
Fiz um vestido verde
Para meus sonhos
Cobrir
Um vestido rodado
P’ro vento do acaso
Verde como teus olhos
Sedoso como teus beijos
Caía-me bem
Como o teu amor
Pendurado
Sofre os males do tempo
Mofa
Morre
(Autora: Rita Marília )
15/07/2011

Fotografia autoral de Rita Marília
CASTIGO
Mira teu castigo
Eu
Mira meus olhos
Teus
Mira minha boca
Oca
Mira meu pescoço
Colosso
Mira meus seios
Cheios
Mira minha cintura
Pura
Mira minha pele
Desvele
Mira meu ventre
Entre
Mira!
Mira e atira.
(Autora: Rita Marília )
09/12/2018

Fotografia autoral de Rita Marília
Senhor!
Não olheis assim para mim
Minhas rugas denunciam minha idade
Mas, nem de longe, o meu desejo
Pois que pode desnudar minha volúpia
E buscar em vós o meu prazer.
Senhor!
Ficais assim a instigar-me?
Não sabeis então
Que navega em vossos olhos
A pretensão de minha boca?
Ora, Senhor meu!
Não fiqueis a bulir
Quem quieta está
Quem sob o disfarce da
Indiferença
Cobre com panos gélidos
A volúpia
Olhais, por certo, as mais moças
Para mergulhardes no imaginário
Onde o espelho do tempo vos mentirá
Dizendo quem já não sois
Eu, Senhor meu, miro vossa estampa
Vejo vossas rugas
Percebo vossos contornos
E imagino
Ainda possuirdes
Em vossas mãos o meu desejo
A descobrir que a vida,
Em velhas curvas sem beleza,
Também pode levar-me,
Em queda livre, ao prazer
Por isso Senhor meu!
Conservai o vosso olhar no meu decote
E percebei
Minha respiração ofegante
Lentamente ofegante
Misteriosamente ofegante
E concedei-me
Bulir vossa íris
Massagear vossa pupila
E ver-me, e sentir-me
Penetrada
Pelo vosso olhar.
Então, Senhor meu!
Grávida de vossos desejos
Irei embora
Vaidosa e confiante.
(Autora: Rita Marília )
22/05/2017

Imagem: Composição visual criada por IA a partir de conceito autoral
Imagem: composição visual criada por IA a partir de conceito autoral.
Feliz por ter sido incluído na revista “Chicos” conforme mensagem recebida
Qualquer coisa é um nada
Que devagar lentamente
De nós vai se apoderando
Pulsando
Abrindo, fechando
Se tornando
Ser
Crescente
A nos envolver docemente
Semente
Eternamente
(Autora: Rita Marília)
09/08/2018

Fotografia autoral de Rita Marília
No seco do meu coração
Plantei.
Nasceu cacto
Regador sem furo
Reguei
Sol forte
Protegi
A mim e a meu cacto
Desmaiei.
Alguém
Levou meu cacto
Fiquei no seco.
No seco fiquei.
(Autora: Rita Marília)
19/07/2016

Fotografia autoral de Rita Marília
Abri a mão
Ela voou
Livre
Virei saudade.
(Autora: Rita Marília)
25/06/2015

Fotografia autoral de Rita Marília
Eram duas estrelas
Uma do céu
Uma do mar
Que na areia se amavam
O mar ciumento chegou
Galopando em suas vagas
Separou
Quem na areia se amava
Nunca mais!
Nunca mais!
O mar rugindo espumava.
(Autora: Rita Marília )
20/03/2018

Fotografia Autoral de Rita Marília
Quem me olha de soslaio?
Entre
a casa é sua
Não repare no abandono
Sem quadros nas paredes
Sem flores nos vasos
Sem velas acesas
As paredes
guardam contornos
e teias
Vem
empurre as cortinas
Abra as janelas
Deixe o sol entrar
Aqueça este ambiente fúnebre
Dançar?
Não posso
O silêncio
me paralisou
ocupou todos os espaços
Já vai…
Fique
Preciso de luz
Fica
Fica
Fica...
(Autora: Rita Marília )
28/01/2017

