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Noite Na Taverna – Álvares de Azevedo

” …
—Quem eu sou? na verdade fora difícil dizê-lo: corri muito mundo, a cada instante mudando de nome e de vida. Fui poeta e como poeta cantei. Fui soldado e banhei minha fronte juvenil nos últimos raios de sol da águia de Waterloo. Apertei ao fogo da batalha a mão do homem do século. Bebi numa taverna com Bocage — o português, ajoelhei-me na Itália sobre o túmulo de Dante e fui a Grécia para sonhar como Byron naquele túmulo das glórias do passado. — Quem eu sou? Fui um poeta aos vinte anos, um libertino aos trinta, sou um vagabundo sem pátria e sem crenças aos quarenta. Sentei-me a sombra de todos os sóis, beijei lábios de mulheres de todos os países; e de todo esse peregrinar só trouxe duas lembranças — um amor de mulher que morreu nos meus braços na primeira noite de embriaguez e de febre — e uma agonia de poeta… Dela,
tenho uma rosa murcha e a fita que prendia seus cabelos. Dele olhai… “

Parte do conto “Noite na Taverna” de Álvares de Azevedo, extraído do site
http://objdigital.bn.br/Acervo_Digital/Livros_eletronicos/noitenataverna.pdf

Noite na Taverna é uma antologia de contos do autor ultrarromântico brasileiro Álvares de Azevedo sob o pseudônimo Job Stern. Foi publicada postumamente, em 1855; três anos após a sua morte.
( https://pt.wikipedia.org/wiki/Noite_na_Taverna )

Em seu velório foi lido o poema abaixo que compôs alguns dias antes

SE EU MORRESSE AMANHÃ

Se eu morresse amanhã, viria ao menos
Fechar meus olhos minha triste irmã;
Minha mãe de saudades morreria
Se eu morresse amanhã!

Quanta glória pressinto em meu futuro!
Que aurora de porvir e que amanhã!
Eu perdera chorando essas coroas
Se eu morresse amanhã!

Que sol! que céu azul! que doce n’alva
Acorda a natureza mais louçã!
Não me batera tanto amor no peito
Se eu morresse amanhã!

Mas essa dor da vida que devora
A ânsia de glória, o doloroso afã…
A dor no peito emudecera ao menos
Se eu morresse amanhã!

https://www.pensador.com/frase/NjA3NDEx/

Álvares de Azevedo
Nasceu a 12.09.1831 em São Paulo e morreu em 25.04.1852 no Rio de Janeiro, aos 20 anos de idade

Prosa

Blumenau – 1850 – 1950 – A História Perdida

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 “ Deixai qualquer esperança, vós que entrais ” – Dante.

