Poema

Ex-Cada

Simples assim é o viver:
Sinuoso
Subindo sempre
Sentindo emoções
Sensações
Subindo sempre
Sem degrau de descida
Só ilusão e subida
Sem descanso, só fadiga.
No último
A queda fria
Vazia.

Saudade
Dos primeiros degraus
Da subida!

Simples assim é o viver
Outros Autores · Poema · Prosa

Noite Na Taverna – Álvares de Azevedo

” …
—Quem eu sou? na verdade fora difícil dizê-lo: corri muito mundo, a cada instante mudando de nome e de vida. Fui poeta e como poeta cantei. Fui soldado e banhei minha fronte juvenil nos últimos raios de sol da águia de Waterloo. Apertei ao fogo da batalha a mão do homem do século. Bebi numa taverna com Bocage — o português, ajoelhei-me na Itália sobre o túmulo de Dante e fui a Grécia para sonhar como Byron naquele túmulo das glórias do passado. — Quem eu sou? Fui um poeta aos vinte anos, um libertino aos trinta, sou um vagabundo sem pátria e sem crenças aos quarenta. Sentei-me a sombra de todos os sóis, beijei lábios de mulheres de todos os países; e de todo esse peregrinar só trouxe duas lembranças — um amor de mulher que morreu nos meus braços na primeira noite de embriaguez e de febre — e uma agonia de poeta… Dela,
tenho uma rosa murcha e a fita que prendia seus cabelos. Dele olhai… “

Parte do conto “Noite na Taverna” de Álvares de Azevedo, extraído do site
http://objdigital.bn.br/Acervo_Digital/Livros_eletronicos/noitenataverna.pdf

Noite na Taverna é uma antologia de contos do autor ultrarromântico brasileiro Álvares de Azevedo sob o pseudônimo Job Stern. Foi publicada postumamente, em 1855; três anos após a sua morte.
( https://pt.wikipedia.org/wiki/Noite_na_Taverna )

Em seu velório foi lido o poema abaixo que compôs alguns dias antes

SE EU MORRESSE AMANHÃ

Se eu morresse amanhã, viria ao menos
Fechar meus olhos minha triste irmã;
Minha mãe de saudades morreria
Se eu morresse amanhã!

Quanta glória pressinto em meu futuro!
Que aurora de porvir e que amanhã!
Eu perdera chorando essas coroas
Se eu morresse amanhã!

Que sol! que céu azul! que doce n’alva
Acorda a natureza mais louçã!
Não me batera tanto amor no peito
Se eu morresse amanhã!

Mas essa dor da vida que devora
A ânsia de glória, o doloroso afã…
A dor no peito emudecera ao menos
Se eu morresse amanhã!

https://www.pensador.com/frase/NjA3NDEx/

Álvares de Azevedo
Nasceu a 12.09.1831 em São Paulo e morreu em 25.04.1852 no Rio de Janeiro, aos 20 anos de idade

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Por Quem Foi Que Me Trocaram

Por quem foi que me trocaram
Quando estava a olhar pra ti?
Pousa a tua mão na minha
E, sem me olhares, sorri.

Sorri do teu pensamento
Porque eu só quero pensar
Que é de mim que ele está feito
E que o tens para mo dar.

Depois aperta-me a mão
E vira os olhos a mim...
Por quem foi que me trocaram
Quando estás a olhar-me assim? 



FERNANDO ANTÓNIO NOGUEIRA PESSOA foi um poeta, filósofo, dramaturgo, ensaísta, tradutor, publicitário, astrólogo, inventor, empresário, correspondente comercial, crítico literário e comentarista político português. Fernando Pessoa é o mais universal poeta português.
* Nasceu a 13 de junho de 1888, Lisboa, Portugal
+ Faleceu a 30 de Novembro de 1935, Lisboa, Portugal.


Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990).  – 19. http://arquivopessoa.net/textos/4230
https://pt.wikipedia.org/wiki/Fernando_Pessoa

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Kremmer

Foi um dia de kremesse.
Depois de rezá três prece
Pra que os santo me ajudasse,
Deus quis que nós se encontrasse
Pra que nós dois se queresse,
Pra que nós dois se gostasse.
Inté os sinos dizia
Na matriz da freguezia
Que embora o tempo corresse,
Que embora o tempo passasse,
Que nós sempre se queresse,
Que nós sempre se gostasse.
Um dia, na feira, eu disse
Com a voz cheia de meiguice
Nos teus ouvido, bem doce:
Rosinha si eu te falasse...
Si eu te beijasse na face...
Tu me dás-se um beijo? — Dou-se.
E toda a vez que nos vemo,
A um só tempo perguntemo
Tu a mim, eu a vancê:
Quando é que nós se casemo,
Nós que tanto se queremo,
Pro que esperamos pro quê?
Vancê não falou comigo
E eu com vancê, pro castigo,
Deixei de falá também,
Mas, no decorrê dos dia,
Vancê mais bem me queria
E eu mais te queria bem.
— Cabôco, vancê não presta,
Vancê tem ruga na testa,
Veneno no coração.
— Rosinha, vancê me xinga,
Morde a surucucutinga,
Mas fica o rasto no chão.
E de uma vez, (bem me lembro!)
Resto de safra... Dezembro...
Os carro afundando o chão.
Veio um home da cidade
E ao curuné Zé Trindade
Foi pedi a sua mão.
Peguei no meu cravinote
Dei quatro ou cinco pinote
Burricido como o quê,
Jurgando, antes não jurgasse,
Que tu de mim não gostasse,
Quando eu só amo a vancê.
Esperei outra kremesse
Que o seu vigário viesse
Pra que nós dois se casasse.
Mas Deus não quis que assim sesse
Pro mais que nós se queresse
Pro mais que nós se gostasse. 
OLEGÁRIO MARIANO

OLEGÁRIO MARIANO – Recife, 24 de março de 1889 – Rio de Janeiro, 28 de novembro de 1958. Foi poeta, político e diplomata brasileiro. Foi eleito em 23 de dezembro de 1926 para a cadeira 21 da Academia Brasileira de Letras. Era primo do poeta Manuel Bandeira ( 1886 – 1968 ). Embaixador do Brasil em Portugal entre 1953 e 1954 . Em 1938, em concurso promovido pela revista Fon-Fon, foi eleito Príncipe dos Poetas Brasileiros, em substituição a Alberto de Oliveira, detentor do título depois da morte de Olavo Bilac, o primeiro a obtê-lo. Nas revistas Careta e Para Todos, escrevia sob o pseudônimo de João da Avenida, uma seção de crônicas mundanas em versos humorísticos. Ficou conhecido como “o poeta das cigarras”, por causa de um de seus temas prediletos. 
Magnum opus: Cantigas de encurtar caminho: poemas

Retrato de Olegário Mariano , 1928, Candido Portinari
Reprodução fotográfica Projeto Portinari – extraído do site https://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa2797/olegario-mariano

OLEGÁRIO Mariano. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2020. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa2797/olegario-mariano&gt;. Acesso em: 11 de Jan. 2020. Verbete da Enciclopédia.
ISBN: 978-85-7979-060-7

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Anjinho

Não chorem... que não morreu!
Era um anjinho do céu
Que um outro anjinho chamou!
Era uma luz peregrina,
Era uma estrela divina
Que ao firmamento voou!

Pobre criança! Dormia:
A beleza reluzia
No carmim da face dela!
Tinha uns olhos que choravam,
Tinha uns risos que encantavam!...
Ai meu Deus! era tão bela.

Um anjo d'asas azuis,
Todo vestido de luz,
Sussurrou-lhe num segredo
Os mistérios doutra vida!
E a criança adormecida
Sorria de se ir tão cedo!

Tão cedo! que ainda o mundo
O lábio visguento, imundo,
Lhe não passara na roupa!
Que só o vento do céu
Batia do barco seu
As velas d'ouro da poupa!

Tão cedo! que o vestuário
Levou do anjo solitário
Que velava seu dormir!

Que lhe beijava risonho
E essa florzinha no sonho
Toda orvalhava no abrir!

Não chorem! lembro-me ainda
Como a criança era linda
No fresco da facezinha!
Com seus lábios azulados,
Com os seus olhos vidrados
Como de morta andorinha!

Pobrezinho! o que sofreu!
Como convulso tremeu
Na febre dessa agonia!
Nem gemia o anjo lindo,
Só os olhos expandindo
Olhar alguém parecia!