PASSOS PEQUENOS
Quando, em silêncio, vislumbro
O amanhã triste, escuro
Fecho a porta, acendo a vela
E me ponha a bailar
Seguro na mão do vento,
Na minha cintura, o tempo
Me conduzindo vai lento
Nos frágeis passos que tento
E, olhando meus pés, eu percebo
Meus passos, assim tão pequenos
Só meus sonhos podem voar
(Autora: Rita Marília )
24.03.2020

Fotografia autoral de Rita Marília
Foi assim:
Num dia qualquer, Sancho Pança chamou-me para juntos regalar o bofe com os manjares de seu bornal. Aceitei.
Mal me ajeitava, surgiu diante de mim um senhor — não, um Duque — que, após uma mesura caprichada, apresentou-se:
— Ilustre dama, deixai que me apresente. Sou Dom Quixote de La Mancha, cavaleiro da Triste Figura, vosso criado e, se me permitis, vosso guia nesta jornada.
Encantaram-me suas mesuras. Alegraram-me os trajes. Já a fala… exigia fôlego.
— Senhor — respondi —, com tantas honras me abasteço em seus dizeres, mas creio que sozinha não darei conta nem dos saberes que dizem existir no lombo de seu rocin.
Ele ergueu o queixo, seguro de si:
— Senhora, a espera sem espora é justa e necessária. Aconselho-a a aceitar o convite que virá — mais ligeiro que a mula de Sancho, ainda que não tão veloz quanto meu Rocinante.
E antes que eu pudesse insistir, partiu, seguido de seu fiel escudeiro.
Fiquei entre o livro e o mundo, à espera do tal convite.
- Podemos ler juntas?
Ergui a cabeça ...
CHÁ DAS CINCO
Três meninas faceiras
Sentam-se à mesa
Para o chá das cinco
Riem, falam, poetizam,
Sentidos e sentimentos,
Músicas do coração
À noitinha
Retornam à casa
Nutridas de pôr-do-sol
Saudades!
09/08/2015
Duas meninas tristonhas
Sentam-se à mesa
Para o chá das cinco.
Falam, poetizam, mas não riem
Sentidos e sentimentos
Dor no coração.
À noitinha
Retornam à casa
Antes do pôr-do-sol.
01/07/2026
(Autora: Rita Marília )

Imagem: composição visual criada por IA a partir de conceito autoral
Saudades!

Tentei matar
O poeta que mora em mim
Descobri que o poeta
Há muito
Já havia matado a mim
E que eu
Eu em mim
Sou
Apenas sou
Um saco de ossos tatalando
Que o poeta vai arrastando.
Imagem feita por IA
Estou na rua
Sou da rua
Minha alma voa como folha seca
Meu espírito, sufocado
Não tenho escrito
Perdi todas as frases
Estou superlotada de silêncio
Preciso escrever
Canso-me das companhias
Preciso da solidão
Estou no entremeio
Em rodopio
Perdi
Não sou
Onde estou?
Quem procuro?
Ainda sinto?
Continuo a ser?
Caí no poço
Emergirei?
Preciso ficar só
Muito tempo
Para voar além de mim
Até a ponta das minhas asas
Palavras tontas
Frases bêbadas
Meu texto não sobrevive
Preciso expulsar o nada
Escrever, escrever, escrever
Respirar, transpirar, até evaporar
O tempo se formando
Eu me deformando
Continuo nada dizendo
Vou embora daqui
Talvez eu esteja em outro lugar
Autora: Rita Marília

Foto autoral de Rita Marília
Delira alma sonhadora
Já não é sem tempo
Deves descobrir teu sonho
E quiçá vê-lo morrer
Em tua histeria.
Delira
Que em ti
Tudo é fugaz
Mas toma cuidado
Que talvez
Por tão antigo
Enraizado
Em tua carne
Esteja
Delira, alma infante
Já não é sem tempo
Cumprires tua sina