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Cento e dez pessoas chegam numa tarde de verão ou inverno, no obscuro futuro da esperança para alguns, tragédia para outros, acampam, misturam-se e somam-se aos 17 que ali estavam. Quem eram essas 110 pessoas para além do que poderíamos ver na carne? Homens, mulheres, crianças dentro e fora da barriga, agarradas ao peito, na mão, na saia, nas pernas dos de cabelos louros ou castanhos, olhos azuis, calças de tecido, saias compridas, tamancos, chinelos, botinas, fraldas, bicos, bolsas, malas de madeira, de papelão, sacos de pano, lenços na cabeça, fitas de cetim, chapéus redondos, ovais, bicudos, pretos, tragédia no olhar, mosquito, suor a escorrer no rosto, no pescoço, no sovaco, nas costas, entre as pernas, na alma que tremia febril pelo espanto, pela insegurança, pelo medo, pela tragédia do sarampo, da gripe, da malária, da febre sem sentido, da gravidez em seu fim, pelo parto mal sucedido, pela morte da mãe, pelo desespero da criança que ficará sem mãe, sem rumo, sem pátria, sem infância, sem juventude, para enfim casar e filhos ter para cuidar e dividir a terra que é enorme, gigante, ao lado do rio cheio de mistérios, peixes abundantes nunca vistos, serpenteando a mata cheia de madeira, de animais ferozes, de frutas exóticas e abundantes como a banana, a laranja, o abacaxi, que de seu suco se extrai o mais rico sabor que a terra já produziu além de milho, feijão, batata, farinha, cevada para cerveja que virá acompanhada do humor alemão, além da dança que já está, como também a língua materna que se transformará em dialeto em muitos lugares por onde estes homens, 110 homens, colocarem seus pés, seus filhos, seus sonhos, seu netos com suas esperanças de um dia voltarem a ver a pátria amada ou ao menos retratá-la, homenageá-la nesta terra brasil acolhedora, ampla, vasta, imponente, inexplorada, dura, feroz e mansa no leito do rio, no leito de morte, no leito do berço que transformou o imigrante em brasileiro, em colono feito de uma nacionalidade por fora e de outra por dentro, que se explica na música, na dança, no tiro ao alvo, no bolão, na comida, no sotaque, no nome Blumenau, Friedenreich, Franz, Müller, August, Braunschweig, chucruts, bier, strudell, polka, Franz e Frida que se amaram na primeira noite sob a lua, sob as estrelas, sob o sol e na noite de tempestade quando o rio encheu lavando e levando sonhos, esperanças, crenças no pastor da igreja que proferia Deus misericordioso, senhor do céu  e desta terra abençoada por quem nunca nenhum deles viu, ouviu, apertou a mão, trabalhou junto, sonhou, sofreu, chorou, dançou a polka a embalar o filho, outro filho, outro filho que casará com a filha do ilustre Senhor que de colono passou a ilustre Senhor da casa grande construída ao estilo dos ancestrais alemães que nunca sequer sonharam em abandonar a terra pátria para irem além-mar, além do lugar onde o sol se põe em múltiplas cores encontradas nos trajes típicos alemães, prussianos, poloneses, austríacos misturados a dormirem juntos, a procriarem, a viverem e morrerem no mesmo chão de uma terra anteriormente longínqua, inóspita, selvagem, abundante em riqueza para os corajosos, para os destemidos homens, mulheres, crianças que choravam, trabalhavam, adoeciam, morriam de febre, de susto, de tifo, de mordida de cobra, macaco, jacaré, cachorro raivoso enterrado lado a lado com a criança recém batizada pelo padre que mora longe, que batiza, casa, dá a extrema unção aos que depois de tudo feito com obstinação por terem sido recebidos por poucos com alegria patriótica, militar, fraterna para comporem 127 homens com lotes já definidos, recebendo outros tantos homens, criando do nada uma comunidade, uma igreja, uma escola, uma professora, um escritor, uma cervejaria, um alambique, um engenho, duas atafonas de mandioca, mais  cervejarias, um teatro, uma serraria, uma casa comercial, uma escola de arte, uma escola alemã, um hotel, um cemitério para que os primeiros que ali chegaram esperassem os 110 que ali chegariam e mais outros que lá nasceram e nem se criaram ou pouco se criaram junto com todos os louros de olhos azuis ou os nem tão louros  de olhos azuis e os pardos e os negros e os índios botocudos ou não, que se diziam verdadeiramente brasileiros mas que nada construíam apenas cantavam pelados, despudorados, sacudindo seus cocares, seus colares de sementes e penas, renegados por deus que não gosta de gente pelada a não ser na barriga das mães parideiras anualmente pela graça do senhor do céu e pelo poder do Senhor da terra, da Frida, e da porca, da ovelha, da chinoca, da casa, do cavalo, do chiqueiro, da lavoura, da lei e da ordem de fazer e não fazer, do que vestir, comer, cantar, comprar, vender, ensinar, aprender, namorar, casar, e que depois virá outro Senhor a reforçar ou refazer as ordens, as desordens, as conquistas, as histórias escritas em tinta no papel, em luz no daguerreótipo, no desenho, na pintura, na xilogravura, na litografia, na escultura, na fotografia, na lembrança dos que ficaram, dos que ouviram dos que ali passaram, trabalharam, casaram ou não,  dos que ali morreram ou voltaram para sua pátria, dos que vieram de São José Da Terra Firme para condensar em livro os primeiros 100 anos da história de Blumenau, que nunca mais será perdida. 
A Gilberto Shmidt-Gerlach

PS. “Rogamos às pessoas que receberem o presente número de jornal e não tiveram a vontade de ler, o obséquio especial de devolvê-lo”.

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Texto inspirado na obra “Colônia de Blumenau no Sul do Brasil” – 1ª edição 2019 e Filme baseado no livro homônimo, de Gilberto Schmidt-Gerlach, Bruno Kilian Kadletz e Marcondes Marchetti .

Prosa

A Máquina de Fazer Pensamento

Era 6h46min de uma manhã gelada de inverno.

Acordei, talvez, uma hora atrás e percebi que minha máquina de fazer pensamento estava e continuava trabalhando a todo vapor. Uma revolução ímpar de pensamentos, imagens e emoções passavam por mim, cada qual com mais pressa e desejo de ser meu eleito. Porém um, de menor possibilidade, frágil, de luz viva, porém discreta, se escondia e, mesmo escondido, era ainda mais empurrado para o lado enquanto diziam que ele, que era feito sem nenhum argumento, débil, muito pouco robusto, não tinha nenhum valor.

