Estas são costuras de outros tempos. Algumas nasceram em 2012, outras em 2015. Ficaram guardadas e agora voltam para a luz, não porque sejam perfeitas, mas porque ainda reconheço nelas alguma coisa minha. Hoje, ao revisitá-las, descubro também outras maneiras de dizer o que um dia tentei dizer. Talvez seja essa a graça de guardar palavras: elas podem esperar muitos anos até que voltem a nos ensinar alguma coisa. *********************
Quando vejo alguma coisa Eu logo penso em ti Então paro e me pergunto Quando vens morar aqui?
Definitivamente Entreguei-me Ao delírio de poetizar - E tu, coadjuvante?
Café Preto Adorável!
Num bar Sozinha Meu público É maior Meus pensamentos!
Comi como rainha Então Não posso poetizar
Anseio por encontrar A comida perfeita O sentimento perfeito A palavra perfeita O poema perfeito Loucura!
Pulei acima de todos Na multidão apertada Percebendo num lampejo Fazer parte da manada
Um elefante na mata é um elefante na mata. A mata contém um elefante e pode conter dois elefantes. Dois elefantes na mata são dois elefantes na mata, mas, para a mata, dois elefantes é igual a um elefante, que pode ser nenhum elefante. Porém, se o sol bate nos dois elefantes que caminham fora da mata, então teremos quatro elefantes, ou dois pares de elefantes caminhando juntos. Quando se veem dois pares de elefantes, com o sol a pino sobre eles, pode-se dizer que existem dois pares de elefantes, em que um carrega o outro, e de uma forma muito estranha: o menor carrega o maior. Mas, se a noite vem, dois elefantes desaparecem e ficam apenas dois. Ou, se a noite é sem estrelas, pode-se dizer que não há nenhum elefante, dentro ou fora da mata, e a mata continuará sendo mata, com ou sem elefante. Um elefante com a tromba para cima continua sendo um elefante com a tromba para cima, mesmo que esteja dentro da mata ou fora da mata. Porém, se houver dois elefantes com a tromba para cima, poderá se dizer que existe um par de elefantes com a tromba para cima. Caso os dois elefantes com a tromba para cima estejam sob o sol da manhã, pode-se dizer que há dois pares de elefantes com a tromba para cima. Porém, se for o sol a pino sobre eles, então haverá dois elefantes sem a tromba para cima carregando dois elefantes com a tromba para cima. Nesse momento, em que o sol está a pino e os elefantes sem a tromba para cima carregam os elefantes com a tromba para cima, a mata continua sua história milenar e imutável de mata. Havendo ou não elefantes, dentro ou fora da mata, com ou sem trombas para cima, sendo ou não carregados ou aos pares, o importante é que você leu e entendeu que, havendo ou não elefantes, dentro ou fora da mata, com ou sem trombas para cima, sendo ou não carregados ou aos pares, a mata é a mata e nada muda o estado da mata. "Você chegou até aqui. Agora, para sair ileso da mata, tente livrar-se dos elefantes."
Autora: Rita Marília 25/06/2026
Imagem: composição visual criada por IA a partir de conceito autoral
De repente o horizonte anunciou um temporal. As árvores balançaram suas cabeleiras pondo muitos ninhos ao chão. Depois o silêncio e, no horizonte, o manto cinza começava a se estender sobre o oceano em nossa direção. ... e nenhum pássaro voou. Tudo era calmaria: assustador. Víamos o céu a se matizar do cinza ao chumbo, do chumbo ao breu. ... e veio vindo, silencioso, rápido, deslizando como cobra ao bote. Assustados, paramos e aguardamos o fim com o coração batendo no mesmo compasso dos relâmpagos que, agora, clareavam o que já não se via. Ficamos petrificados, depois impotentes como folhas ao vento. … e o silêncio virou sinfonia de tambores e da sinfonia, o caos. ... e agora estava sobre nossas cabeças e gritava e gargalhava e chicoteava e nos sacudia e nos horrorizava ... e perdendo a visão, entramos a entender o inferno, a nos questionar, nos arrepender, a nos purificar, a nos abençoar. ... e aquele manto nos cobriu. ... e nada mais soubemos da vida.