Nem sei por que eu escrevo
Escrevo porque já senti
Um fogo imenso infinito
Rodando dentro de mim
Escrevo porque não posso
Falar do que vai em mim
Só palavras escritas podem
Levar o meu querubim
E sigo neste deleite
Sabendo quem me traduz
O som de uma palavra
Na boca de quem a conduz
Não posso fugir confesso
Dos sons desta balada
Prefiro morrer à míngua
Que ser dela enviuvada
Passei um tempo infeliz
Longe da valsa dolente
Meus ais todos ausentes
Com olhos de meretriz
Disseram-me: "vai por aqui"
Ou talvez "vá por ali"
O mundo a nada conduz
Eu pobre morria em cruz
Nada de belo olhei
Nada de sonho sonhei
Nada aqui eu conquistei
Nada ali eu revelei
Tristes dias de clausura
De boca amarga fiquei
Minhas palavras trancadas
Nos sonhos que não sonhei
Agora voem meus sonhos
Estendam as asas, meus ais
Buliça, minha alegria
E da pena vos derramais
Nunca mais volto a cabeça
Nunca mais mulher de sal
Hoje sou o sol e a lua
Hoje sou na pedra a cal.
Na mala
Importa
o que tem
o que tira
o que deixa.
Mala
no chão

Imagem autoral
O pinto pia
O gato mia
A‘strela guia.
A moça espia.
A velha fia
A mãe paria.
A flor abria
O sol ardia
Roda cutia.
Vida inicia
Soberania
Lucro, euforia
Explode a cria
É fantasia.
Levanta o dia
Pneumonia
Nada comia
Hipertermia
Foi boemia
Quando chovia.
Vai à abadia
Nest’ agonia
Tudo ironia
Monotonia
O mundo ardia
Hemorragia.
Da ventania
A sinfonia
A morte ria...
Ele a seguia.