Permaneci assim parada, estarrecida, a querer entender tal briga de gigantes diante de mim.

Como pacificadora tentei, de todas as formas, harmonizar o ambiente, entretanto pouco resultado obtive. Cada qual trazia em si armas e argumentos dos mais variados, revestidos de cores e imagens para impressionar e fazer-me decidir.

Foi difícil este momento porque, do terror ao sublime amor, todas as imagens, todas as emoções e todos os pensamentos percorreram o estreito caminho da decisão.

Os mais ousados e assustados vinham com imagens tristes, lembranças de pânico, sugerindo tragédias impossíveis de vencer. Os idealistas, mais seguros de si, vinham com argumentos plausíveis, amorosos, edificantes.

Estive neste desfile de pensamentos, emoções e sentimentos, impossibilitada de uma tomada de decisão assertiva.

Deixei digladiarem-se, certa de que o mais forte venceria. Porém, qual foi minha surpresa quando percebi que não era o mais forte que me levava para a escolha, mas aquela luz timidamente brilhante, aquela luz que a um canto ficara.

E de repente tudo escureceu. Neste instante percebi, perplexa, que quem iluminava a briga dos gigantes era tão somente aquela luzinha que ficara esquecida a um canto; aquela luzinha tênue, frágil, tímida.

Não tive mais dúvida. Tudo se esclarecera naquele breu e então, eu gritei:

– Basta, basta, basta! A escolha já foi feita!

Todos pararam imóveis. A máquina de fazer pensamento estancou no silêncio que em mim se fez audível, e eu, serena, sentenciei:

– Não tenho mais dúvida: o vencedor é o Sonho!

Prosa

Um Caso de Amor e Ódio

Hoje saí apressada e esqueci o celular em casa. 

A princípio fiquei chateada. No momento seguinte, fiquei com medo de precisar dele para uma emergência, mas me acalmei percebendo que à minha volta todos tinham celular e que, felizmente, eu carregava minha carteirinha do plano de saúde e o meu cartão de crédito.

Para maior segurança, busquei relembrar, com relativo esforço pela falta de uso, o número do celular da filha caso eu viesse a precisar (quantas saudades da agendinha telefônica).

Assustei-me ante a possibilidade de que minha filha, após alguns segundos decorridos tentando falar comigo sem sucesso, entrasse em pânico e começasse a me procurar nos hospitais, nas delegacias e (principalmente?) nos manicômios.

Infelizmente, por ter hora marcada no dentista, não me permiti voltar para casa a fim de resgatá-lo e o remédio foi seguir, seguir e seguir, tentando não surtar.

Cheguei, estacionei e, caminhando pela calçada em direção ao dentista, fiquei imaginando o que eu faria na sala de espera sem meu celular.

Novamente fiquei aterrorizada pela angústia que se abateria sobre mim naqueles eternos e dramáticos momentos antes da consulta, por não ter nada o que fazer.

Assim caminhei: caminhando e sofrendo, sofrendo e caminhando. E sofri por antecipação e me esconjurei por não ter verificado minha bolsa antes de sair de casa. Como pude cometer tal estrago no meu dia, ainda mais sabendo que depois do dentista, que já era outro estrago físico e financeiro, teria muitas outras coisas a fazer antes de voltar para casa?

Imbuída deste estado de desânimo, segui inconformada até o consultório e, quando lá cheguei, quando lá sentei, deparei-me com minha tragédia anunciada: o que fazer durante aqueles intermináveis minutos que antecediam a tortura? 

Ah! Se eu tivesse meu companheiro, meu amigo de todas as horas! Aquele que me distrai em todos os momentos da minha vida. Aquele que não me deixa observar nada à minha volta por ser extremamente possessivo. Aquele que promove todos os meus risos e todas as minhas lágrimas. Aquele que condensa meu dia num único segundo. Aquele que é meu confidente quando dele me valho para expressar minhas emoções. Aquele que resolve todas as minhas dúvidas. Aquele que me faz esquecer os inimigos e, porque não dizer, os amigos também, que me aproxima de muitos que a tempos eu não via e, mesmo assim, neste intervalo, nunca fizeram falta, mas agora fazem parte dos meus “Milhões de Amigos”, como disse Roberto Carlos, prevendo os “likes” do Face, quando cantou “eu quero ter um milhão de amigos”.  Aquele que, trazendo o mundo para a palma da minha mão, torna-me senhora e centro do universo, a estrela rara de quinta grandeza e a mais amada pelos muitos e muitos “likes” em minhas postagens. Aquele que é vida e morte, trabalho e lazer, aquele que une os que estão longe e separa os que estão próximos, que resolve e dificulta, que é do anjo a mão esquerda de mãos dadas com a mão direita do demônio, aquele que …

A secretária me olhou sem dó. Explico: sem dó do meu desamparo, sem dó da minha futura dor, sem dó do meu desfalque financeiro.

