Poema

Os Olhos Seus

Eu sou uma pandorga
A balançar pelo ar
E você é o menino
A me levar a voar

Olha, solta, estica, larga
Corre atrás e torna a puxar
É assim que você menino
Faz a pandorga voar

Lá longe muito distante
Olhos atentos aos céus
Todos olham a pandorga
Ninguém olha os olhos seus.

Prosa

O Medo

Quatro horas da tarde. 

A previsão era de um Ciclone Bomba.

Ciclone já assusta, ciclone bomba deve ser o fim dos tempos.

Penso que nada posso fazer em relação a isto a não ser me proteger, mas esta idéia é apenas teórica e vaga: sempre é, diante da realidade.

A previsão era para a noite: o pior sempre vem a noite.

Preciso levar uma pessoa em casa, já que, nesta época de pandemia, os ônibus andam vazios da espécie humana, mas cheios de vírus C-19, rindo e pulando, deixando suas partes aqui e ali e se refazendo feito lagartixa que perdeu o rabo.

Já estava na programação do dia esta missão.

Adianto-me uma hora para sair de casa e não pegar o vento que sempre prenuncia estes temporais: uma espécie de gentileza do temporal aos viventes, já que as pedras nada sentem e nada podem fazer.

Minha carona e eu, alegres pela decisão de antecipar as ações, estamos  a uma distância de aproximadamente 10 km, e cerca de 7 minutos do destino.

Partimos!

Na rua a silhueta do sol ainda pode ser vista através de uma espécie de plástico leitoso que se estende sob todo o céu.

Olhando o movimento das ruas, percorremos quase todo o trajeto com alegria simples. Minha caroneira é uma das pérolas da minha vida.

Dobrando uma rua, já no destino, ela chama-me a atenção para as nuvens no céu, enquanto eu paro para ela descer.

Ela corre para casa e eu, rapidamente, dou partida no carro.

Uma nuvem relativamente pequena está à minha frente. Ela é cinza, muito escura, está baixa, muito baixa e faz reviravolta feito peão, e por não ser muito grande eu posso ver todo seu tamanho, todas as suas formas que se amalgamam em si … e ao fundo, o horror: o cinza-chumbo-azulado encobrindo tudo.

Meu pensamento é para minha filha: ela estará na rua?

O céu não espera minhas ações! Nem minhas e nem as dos passarinhos, para que pousem em segurança: tudo se resume ao Nada.

Entre um sim e um não de meu genro, sei que ele e minha filha estão em segurança,  podendo, agora, cuidar de mim: a tormenta se faz maior que meu amor materno.

Chegou!

E chegou sem nenhuma gentileza ou delicadeza. Chegou varrendo com fúria tudo que podia. Tudo é seu e sem pudor faz o que quer.

Eu não posso ficar na rua, penso: preciso me abrigar.

O cérebro, mais rápido do que o louco que paira sobre mim, me orienta. 

E a poucos segundos dali uma grande loja, com estacionamento no subsolo, me recebe: a mim e a mais uma centena de insignificantes mortais.

Lá fora, o louco ruge e cospe vento e chuva. Dentro apenas e tão somente seres assustados.

Cinco minutos foi o tempo que o louco arrastou suas correntes, gargalhando dos orgulhosos “nada” que se escondiam feito formigas fugindo de seu formigueiro remexido. Cinco minutos, que foram 30, 60, 90 minutos, talvez uma eternidade para alguns.

Capítulo II – A dança

As notícias eram de outro louco que estava chegando para o horário da madrugada.

Uns diziam que era mais louco, outros, menos louco. Uns diziam que era maior e mais vingativo, outros que não passava de um incompreendido. Enfim, fiquemos atentos que  tudo pode ser!

Quem se apavora acredita já estar ouvindo o ribombar; quem não acredita, vê, ouve e sente a calmaria. 

Seriam estes os sentimentos dos conscientes diante da morte iminente?

É hora de dormir.

No desejo de ainda fazer muitas coisas, as horas passam céleres e a meia-noite se anuncia.

As 3:30 horas minha janela acusa a proximidade do vento.

As 4:00 horas meu espírito não permite que eu fique na cama: meu espírito levanta; meu corpo vai atrás.

A madrugada é fria. Na rua, apenas a música cantada pelo vento e dançada pelas árvores que atiram suas folhas ao chão em condição de total subserviência. Outras, em franca histeria, jogam-se ao chão.