Era um canto de esperança
Que embalava essa criança?
Alguma estrela perdida,
Do céu c'roada donzela...
Toda a chorar-se por ela
Que a chamava doutra vida?

Não chorem... que não morreu!
Que era um anjinho do céu
Que um outro anjinho chamou!
Era uma luz peregrina,
Era uma estrela divina
Que ao firmamento voou!

Era uma alma que dormia
Da noite na ventania
E que uma fada acordou!
Era uma flor de palmeira
Na sua manhã primeira
Que um céu d'inverno murchou!

Não chorem! abandonada
Pela rosa perfumada,
Tendo no lábio um sorriso,
Ela se foi mergulhar
- Como pérola no mar -
Nos sonhos do paraíso!

Não chorem! chora o jardim
Quando marchado o jasmim
Sobre o seio lhe pendeu?
E pranteia a noite bela

Pelo astro ou a donzela
Mortos na terra ou no céu?

Choram as flores no afã
Quando a ave da manhã
Estremece, cai, esfria?
Chora a onda quando vê
A boiar um irerê
Morta ao sol do meio-dia?

Não chorem!... que não morreu!
Era um anjinho do céu
Que um outro anjinho chamou!
Era uma luz peregrina,
Era uma estrela divina
Que ao firmamento voou! 

Manuel Antônio Álvares de Azevedo ( São Paulo, 12 de setembro de 1831 – Rio de Janeiro, 25 de abril de 1852 ) Foi um escritor da segunda geração romântica ( ultra-romântica, byroniana ou mal-do-século ), contista, dramaturgo, poeta e ensaísta brasileiro, autor de Noite na Taverna .

Ver mais em
https://alvares-deazevedo.blogspot.com/2009/01/anjinho.html

Outros Autores

Quási –


Mário de Sá-Carneiro, in Dispersão

Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num grande mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dor! - quase vivido...

Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim - quase a expansão...
Mas na minhalma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!

De tudo houve um começo ... e tudo errou...
- Ai a dor de ser - quase, dor sem fim...
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou...

Momentos de alma que desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ânsias que foram mas que não fixei...

Se me vagueio, encontro só indícios...
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios...

Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...

Um pouco mais de sol - e fora brasa,
Um pouco mais de azul - e fora além.
Para atingir faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

Listas de som avançam para mim a fustigar-me
Em luz.
Todo a vibrar, quero fugir... Onde acoitar-me?...
Os braços duma cruz
Anseiam-se-me, e eu fujo também ao luar...
 
Nasceu a 19 Maio 1890
(Lisboa)Morreu em 26 Abril 1916
(Paris, França). Mário de Sá-Carneiro foi um poeta, contista e ficcionista português, um dos grandes expoentes do modernismo em Portugal e um dos mais reputados membros da Geração d’Orpheu.
Curiosidades

Museu – Significado Original

A Mitologia Grega Como Início de um Imaginário Museal

A palavra museu tem início na Grécia antiga, com a palavra grega mouseion, que significa Templo das Musas. Ou seja, a palavra museu tem início na mitologia grega.

Zeus, o olímpico, rei e pai de muitos dos deuses, casado com Hera, a rainha dos deuses e a deusa do casamento, sempre teve seus casos fora de seu casamento. Frequentemente mantinha casos com outras deusas e mortais, e Hera sempre terminava por descobrir e, enfurecido, sempre encontrava uma forma de punir as amantes de Zeus.

Após a guerra contra os titãs, as divindades anteriores aos deuses, Zeus se encontra com Mnemosine, deusa da memória, e, por dez noites consecutivas, se deita com ela. Após um ano, Mnemosine dá a luz às nove musas. As nove musas foram encarregadas de cantar a vitória e os grandes feitos dos deuses, sobre as suas divindades e belezas. Eram as preservadoras da memória. Cada musa possuía um nome e uma atribuição, dada por Hesíodo em seu livro Teogonia, sendo elas:

  • Calíope: Era a primeira das irmãs e era a musa da eloquência;
  • Clío: A musa da história;
  • Euterpe: A musa da poesia lírica;
  • Tália: A musa da comédia;
  • Melpômene: A musa da tragédia;
  • Terpsícore: A musa da dança;
  • Érato: A musa dos versos eróticos;
  • Polímnia: A musa dos hinos e a narradora de histórias;
  • Urânia: A musa da astronomia.