Porém, não me rendi e, com altivez, fingindo não entender a indiferença dela sobre minhas penas, olhei-a e lentamente levantei-me pegando a revista que “adormecia” placidamente sobre a mesinha.

Foi então que, ao folhear a revista, tive meu primeiro momento de vitória sobre a trágica ausência do meu celular.

Por favor, não leia rapidamente a palavra “folhear”. Em tempos atuais da supremacia da tecnologia, “folhear” é uma palavra que remete a um passado longínquo onde o tempo era lento, as horas, compridas e lânguidas, e “folhear” era uma benção.

Mas nada dessa melancolia do passado estava ao alcance da secretária que, pelo contrário, olhou-me de revesgueio ao ver-me “folheando”.

Não posso negar que senti o doce sabor da vitória sobre ela e sobre o imbecil do meu celular que se acha imprescindível e insubstituível.

Mostrei a ele que, a duras penas, ainda sou dona de mim quando longe dele.

E diante desta supremacia deleitei-me com a revista que a mim se entregava a cada folha virada, dizendo-me não ter ela o mundo todo de informações mas, em compensação, trazia-me o prazer da lenta leitura, do doce e nostálgico “folhear”.

Mas o dragão não morre: adormece. E, numa dúvida surgida numa frase qualquer contida na revista, o impulso de pegar o celular para buscar respostas trouxe-me novamente à angústia da separação irresponsável.

Nova pausa. Respiro profundamente e um conselho íntimo dizendo que tudo iria acabar bem, trouxe-me de volta à paz.

Neste momento de elevação e euforia de mim sobre mim mesma, a voz da dentista fez com que eu me despedisse da revista e, lenta e delicadamente, a devolvesse ao seu estado de torpor sobre a mesinha.

Na cadeira da dentista senti a tranquilidade advinda do saber que naquele momento, mesmo se eu tivesse o celular comigo, aquele infeliz estaria desligado e, portanto, não me chamaria, não existiria. Isto significava um zero a zero na nossa relação.

E na cadeira reclinada foi tanto “aiaiai”,  tanto “óóó”, tanto “hum-m-m”, que meu celular, o mundo e toda sua tecnologia não tiveram mais a menor importância para mim.

Por fim, desfalcada financeiramente, torturada e cambaleante, sem a doce companhia do meu celular que poderia servir para eu chamar uma ambulância ou a polícia, ou os dois juntos, um para socorrer-me na dor o outro para escoltar-me, segui para a porta do consultório, percorri o corredor até o elevador, achei a saída do edifício e, finalmente, a rua. Mas, e o celular?

Quem, diga-me leitor? Quem, em sã consciência, numa hora torturante dessas, lembraria de um estúpido celular? Quem? Quem? Quem? … Eu, claro!

Doía a boca, doía o bolso, dói a lembrança do objeto esquecido.

E “firme, como poste em banhado”, segui rumo a concluir as demais tarefas, dentre elas as compras no supermercado que, diga-se de passagem, é um dos bons lugares para se esquecer da existência daquela maldição.

Compras no carro, última tarefa realizada com relativa presteza, sigo para casa.

Ah! Penso eu, e por que não dizer, com profunda aflição e alegria, finalmente o encontro está próximo.

Chego em casa e minha intenção primeira era correr para ele, para que me dissesse quantas ligações, quantos likes, quantos whats, quantas mensagens recebidas; se, como o saudoso “tamagoshi”, ainda estaria vivo, ainda com bateria, se, se…

#ritamariliats

Finjo-me controlada e retiro todas as compras do carro (será que ouvi o sinal de uma mensagem chegando?), levo tudo para a cozinha, (será que esqueci mesmo em casa ou me enganei e perdi no trajeto?).
Guardo tudo, dirijo-me à sala e, finalmente,  …

Prosa

Carta Resposta

Bom dia Vovó!

Demorei para responder?  Ontem já estava deitado, eu e as lembranças, tudo em cima da cama.