É a dança dançada nos infernos e aplaudida pelos ateus.

Eu…, eu, pobre de mim!

Assustada como na tarde anterior, busco abrigo dentro do meu abrigo: embaixo da escada, na parte mais escura e irrelevante da casa. Embaixo da escada para abrigar a parte mais relevante de mim. 

Ele, o louco, dança na frente da minha casa ao ritmo de todos os ritmos.

Vez ou outra vem aos tropeços e bate com força na porta, na janela, no portão.

Dança e sapateia no telhado, cansa e descansa: silêncio.

As árvores se erguem, ficam empertigadas: eu não consigo sair de minha posição fetal.

Aguardo.

Silêncio.

Tudo passou e eu estou salva.

Mas o que?

Como gato, aprumo o ouvido e ouço, ao longe, o baile dos infernos se aproximando.

… e vem vindo

… e tudo recomeça.

Minhas costas que doíam, já não doem mais.

Minhas pernas amortecidas são esquecidas.

Tudo é escuro e desconfortável embaixo da escada, mas tudo é escuro e assustador fora dela.

E novamente as árvores  dançam se revezando com este bailarino invisível.

Não há nuvens no céu e as estrelas assistem, passivamente, à mais esta tragédia humana: O MEDO.

Poema

Nós

Amanheceu para nós
Para fazer novos nós
Ou desfazer alguns nós
Na conivência de nós.

Nós que amamos
Nós que precisamos
Nós que desejamos
Nós que abandonamos
Nós que não queremos.

Nós em nós
Nós, só nós
Do choro ao silêncio
Eternamente
Nós.

- eternamente sós - 


(Rita Marília- 08.12.2018)

Poema

Ex-Cada

Simples assim é o viver:
Sinuoso
Subindo sempre
Sentindo emoções
Sensações
Subindo sempre
Sem degrau de descida
Só ilusão e subida
Sem descanso, só fadiga.
No último
A queda fria
Vazia.

Saudade
Dos primeiros degraus
Da subida!

Simples assim é o viver

.

.

.

.

.

.

.

.

Este poema encontra-se também na pagina 47 do SUPLEMENTO LITERÁRIO A ILHA – Edição 152 – Março/2020  – veja aqui

Outros Autores · Poema · Prosa

Noite Na Taverna – Álvares de Azevedo

” …
—Quem eu sou? na verdade fora difícil dizê-lo: corri muito mundo, a cada instante mudando de nome e de vida. Fui poeta e como poeta cantei. Fui soldado e banhei minha fronte juvenil nos últimos raios de sol da águia de Waterloo. Apertei ao fogo da batalha a mão do homem do século. Bebi numa taverna com Bocage — o português, ajoelhei-me na Itália sobre o túmulo de Dante e fui a Grécia para sonhar como Byron naquele túmulo das glórias do passado. — Quem eu sou? Fui um poeta aos vinte anos, um libertino aos trinta, sou um vagabundo sem pátria e sem crenças aos quarenta. Sentei-me a sombra de todos os sóis, beijei lábios de mulheres de todos os países; e de todo esse peregrinar só trouxe duas lembranças — um amor de mulher que morreu nos meus braços na primeira noite de embriaguez e de febre — e uma agonia de poeta… Dela,
tenho uma rosa murcha e a fita que prendia seus cabelos. Dele olhai… “

Parte do conto “Noite na Taverna” de Álvares de Azevedo, extraído do site
http://objdigital.bn.br/Acervo_Digital/Livros_eletronicos/noitenataverna.pdf

Noite na Taverna é uma antologia de contos do autor ultrarromântico brasileiro Álvares de Azevedo sob o pseudônimo Job Stern. Foi publicada postumamente, em 1855; três anos após a sua morte.
( https://pt.wikipedia.org/wiki/Noite_na_Taverna )

Em seu velório foi lido o poema abaixo que compôs alguns dias antes

SE EU MORRESSE AMANHÃ

Se eu morresse amanhã, viria ao menos
Fechar meus olhos minha triste irmã;
Minha mãe de saudades morreria
Se eu morresse amanhã!

Quanta glória pressinto em meu futuro!
Que aurora de porvir e que amanhã!
Eu perdera chorando essas coroas
Se eu morresse amanhã!

Que sol! que céu azul! que doce n’alva
Acorda a natureza mais louçã!
Não me batera tanto amor no peito
Se eu morresse amanhã!