Imagem: Composição visual criada por IA à partir de conceito autoral

Poemas Breves
Escrevo como quem aprende a dizer.
Estes textos não nascem prontos, nem pretendem ser grandes. São registros de um olhar em construção — pequenos momentos, pensamentos, tentativas.
Durante muito tempo guardei tudo por medo do erro. Hoje, com mais liberdade, escolho compartilhar o que considero mais vivo, mesmo que ainda imperfeito.
Aqui há cenas, restos, palavras que ficaram. Há também dúvidas, silêncios e um esforço contínuo de nomear o que sinto e vejo.
Este espaço é parte de um caminho: aprender a dizer.
Árvore frondosa
Galhos balançam
Vento ou passarinho
Árvore caduca
Passarinho
Canta ao sol
Latido de cão
Passarinho voou
Todos atentos
Florzinha amarela
Pétala andante
Barco balança
Nas ondas do mar
Sol de verão
Ondas do mar
Barco apoitado
Sol de verão
Sol
Pela fresta
Vitamina D
Deitei os olhos
No livro
Amanheceu
Rompe o dia
Apneia
Taquicardia
Corpos aceitam
Longas horas de sol
Final de verão
Fim de tarde
Mar sereno
Leve brisa
Corpos ao sol
Foram-se todos
Ficaram as palavras
Nas cadeiras
Foram-se todos
Ficaram as palavras
E as cadeiras
Sobre a mesa
Caderno
Caneta
Sem ideia
Primavera florida
Até cadeira olha
Pela janela
Costuro poemas
Penduro
Na janela
Penduro poemas
Que na janela
Costuro
Autocentrada
Leio-me
Indefinidamente
Olhar um
Livro pelas frestas
Suscita
Mau aconselhamento
Ler um
Livro pelas frestas
Mau conselho
A noite
Ilumina
O dicionário
De noite
A lâmpada ilumina
O dicionário
Lua tristonha
Vem namorar
Meus poemas
Contemplação
Paz
Coração leve
Sentimento vazio
De palavras
Sentimento vazio
Calço os chinelos de pano
Chego à janela
Vejo o mundo
Espio o horror
Fecho os postigos que se batem
Puxo as cortinas
Acendo as velas do candelabro
Chopin ou Mozart?
Vou até a lareira
Coloco uma acha de lenha
Reavivo as línguas de fogo
Contemplo a gata dormindo no sofá
Vou até a cristaleira
Pego uma taça
Abro uma garrafa de vinho
Volto à lareira
Tiro o casacão
Agacho-me ao pé do sofá onde está minha gata
Coloco no chão a taça e a garrafa
Vou até a estante
Pego o livro deitado na frente dos outros
Coloco-o no chão junto à taça e à garrafa
Busco almofadas dispostas no sofá
Ouço o crepitar da lenha me chamando
E os gritos dos seres além de meu postigo
Vou até a vitrola
Escolho um disco entre alguns nos escaninhos
Pego o braço da agulha
Empurro-o para trás
Vejo o prato girar - o prato gira lentamente
A rotação aumenta
Cai o vinil
Coloco a agulha na primeira ranhura
Ouço o silêncio perfeito criado pela minha apneia
Espero
A música se impõe aos gritos apavorantes dos transeuntes, atrás do postigo
Volto ao tapete em frente à lareira
Inclino-me
Sento no chão
Pego meu livro
Analiso a capa
Aliso seu volume acetinado
Releio a contracapa
Percebo novamente a música a se sobrepor aos barulhos das sirenes do outro lado do postigo
Ergo a garrafa
Ergo a taça
Despejo um pouco de vinho cor de sangue na taça
Giro o copo
Analiso o anel colorido deixado pelo vinho nas paredes da taça
Inspiro seu buquê suave
Lembro-me do sangue derramado na rua em frente à minha janela
Sinto o cheiro ácido-oxidado do sangue livre
Volto à suavidade da música
Ao perfume do vinho
Ao toque macio no livro
Ao divino sabor da uva transformada em vinho
Lembro-me dos seres transformados em feras do outro lado do postigo
Acomodo-me entre as almofadas
Aqueço-me diante da lareira
Lembro-me dos mendigos acomodados nas calçadas
Minha gata pula do sofá
Aproxima-se de mim
Ronrona
Estico a mão
Aliso sua cabeça macia e peluda
Ela devolve-me com um giro de corpo
Lembro-me das crianças retorcidas do outro lado do postigo
Inclino a taça
Inspiro novamente o buquê do vinho
Bebo um gole
Lembro-me da sede entre homens do outro lado da minha janela
Abro o livro
Busco a marca onde parei
Reclino a cabeça
Fecho os olhos
Ouço a música suave
Sinto a gata do meu lado
Toco os contornos do livro
Percebo meu coração parando
Ouço ao longe os últimos pedidos de socorro
Crianças chorando
Homens esbravejando
Mulheres em histeria
Velhos em agonia
Respiro com dificuldade
Abro os olhos
Leio: “tudo é efêmero”,
Um gole de vinho
Uma nota musical
Um afago na gata
Uma dor no peito
Um golpe de ar apaga as velas do candelabro...
19.07.2015

Por trás dos montes espia
Outras almas a brincar
Por trás dos montes expia
Vendo almas a cantar
Atrás dos montes se esconde
Esta alma a esperar.

És tu, pro Inferno!
Viagem além do horror
Dentro de si
Busca incauta
De ser outra,
De estar em outra.
Desgrudar
A pele
Pegajosa,
Putrefata,
Ulcerada.
Liberdade
Acalentada
No esquecimento
Do beijo ensanguentado,
Da mão varicosa,
Do olhar lodal.
Vida pelo final.
Muda canção de ninar,
Ciranda de roda de uma só
Infância esquartejada:
Vida em morte,
Morta.

Imagem: Composição visual criada por IA a partir de conceito autoral.