Me empolguei lendo sua carta e vendo os desenhos que você me mandou e depois fui empolgado pelo sono.

Agora são 7:00 horas e o café está pronto. A Dinda me chama, a mãe me chama mas vou escrever primeiro. Sabe de uma coisa? ainda tem lua e ela está arribando para o cais do nunca.

Por aqui tudo bem: aqui deste outro lado da razão, como diz a Dinda…

Vó!  por aqui às vezes falta luz então acendemos a imaginação. Outras vezes falta água, então abrimos a torneira das emoções. Se falta luz e água corremos pra  baixo da cama e caímos num abismo fundo, escuro e perigoso cheio de lagartixas falantes, vespas gigantes, mulas que voam sem cabeça. O que nunca falta é cama para deitar o corpo cansado de carregar preguiça.

Eu acho que cama pra ser bem gostosa tinha que ter braço. Minha mãe disse que a cama dela tinha. De madrugada eu fui espiar e achei 2 braços. Pela manhã entrei no quarto dela e só encontrei o pai colocando gravata. Eu perguntei pra mãe onde ela escondia os dois braços e ela disse que quem guardava os dois braços era o pai. Perguntei pro pai onde ele escondia os 2 braços da cama da mãe. Ele disse que era segredo. Perguntei pro pai se a minha cama também podia ter 2 braços. O pai disse que só quando eu crescer eu posso colocar dois braços na minha cama. Fui correndo pra cozinha dizer para a Dinda que minha cama vai ter dois braços quando eu crescer. A Dinda riu e me deu um abraço. Eu queria os dois braços da Dinda presos na minha cama, mas se eu roubar os braços dela ela vai ficar sem os dois braços e vai ficar triste porque não vai mais poder me abraçar nem me dar um tapinha sempre que me manda brincar no quintal.

De manhã a coragem sempre me sacode até eu acordar e pular fora da cama. É sempre a hora do café com sono. Na cozinha sempre estão o pai, a mãe, a Dinda, eu e muitas frutas da estação como a goiaba alegria, a banana preguiça,o  kiwi bom humor e muitos outras. Depois chega a minha irmã com cara de sapo beiçudo. Ruim mesmo é que pela porta da cozinha, que dá para o quintal da vida dos outros, como diz a Dinda, sempre entra o moleque da tristeza carregando os mortos do dia anterior. A Dinda suspira, a mãe suspira e eu, sem saber o porquê, suspiro: todos suspiramos e o pai faz a gente agradecer a Deus por ainda não sermos notícia.

Eu repito: Deus muito obrigado por ainda não ser notícia. Eu não sei o que é ser notícia, mas agradeço. O que mais gosto é ir de tarde  jogar corrida com o vento, pular amarelinha com a sombra e, só quando estou sozinho, ir brincar de poetizar assoprando palavras na barriga do caderno de pauta quebrada.

Nem sempre faz sol por aqui, Vó, porque nossa imaginação, de tão grande, faz eclipse o dia todo. A mãe disse pare, mas nós continuamos rabiscando tanto no azul do céu até ele ficar todo furadinho: de noite nasceu estrela espiante.

Atrás de casa não pode brincar de esconde-esconde porque as árvores não sabem contar até 10, só até 5. O filho do vizinho disse que o  tio do meu primo disse que elefante também não pode brincar por causa de quê a tromba sempre fica aparecendo. Fiquei chateado. O elefante é um cara legal.

O pai me perguntou quem era o tio do meu primo. Eu baixei a cabeça porque não sabia responder mas fiquei desconfiado porque um dia o meu primo chamou meu pai de tio. Briguei com meu primo porque não quero que meu pai vire tio. Tio é bom mas não é pai. Dei o Tio para ele e fiquei com meu pai. Acho que meu primo também queria fazer essa troca mas o meu tio disse que ele já tem pai e não pode ter dois pais. Eu não sei porque o meu tio não vira pai dele. Ele fica com um tio e um pai e pode dizer que de dia ele tem pai e de noite ele tem tio. Mas eu não quero. Eu quero pai de dia e de noite.

Meu pai usa gravata… meu primo diz que é “graveta” e dá risada… meu primo é burro mas não tem orelha pontuda. Eu fui espiar a orelha dele e só tem cera dentro de um buraco. Meu primo tem um buraco na orelha e é por isto que às vezes eu chamo e ele não responde. O buraco da orelha do meu primo é bem grandona mas não cabe o dedo: eu tentei.