Estava em frente ao balcão da loja de ferragens esperando ser atendida quando ouvi algo caindo ao meu lado. Imediatamente virei-me, olhei para baixo e encontrei uma pequena chave que em nada representava o barulho estrondoso que eu ouvira segundos antes. Baixei-me para pegá-la e no exato momento em que eu colocava a mão sobre ela, senti um calor abrasador na palma da minha mão. Minha reação foi tirar imediatamente a mão de cima dela e levantar-me por impulso, mantendo meus olhos fixos nela. A chavinha, ainda no mesmo lugar, brilhava como se fosse de ouro, atingida por um único raio de sol. Senti minha vista arder pela intensidade da luz e desviei o olhar. O atendente parou em frente a mim e perguntou-me o que eu queria mas eu, com o coração aos pulos, apenas fiquei olhando o rapaz que começou a notar uma certa estranheza em meu olhar. Ele olhava para mim sem poder falar e eu olhava para ele sem poder dizer nada. E assim, ficamos tentando nos entender até que outro rapaz chegou e, vendo-nos parados a olhar-nos, balbuciou algo sem conseguir dizer nada, e ali permaneceu. Éramos, então, três a olharmo-nos. À nossa volta outros clientes iam e vinham, compravam e pagavam, mas, nós três, permanecíamos olhando-nos. Foi quando outro cliente chegou ao meu lado e vendo algo estranho no chão, abaixou-se, pegou do chão a chavinha e colocou em cima do balcão perguntando se alguém havia perdido. Foi exatamente no momento em que a chavinha rolou da mão dele e caiu no balcão que eu e os dois balconistas nos olhamos espantados a nos interrogar sem emitir palavra alguma. Abaixei a cabeça, peguei a chave que agora estava gelada e fui embora sem saber para que ela serviria. E meu carro ficou do outro lado da rua …
Autora: Rita Marília 15/06/2026
Imagem: composição visual criada por IA a partir de conceito autoral
Na sala de parto um último grito; um silêncio; um choro. Na penumbra do corredor, um homem de branco mostra a outro uma criancinha ainda envolta em pano branco manchado de sangue. Ao longe, na igrejinha da praça, os sinos dobram. São exatas seis horas da tarde: a hora da Ave-Maria.
Se a tristeza batesse à minha porta, com um tímido sorriso eu abriria e a deixaria entrar. Convidaria para sentar no sofá da sala; prepararia um cafezinho ou uma boa xícara de chá e conversaria longamente com ela.
Por certo ela me contaria, a princípio com algum constrangimento, o motivo de sua visita. Pacientemente eu a escutaria para entendê-la: talvez ela chorasse ao se despir do pudor.
Posso supor que eu também choraria.
Quando nossas lágrimas estivessem mais raras, eu a convidaria para um passeio pelo meu interior. Mostraria meu jardim e as flores que consegui cultivar, apesar dos tempos nublados.
Depois a levaria até o quarto de dormir e a deitaria numa cama acolhedora para que descansasse.
Pé ante pé sairia do quarto, não sem antes fechar as janelas e apagar todas as luzes.
Voltaria para a sala e, sozinha, velaria por ela durante toda a noite.
Ao amanhecer nos encontraríamos na sala novamente e eu a veria transformada, iluminada.
Sem dizermos mais nada, e pelo meu silêncio fazendo-a entender, ela partiria, deixando em seu lugar uma compreensão nostálgica.
Sem demora, eu correria até a janela para ainda vê-la sumir.
Se não a acolhesse ao assomar à minha porta, sei que por sua natureza ela se tornaria minha sombra sempre que o sol tentasse iluminar minha alma
Imagem: Composição visual criada por IA a partir de conceito autoral.
Escrevo como quem aprende a dizer. Estes textos não nascem prontos, nem pretendem ser grandes. São registros de um olhar em construção — pequenos momentos, pensamentos, tentativas. Durante muito tempo guardei tudo por medo do erro. Hoje, com mais liberdade, escolho compartilhar o que considero mais vivo, mesmo que ainda imperfeito. Aqui há cenas, restos, palavras que ficaram. Há também dúvidas, silêncios e um esforço contínuo de nomear o que sinto e vejo. Este espaço é parte de um caminho: aprender a dizer. ****************
Árvore frondosa Galhos balançam Vento ou passarinho
Árvore caduca Passarinho Canta ao sol
Latido de cão Passarinho voou Todos atentos
Florzinha amarela Pétala andante
Barco balança Nas ondas do mar Sol de verão
Ondas do mar Barco apoitado Sol de verão
Sol Pela fresta Vitamina D
Deitei os olhos No livro Amanheceu
Rompe o dia Apneia Taquicardia
Corpos aceitam Longas horas de sol Final de verão
Fim de tarde Mar sereno Leve brisa Corpos ao sol
Foram-se todos Ficaram as palavras Nas cadeiras
Foram-se todos Ficaram as palavras E as cadeiras
Sobre a mesa Caderno Caneta Sem ideia
Primavera florida Até cadeira olha Pela janela
Costuro poemas Penduro Na janela
Penduro poemas Que na janela Costuro
Autocentrada Leio-me Indefinidamente
Olhar um Livro pelas frestas Suscita Mau aconselhamento