As musas eram a personificação das artes e das ciências. Eram donas da memória absoluta, imaginação criativa e presciência e, com suas danças, músicas e narrativas, ajudavam os homens a esquecer a ansiedade e a tristeza.

Segundo a mitologia grega, o templo das musas era localizado sobre o Monte Hélicon, e era frequentado por poetas, filósofos, astrônomos, entre outros estudiosos em busca de inspiração. Em muitos casos, essas buscas eram seguidas de presentes para as musas, objetos de todo tipo. Era uma mistura de templo e instuição de pesquisa destinada ao conhecimento filosófico. Havia exposições de artes e objetos dentro do museu, porém eram mais com uma finalidade de agradar as divindades do que para a contemplação humana.

É importante, aqui, mencionar que quando tratamos do início da palavra museu ao templo das musas, não queremos dizer que o templo das musas seja um protótipo de museus como conhecemos hoje. São ideias diferentes que compartilham um certo imaginário museal. O templo das musas era um templo, dedicado a adoração, a busca por inspiração, e a contemplação aos deuses. Os museus não possuem esse caráter.

Enquanto muitos tratam do templo das musas, como descrito, um local de adoração, de contemplação e busca por inspiração, poucos olham para as musas como personificação do imaginário museal. As musas eram as preservadoras da memória e cantavam com o intuito de manter a lembrança viva, elas representavam a compilação de todo conhecimento, das ciências e da memória.

O Museu de Alexandria

Apolo e as Musas no Monte Helicon (1680) por 
Claude Lorrain

Poucos sabem que a Biblioteca de Alexandria não era apenas uma biblioteca, mas sim uma espécie de convergência de tudo quanto é disciplina científica da época.

Durante a dinastia dos Ptolomeus, no Egito do século II antes de Cristo, a principal preocupação do mouseion de Alexandria era ensinar e discutir todo o saber enciclopédico existente na época, nos campos da religião, mitologia, astronomia, filosofia, medicina, zoologia, geografia, entre outros. O Museu possuía, além de estátuas e obras de arte, instrumentos cirúrgicos e astronômicos, peles de animais raros, presas de elefantes, pedras e minérios trazidos de terras distantes, etc.

Era constituída por um jardim botânico, observatório astronômico, laboratórios, bibliotecas, arquivos, exposição de objetos, zoológico, entre outros.

Dessa forma, muitos autores, dentro da museologia e áreas relacionadas, o chamam de Museu de Alexandria. Porém, mais uma vez, como nos templos das musas, o Museu de Alexandria não deve ser encarado como uma instituição museólogica atual. o Museu de Alexandria apenas compartilha um imaginário museu, alguns elementos. Também não deve ser encarado como um predecessor do museu. Cada instituição, através da história, que já teve alguns elementos que constituem o museu no presente, não era um predecessor, pois não almejava se tornar um museu. Porém é importante notar que o Museu de Alexandria representa uma parte da ideia de museu, que durante o renascimento até o nascimentos dos museus modernos, ficará ligada ao nome do museu; como uma compilação exaustiva, quase completa, sobre um determinado tema.

Podemos, a partir desses pontos, notar que a ideia de colecionar é tão antiga quanto o homem. Desde que o homem começou a produzir objetos de toda sorte para atuar, modificar e interpretar a realidade, o homem começou a colecionar objetos de fascinação, de estética atraente ou “amuletos mágicos” para a proteção.

Até aqui, vimos um panorama sobre algumas da ideias presentes no conceito moderno de museus, que tiveram suas origens em ações e ideias tão antigas quanto o homem. Por mais moderno que sejam os museus, ele possuí raízes na antiguidade.

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Texto extraído do site: https://medium.com/museus-e-museologia/no-come%C3%A7o-haviamouseion-9491b931c480

Prosa

Blumenau – 1850 – 1950 – A História Perdida

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 “ Deixai qualquer esperança, vós que entrais ” – Dante.