Minha irmã começou a namorar um homem feio. Meu pai disse para ela que ele era feio. Meu tio disse que ele era feio. Eu disse que o namorado dela era feio. Minha mãe disse pra todos:

“Pro feio ficar bonitinho
Uma coisa vou dizer
Basta olhar com carinho
Pro feio que você vê”.

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Este meu texto foi selecionado para compor a revista eletrônica ESCRITORES DO BRASIL número 5, nas páginas 71, 72 e 73, ficando eu, muito honrada.

Segue link; Ler aqui

Prosa

A Morte

Veio visitar-me a morte.
Entrou sem barulho e, sentada no sofá, aguardou a noite que não tardava.
Eu, sem saber, olhava o mundo pelo computador, via Facebook, olhando e criticando a vida de tantos e de todos.
Não sentindo tristeza pela desgraça, nem alegria pela felicidade alheia e, não sendo instruída em nada, desliguei o computador para ir dormir.
Percebi então, no sofá, a presença cândida de alguém que viera me buscar para um longo e longínquo passeio.
– Não haverá trevas nem ranger de dentes, disse-me por telepatia.
– Não haverá barco em lago sinistro, bruma ou breu da noite, continuou.
Neste instante refleti. O que ainda não estava pronto?
Comecei uma lista de coisas para a ocasião:
– dividas além das que estão no cartão de crédito? – não tenho.
– grandes pendências judiciais? – também não tenho.
– herdeiros além dos legalmente constituídos? – não possuo.
– desejos deixados para trás? – nenhum.
– esperanças do passado que ficarão no futuro inexistente? – nada.
– ódio? – não.
– desentendimentos? – Sim, mas nada que não caiba dentro do caixão.
– bens? – Sim, para felicidade dos herdeiros.
– inimigos que festejarão minha morte? – não tenho: logo não haverá fogos de artifício.
– amigos que me carregarão até o carro fúnebre? – Tenho o suficiente: 4. Poucos, mas de imenso amor e a eles meu coração e gratidão.
Minha mala está pronta.
Deixo amigos queridos, devolvo a casa que tenho chamado de parque de diversão, com meus brinquedinhos, e deixo uma história que voará pelo éter. Uma história “meio mais ou menos”, sem tragédias que possam provocar comoção nacional, sem filosofia para um livro, sem importância para significar uma perda.
Saio da história como entrei: anônima.
O que fiz durante a vida? Trazer até a velhice os sentimentos deslumbrados da infância.
Um depois? – logo saberei.
Se nada houver, nunca saberei.
Boa noite.

O texto acima foi publicado na pagina 23 da Revista literária A ILHA de junho/2019.  Muito honrada fiquei.
Ler Revista aqui

Prosa

Notícia Urgente

PALAVRAS CAVAM TÚNEL PARA FUGIREM


Ontem, a polícia descobriu um túnel, cavado e pronto, que serviria para um grupo de palavras fugirem do dicionário.
O delegado, em entrevista para o mundo e com exclusividade para nós, declarou que algumas palavras, revoltadas pelos maus tratos e abandono que vêm sofrendo, rebelaram-se e, amotinados, buscavam fugir no dia de finados.
O delegado nada mais soube ou quis dizer.
A investigação prossegue, mas o que nossos repórteres já descobriram é que a mais perigosa facção criminosa, liderada pela palavra Ética, está totalmente envolvida.
Outros nomes que estão sob suspeita são: Moral, Respeito, Civilidade e seus seguidores.
Nossos repórteres não tiveram nenhuma informação sobre a morte da Honestidade, ocorrida dentro das páginas, que está sendo mantida sob absoluto sigilo. Cogita-se que ela tenha sido espancada e torturada até a morte.
O delegado não quis falar sobre o caso para não atrapalhar o andamento das investigações, que prosseguirão assim que um novo Chefe do Departamento for nomeado, empossado e assumir o caso.
Disse-nos, o delegado, que a posse do novo Chefe deve ocorrer no prazo máximo de trinta anos (30 anos), e que este prazo não interferirá no andamento das investigações, já que tudo está sendo registrado e documentado.
Fontes altamente sigilosas informaram a nossos repórteres que mais fugas e mortes estão sendo arquitetadas dentro e fora do dicionário.
Também ficaram sabendo que outro grupo, grande e bem armado, chefiado pela Ganância, aproveitando-se da agitação nas páginas do dicionário, está preparando uma grande chacina e o alvo principal é o bando encabeçado pela Tolerância com seus comparsas que, aliás, parece já estar em negociatas com a quadrilha do Intolerante, para se pouparem da morte anunciada.
Ninguém mais quis dar entrevista, mas nossos repórteres, bravos homens da notícia, continuarão investigando por conta própria e noticiando a qualquer hora, em edição extraordinária.
Ficamos no aguardo de novas informações.

