Prosa

Dois Estranhos

Encontrei um livro na estante da minha casa. 

Ao olhar sua lombada percebi que, depois de colocá-lo ali, nunca mais o havia tocado: estava intacto, imóvel, quase petrificado pelo tempo.
Olhei-o com ternura e vi o tempo que por nós havia passado: eu em pleno rebuliço imposto pela vida, ele, em sepulcral silêncio.
Olhei-o no rosto: imutável como o havia conhecido. Provável, ele não poderia dizer o mesmo de mim… muito mais velha.
Nunca havíamos nos aberto um ao outro: eu nunca lera suas entrelinhas, ele nunca lera meus olhos.
Tive medo de abri-lo. O que nele se escondia? Quais verdades, quais mentiras, quais ilusões, quais promessas? 
E ele, teria coragem de me abrir? O que encontraria? Nuvens, flores que há muito desabrocharam, temporais que se foram, esperanças que jazem no berço ainda?
Quem somos, perguntei a ele
Sem abri-lo deduzi: ele pedra, eu rio.
Caminhei lenta até o sofá, lenta e cuidadosamente como quem carrega o mundo que pode se esfacelar no chão ao primeiro fraquejar: o dele ou o meu?
Sentei-me e, com o amor de quem faz um parto, abri suas entranhas para extrair dele a luz.
Éramos, enfim, dois estranhos a se revelarem: ele em pedra, firme em suas ideias, eu em rio, mutante.
Abracei-o e, então, nos amamos em silêncio para toda a eternidade.

Fotógrafa Rita Marília

Prosa · Reflexões

Uma Aula de Matemática no Céu de Minha Janela

Aula de Matemática no céu de minha Aldeia

“Uma reta é uma sequência infinita de pontos equidistante, sem começo nem fim. Sobre ela se apoiam infinitos segmentos de reta “.

Fotógrafa Rita Marília

Traduzindo: Deus é uma sequência infinita de amor equidistantes, sem começou nem fim. Sobre Ele se apoiam infinitos segmentos de amor, infinitos seres humanos.

Um segmento de reta nada mais é do que uma parte de uma reta que possui um ponto inicial e um ponto final, chamados de “extremos”: as paixões.

O ponto não possui forma nem dimensão. Isso significa que o ponto é um objeto adimensional: a unidade de Deus.