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Cento e dez pessoas chegam numa tarde de verão ou inverno, no obscuro futuro da esperança para alguns, tragédia para outros, acampam, misturam-se e somam-se aos 17 que ali estavam. Quem eram essas 110 pessoas para além do que poderíamos ver na carne? Homens, mulheres, crianças dentro e fora da barriga, agarradas ao peito, na mão, na saia, nas pernas dos de cabelos louros ou castanhos, olhos azuis, calças de tecido, saias compridas, tamancos, chinelos, botinas, fraldas, bicos, bolsas, malas de madeira, de papelão, sacos de pano, lenços na cabeça, fitas de cetim, chapéus redondos, ovais, bicudos, pretos, tragédia no olhar, mosquito, suor a escorrer no rosto, no pescoço, no sovaco, nas costas, entre as pernas, na alma que tremia febril pelo espanto, pela insegurança, pelo medo, pela tragédia do sarampo, da gripe, da malária, da febre sem sentido, da gravidez em seu fim, pelo parto mal sucedido, pela morte da mãe, pelo desespero da criança que ficará sem mãe, sem rumo, sem pátria, sem infância, sem juventude, para enfim casar e filhos ter para cuidar e dividir a terra que é enorme, gigante, ao lado do rio cheio de mistérios, peixes abundantes nunca vistos, serpenteando a mata cheia de madeira, de animais ferozes, de frutas exóticas e abundantes como a banana, a laranja, o abacaxi, que de seu suco se extrai o mais rico sabor que a terra já produziu além de milho, feijão, batata, farinha, cevada para cerveja que virá acompanhada do humor alemão, além da dança que já está, como também a língua materna que se transformará em dialeto em muitos lugares por onde estes homens, 110 homens, colocarem seus pés, seus filhos, seus sonhos, seu netos com suas esperanças de um dia voltarem a ver a pátria amada ou ao menos retratá-la, homenageá-la nesta terra brasil acolhedora, ampla, vasta, imponente, inexplorada, dura, feroz e mansa no leito do rio, no leito de morte, no leito do berço que transformou o imigrante em brasileiro, em colono feito de uma nacionalidade por fora e de outra por dentro, que se explica na música, na dança, no tiro ao alvo, no bolão, na comida, no sotaque, no nome Blumenau, Friedenreich, Franz, Müller, August, Braunschweig, chucruts, bier, strudell, polka, Franz e Frida que se amaram na primeira noite sob a lua, sob as estrelas, sob o sol e na noite de tempestade quando o rio encheu lavando e levando sonhos, esperanças, crenças no pastor da igreja que proferia Deus misericordioso, senhor do céu  e desta terra abençoada por quem nunca nenhum deles viu, ouviu, apertou a mão, trabalhou junto, sonhou, sofreu, chorou, dançou a polka a embalar o filho, outro filho, outro filho que casará com a filha do ilustre Senhor que de colono passou a ilustre Senhor da casa grande construída ao estilo dos ancestrais alemães que nunca sequer sonharam em abandonar a terra pátria para irem além-mar, além do lugar onde o sol se põe em múltiplas cores encontradas nos trajes típicos alemães, prussianos, poloneses, austríacos misturados a dormirem juntos, a procriarem, a viverem e morrerem no mesmo chão de uma terra anteriormente longínqua, inóspita, selvagem, abundante em riqueza para os corajosos, para os destemidos homens, mulheres, crianças que choravam, trabalhavam, adoeciam, morriam de febre, de susto, de tifo, de mordida de cobra, macaco, jacaré, cachorro raivoso enterrado lado a lado com a criança recém batizada pelo padre que mora longe, que batiza, casa, dá a extrema unção aos que depois de tudo feito com obstinação por terem sido recebidos por poucos com alegria patriótica, militar, fraterna para comporem 127 homens com lotes já definidos, recebendo outros tantos homens, criando do nada uma comunidade, uma igreja, uma escola, uma professora, um escritor, uma cervejaria, um alambique, um engenho, duas atafonas de mandioca, mais  cervejarias, um teatro, uma serraria, uma casa comercial, uma escola de arte, uma escola alemã, um hotel, um cemitério para que os primeiros que ali chegaram esperassem os 110 que ali chegariam e mais outros que lá nasceram e nem se criaram ou pouco se criaram junto com todos os louros de olhos azuis ou os nem tão louros  de olhos azuis e os pardos e os negros e os índios botocudos ou não, que se diziam verdadeiramente brasileiros mas que nada construíam apenas cantavam pelados, despudorados, sacudindo seus cocares, seus colares de sementes e penas, renegados por deus que não gosta de gente pelada a não ser na barriga das mães parideiras anualmente pela graça do senhor do céu e pelo poder do Senhor da terra, da Frida, e da porca, da ovelha, da chinoca, da casa, do cavalo, do chiqueiro, da lavoura, da lei e da ordem de fazer e não fazer, do que vestir, comer, cantar, comprar, vender, ensinar, aprender, namorar, casar, e que depois virá outro Senhor a reforçar ou refazer as ordens, as desordens, as conquistas, as histórias escritas em tinta no papel, em luz no daguerreótipo, no desenho, na pintura, na xilogravura, na litografia, na escultura, na fotografia, na lembrança dos que ficaram, dos que ouviram dos que ali passaram, trabalharam, casaram ou não,  dos que ali morreram ou voltaram para sua pátria, dos que vieram de São José Da Terra Firme para condensar em livro os primeiros 100 anos da história de Blumenau, que nunca mais será perdida. 
A Gilberto Shmidt-Gerlach