*Foto flagrante: Fotógrafa Rita Marilia #ritamariliats

Com muito orgulho fiquei de também ser publicado na Revista Literária A ILHA 148 de Março/2019.
Ler a Revista aqui

Prosa

Ninho Vazio

Síndrome do Ninho Vazio

Às 6h da manhã levanto, não por opção, mas porque eu sempre fui assim: a cama não quer mais o corpo, o corpo não quer mais a cama, mesmo que o sono fique ali deitado.
Levanto, bebo dois copos de água, passo café e sento para ler por mais ou menos uma hora e meia.
Nem sempre foi assim.
Em tempos de correria, quando a filha era pequena, quando eu trabalhava em tempo integral, levantava cedo, mas não lia. Não lia, mas em parcos momentos de um dia atribulado roubava minutos para, com fios de sonhos, tecer esperança.
Fiz, naquela época, o que julguei ser meu dever de casa. A cada noite uma página era virada e pela manhã uma nova página, com novas lições, novos desafios, novos exercícios não vividos e … sem livros para consulta.
Trabalhei, criei uma filha e, embora ela já morasse fora de casa, não a ver “encaminhada” continuava sendo minha principal ocupação, preocupação.
Numa manhã qualquer, um e-mail chamando-a para assumir um cargo conquistado através de concurso muda meu olhar sobre a minha vida e silenciosamente surge a Síndrome do Ninho Vazio: ninho emocional.
Não naquele dia, que era para comemorar. Não no outro, que era para comemorar ainda mais. Mas, depois…
Então…
Então às 6h da manhã levantei e antes de ler olhei para minha idade, olhei para meu corpo em visíveis transformações, olhei para o tempo passado e olhei para o futuro.
Futuro!? Futuro!? Futuro!?
Qual futuro?
O futuro do minuto seguinte, da noite seguinte, do dia seguinte.
O futuro aqui, grudado, de boca aberta e de olhos esbugalhados esperando minhas ordens.
Minhas ordens?
Minhas?
Minhas, sim. Minhas e de mais ninguém.
Eu? Ser dona? Ampla, total, irrestrita, dona e livre? Dona de mim, de meu tempo, de meus pensamentos? …. Eu? De mim?
Nesta manhã voltei para a cama sem ler … e dormi.
Na manhã seguinte a cama também me acolheu e na outra ela me escondeu do mundo, do mundo que sempre espiei pela fresta das possibilidades.
Possibilidades, possibilidades, possibilidades!!! …. Possível.
Então agora eu poderia olhar, não mais pela fresta, mas pela janela escancarada e alcançar as possibilidades.
Mas não desejando saber, eu dormia embalada pelo medo.
Medo!
Medo do desconhecido, medo de ser livre, medo de não ser útil e de ser esquecida, jogada no silêncio.
Medo do tempo que se agigantou à minha frente, porque os ponteiros do relógio passaram a se mexer lentamente pela falta de urgência, dando-me sobrevida.
Medo de saltar do trampolim da responsabilidade familiar, medo de estar em pleno voo – um dos momentos mais solitários em que alguém pode estar – medo de tocar a água lá em baixo e senti-la com carícia se abrindo para me receber como útero invertido, medo de me afogar de tanta emoção, medo de voltar à tona e não receber aplausos e ver-me só e feliz, medo de sair da água e (“que Deus me livre”) dizer apenas para mim: sou feliz com o que tenho, sou feliz com o que sou, sou feliz com o que ainda serei e realizarei.
Mas eu dormia e dormia em tempo integral. Dormia e fugia.
As marcas das rédeas da responsabilidade ainda sangravam no meu pescoço.
Meus amigos me buscavam, ofereciam-me passeios, lugares, reuniões: eu fugia.
Até que, num final de semana, fui constrangida a fazer uma pequena viagem.
Pedi carona num dos três carros da caravana.
O casal, meu amigo, com uma gentileza inominável, acolheu-me em seu carro e eu, por brincadeira, para deixar o ambiente descontraído, disse que eu ia “de filha”, já que o acento de trás a mim pertencia.
As risadas foram boas e logo na saída, no primeiro quilômetro, percebendo que eles aceitavam a brincadeira e também para relembrar momentos vividos por eles e por mim, falei:
– Já chegamos? Falta muito?
E, sentada no banco de trás, viajei contando e relembrando as coisas da minha infância. Falei que meus pais sempre me levavam em seus passeios de carro, que eu adorava estar à mercê dos desejos deles, e que para mim tudo era bom quando estava com eles …
Assim, fui e voltei brincando, relembrando e me denominando “filha”.
Na última parada já de volta, troquei de carro e eles – adoráveis “eles” – continuando a brincadeira, fizeram mil recomendações para eu me comportar no carro das “tias”.
Por que? Não sei, mas foi assim.
Aquela viagem me fez voltar no tempo e lembrar-me do antes: do antes de ser mãe, do tempo de “ser filha”.
E relembrei aquele tempo, quem eu era, onde eu estava, o que era bom, o que era ruim, o que era inevitável, o tempo que perdi lamentando sem fazer, os porquês, os como, o que eu sonhava ser e fazer.
O que sonhava ser e fazer?
Ser e fazer…
Do “ser” fui mãe com todas as obrigações, alegrias e tristezas, culminando no mérito do “ter encaminhado”.
Consegui criar o hábito da leitura e adquiri o conhecimento que eu sempre julguei importante para mim.
Mas restava tudo o mais que eu queria ser e, assim, de braços dados com o fazer, o ser que queria ser – e que morava no passado – precisava com urgência ser tele transportado para o presente.
Mas ainda a cama era o meu esconderijo, meu conforto e minha conselheira.
No dia seguinte, novamente fiz uma incursão ao ponto dos meus desejos de “ser” e de “ter” quando ainda a responsabilidade sobre minha filha não existia.
Quem eu era naquele passado?
Do que eu reclamava não ter? De não ser? De não poder fazer?
Percebi que eu tinha o privilégio de resgatar estas perguntas e responde-las todas.
Privilégio? Sim, porque estou aqui viva em pensamento, viva em saúde, viva em ação, viva em emoção.
Abri novamente o caderno da minha vida e voltei àquelas páginas amareladas para reassumir as queixas que me impediam de tantas coisas. E daquelas queixas “pueris” extrair os meus “quereres” e me comprometer a transforma-los novamente em sonhos e, de sonhos, em realizações com novas alegrias mesmo que com um corpo menos interessante, mas com uma cabeça muito mais “tudo”.
Quanto à Síndrome do Ninho Vazio? Ela permanecerá aqui comigo, do meu lado a me acompanhar, demarcando tempos vividos, porque ela é real e importante.
No caderno da minha vida, em letras grandes, junto com outras igualmente reais e importantes, vou acrescentá-la:

