Rua! Estou na rua. Estou como a folha de uma árvore. Sou da rua.
Meu espírito está sufocado; minha alma clama por voar.
Não tenho escrito.
Estou superlotada de silêncio. Preciso escrever.
Já perdi todas as frases.
Canso-me das pessoas; preciso de solidão.
Perdi-me. Estou no meio de um redemoinho.
Não sou ninguém.
Onde estou? O que sinto? Quem eu quero ser ou continuar a ser?
Viver ou morrer?
Caio no poço.
Emergirei. Salvar-me-ei.
Voarei além de mim, até a ponta de minhas asas.
Preciso ficar só, muito tempo só.
Minhas palavras são vazias, minhas frases, sem sentido, e meu texto, desconexo.
Mas preciso expulsar este nada.
Preciso escrever, escrever, escrever, como preciso respirar.
O tempo tem se formado sem que eu transborde.
Nada mais tenho a dizer.
Vou embora.
Talvez, em outro lugar, eu esteja
Categoria: Fragmentos
Mistério
Tristeza
Se a tristeza batesse à minha porta, com um tímido sorriso eu abriria e a deixaria entrar. Convidaria para sentar no sofá da sala; prepararia um cafezinho ou uma boa xícara de chá e conversaria longamente com ela.
Por certo ela me contaria, a princípio com algum constrangimento, o motivo de sua visita. Pacientemente eu a escutaria para entendê-la: talvez ela chorasse ao se despir do pudor.
Posso supor que eu também choraria.
Quando nossas lágrimas estivessem mais raras, eu a convidaria para um passeio pelo meu interior. Mostraria meu jardim e as flores que consegui cultivar, apesar dos tempos nublados.
Depois a levaria até o quarto de dormir e a deitaria numa cama acolhedora para que descansasse.
Pé ante pé sairia do quarto, não sem antes fechar as janelas e apagar todas as luzes.
Voltaria para a sala e, sozinha, velaria por ela durante toda a noite.
Ao amanhecer nos encontraríamos na sala novamente e eu a veria transformada, iluminada.
Sem dizermos mais nada, e pelo meu silêncio fazendo-a entender, ela partiria, deixando em seu lugar uma compreensão nostálgica.
Sem demora, eu correria até a janela para ainda vê-la sumir.
Se não a acolhesse ao assomar à minha porta, sei que por sua natureza ela se tornaria minha sombra sempre que o sol tentasse iluminar minha alma

Imagem: Composição visual criada por IA a partir de conceito autoral.
Costuras Mínimas

Poemas Breves
Escrevo como quem aprende a dizer.
Estes textos não nascem prontos, nem pretendem ser grandes. São registros de um olhar em construção — pequenos momentos, pensamentos, tentativas.
Durante muito tempo guardei tudo por medo do erro. Hoje, com mais liberdade, escolho compartilhar o que considero mais vivo, mesmo que ainda imperfeito.
Aqui há cenas, restos, palavras que ficaram. Há também dúvidas, silêncios e um esforço contínuo de nomear o que sinto e vejo.
Este espaço é parte de um caminho: aprender a dizer.
Árvore frondosa
Galhos balançam
Vento ou passarinho
Árvore caduca
Passarinho
Canta ao sol
Latido de cão
Passarinho voou
Todos atentos
Florzinha amarela
Pétala andante
Barco balança
Nas ondas do mar
Sol de verão
Ondas do mar
Barco apoitado
Sol de verão
Sol
Pela fresta
Vitamina D
Deitei os olhos
No livro
Amanheceu
Rompe o dia
Apneia
Taquicardia
Corpos aceitam
Longas horas de sol
Final de verão
Fim de tarde
Mar sereno
Leve brisa
Corpos ao sol
Foram-se todos
Ficaram as palavras
Nas cadeiras
Foram-se todos
Ficaram as palavras
E as cadeiras
Sobre a mesa
Caderno
Caneta
Sem ideia
Primavera florida
Até cadeira olha
Pela janela
Costuro poemas
Penduro
Na janela
Penduro poemas
Que na janela
Costuro
Autocentrada
Leio-me
Indefinidamente
Olhar um
Livro pelas frestas
Suscita
Mau aconselhamento
Ler um
Livro pelas frestas
Mau conselho
A noite
Ilumina
O dicionário
De noite
A lâmpada ilumina
O dicionário
Lua tristonha
Vem namorar
Meus poemas
Contemplação
Paz
Coração leve
Sentimento vazio
De palavras
Sentimento vazio