PS. “Rogamos às pessoas que receberem o presente número de jornal e não tiveram a vontade de ler, o obséquio especial de devolvê-lo”.

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Texto inspirado na obra “Colônia de Blumenau no Sul do Brasil” – 1ª edição 2019 e Filme baseado no livro homônimo, de Gilberto Schmidt-Gerlach, Bruno Kilian Kadletz e Marcondes Marchetti .

Poema

Espaço

No livro
Cabe
Uma dor, uma tristeza
Uma palavra, uma vontade
Um cometa e uma estrela.
 
No livro
Cabe
Teu beijo na partida
Teu olhar na minha lágrima
Teu corpo na minha vida
Teu intangível...
              ... minha sombra.
 
No livro cabe o mundo.
No livro cabe o silêncio do mundo
O rufar dos tambores
O tufão, o furacão
Apocalipse
Só não cabe o nosso adeus.

Imagem de Rita Marília
Prosa

A Máquina de Fazer Pensamento

Era 6h46min de uma manhã gelada de inverno.

Acordei, talvez, uma hora atrás e percebi que minha máquina de fazer pensamento estava e continuava trabalhando a todo vapor. Uma revolução ímpar de pensamentos, imagens e emoções passavam por mim, cada qual com mais pressa e desejo de ser meu eleito. Porém um, de menor possibilidade, frágil, de luz viva, porém discreta, se escondia e, mesmo escondido, era ainda mais empurrado para o lado enquanto diziam que ele, que era feito sem nenhum argumento, débil, muito pouco robusto, não tinha nenhum valor.

Permaneci assim parada, estarrecida, a querer entender tal briga de gigantes diante de mim.

Como pacificadora tentei, de todas as formas, harmonizar o ambiente, entretanto pouco resultado obtive. Cada qual trazia em si armas e argumentos dos mais variados, revestidos de cores e imagens para impressionar e fazer-me decidir.

Foi difícil este momento porque, do terror ao sublime amor, todas as imagens, todas as emoções e todos os pensamentos percorreram o estreito caminho da decisão.

Os mais ousados e assustados vinham com imagens tristes, lembranças de pânico, sugerindo tragédias impossíveis de vencer. Os idealistas, mais seguros de si, vinham com argumentos plausíveis, amorosos, edificantes.

Estive neste desfile de pensamentos, emoções e sentimentos, impossibilitada de uma tomada de decisão assertiva.

Deixei digladiarem-se, certa de que o mais forte venceria. Porém, qual foi minha surpresa quando percebi que não era o mais forte que me levava para a escolha, mas aquela luz timidamente brilhante, aquela luz que a um canto ficara.

E de repente tudo escureceu. Neste instante percebi, perplexa, que quem iluminava a briga dos gigantes era tão somente aquela luzinha que ficara esquecida a um canto; aquela luzinha tênue, frágil, tímida.

Não tive mais dúvida. Tudo se esclarecera naquele breu e então, eu gritei:

– Basta, basta, basta! A escolha já foi feita!

Todos pararam imóveis. A máquina de fazer pensamento estancou no silêncio que em mim se fez audível, e eu, serena, sentenciei:

– Não tenho mais dúvida: o vencedor é o Sonho!