INFÂNCIA – ok
ADOLESCENCIA – ok
FASE ADULTA – ok
MATERNIDADE – ok
PROFISSÃO – ok
SAÚDE – ok
SINDROME DO NINHO VAZIO – ok
EU… em movimento

Ontem estive em uma reunião de amigos e senti toda a minha mocidade pincelar meu coração. Ali estive alegre, hoje sou feliz.
Alegria se conjuga com o verbo estar; felicidade se conjuga com o verbo ser.
Ser é um verbo de permanência; estar é um verbo de mutação.
E sou feliz porque, olhando para trás, vejo que os grandes desafios foram vencidos.
E sou feliz porque a vida me recompensa devolvendo-me tempo.
Daqui a alguns anos quero enumerar os meus sonhos realizados a partir de agora.
O ninho não estava vazio: havia uma fênix – eu – que aguardava o tempo certo para renascer e voar.

“Viver uma grande vida é realizar na idade adulta um ideal da juventude. ”
Alfred Victor de Vigny

Este post foi incluído na Revista Eletrônica ESCRITORES DO BRASIL nr. 1 à pagina 23.
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Prosa

Tributo a Júlio de Queiroz

Veja seu olhar! Diz tudo não? Não, não diz tudo porque havia mais muito mais no seu sorriso no seu coração no seu pensar.
Meu estar com ele foi temporal de verão: rápido e forte.
Pelo seu porte físico sempre me lembrou com carinho de Mário Quintana.
Agora tenho dois passarinhos na gaiola aberta de meu coração: um Alegre, outro Alegrete.

Vida é amor represado
Morte, amor trans-bordado

Perdemos o que viria a ser
Guardemos o que foi para que sejamos dignos.

Meu profundo sentimento de dor egoísta.

Recitado na Academia Catarinense de Letras – ACL na Sessão de Saudade do Acadêmico Julio de Queiroz, grande poeta brasileiro, por ocasião do primeiro ano do seu passamento – Ler Mais