Mas essa dor da vida que devora
A ânsia de glória, o doloroso afã…
A dor no peito emudecera ao menos
Se eu morresse amanhã!

https://www.pensador.com/frase/NjA3NDEx/

Álvares de Azevedo
Nasceu a 12.09.1831 em São Paulo e morreu em 25.04.1852 no Rio de Janeiro, aos 20 anos de idade

Outros Autores · Poema

Por Quem Foi Que Me Trocaram

Por quem foi que me trocaram
Quando estava a olhar pra ti?
Pousa a tua mão na minha
E, sem me olhares, sorri.

Sorri do teu pensamento
Porque eu só quero pensar
Que é de mim que ele está feito
E que o tens para mo dar.

Depois aperta-me a mão
E vira os olhos a mim...
Por quem foi que me trocaram
Quando estás a olhar-me assim? 



FERNANDO ANTÓNIO NOGUEIRA PESSOA foi um poeta, filósofo, dramaturgo, ensaísta, tradutor, publicitário, astrólogo, inventor, empresário, correspondente comercial, crítico literário e comentarista político português. Fernando Pessoa é o mais universal poeta português.
* Nasceu a 13 de junho de 1888, Lisboa, Portugal
+ Faleceu a 30 de Novembro de 1935, Lisboa, Portugal.


Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990).  – 19. http://arquivopessoa.net/textos/4230
https://pt.wikipedia.org/wiki/Fernando_Pessoa

Outros Autores · Poema

Kremmer

Foi um dia de kremesse.
Depois de rezá três prece
Pra que os santo me ajudasse,
Deus quis que nós se encontrasse
Pra que nós dois se queresse,
Pra que nós dois se gostasse.
Inté os sinos dizia
Na matriz da freguezia
Que embora o tempo corresse,
Que embora o tempo passasse,
Que nós sempre se queresse,
Que nós sempre se gostasse.
Um dia, na feira, eu disse
Com a voz cheia de meiguice
Nos teus ouvido, bem doce:
Rosinha si eu te falasse...
Si eu te beijasse na face...
Tu me dás-se um beijo? — Dou-se.
E toda a vez que nos vemo,
A um só tempo perguntemo
Tu a mim, eu a vancê:
Quando é que nós se casemo,
Nós que tanto se queremo,
Pro que esperamos pro quê?
Vancê não falou comigo
E eu com vancê, pro castigo,
Deixei de falá também,
Mas, no decorrê dos dia,
Vancê mais bem me queria
E eu mais te queria bem.
— Cabôco, vancê não presta,
Vancê tem ruga na testa,
Veneno no coração.
— Rosinha, vancê me xinga,
Morde a surucucutinga,
Mas fica o rasto no chão.
E de uma vez, (bem me lembro!)
Resto de safra... Dezembro...
Os carro afundando o chão.
Veio um home da cidade
E ao curuné Zé Trindade
Foi pedi a sua mão.
Peguei no meu cravinote
Dei quatro ou cinco pinote
Burricido como o quê,
Jurgando, antes não jurgasse,
Que tu de mim não gostasse,
Quando eu só amo a vancê.
Esperei outra kremesse
Que o seu vigário viesse
Pra que nós dois se casasse.
Mas Deus não quis que assim sesse
Pro mais que nós se queresse
Pro mais que nós se gostasse. 
OLEGÁRIO MARIANO

OLEGÁRIO MARIANO – Recife, 24 de março de 1889 – Rio de Janeiro, 28 de novembro de 1958. Foi poeta, político e diplomata brasileiro. Foi eleito em 23 de dezembro de 1926 para a cadeira 21 da Academia Brasileira de Letras. Era primo do poeta Manuel Bandeira ( 1886 – 1968 ). Embaixador do Brasil em Portugal entre 1953 e 1954 . Em 1938, em concurso promovido pela revista Fon-Fon, foi eleito Príncipe dos Poetas Brasileiros, em substituição a Alberto de Oliveira, detentor do título depois da morte de Olavo Bilac, o primeiro a obtê-lo. Nas revistas Careta e Para Todos, escrevia sob o pseudônimo de João da Avenida, uma seção de crônicas mundanas em versos humorísticos. Ficou conhecido como “o poeta das cigarras”, por causa de um de seus temas prediletos. 
Magnum opus: Cantigas de encurtar caminho: poemas

Retrato de Olegário Mariano , 1928, Candido Portinari
Reprodução fotográfica Projeto Portinari – extraído do site https://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa2797/olegario-mariano

OLEGÁRIO Mariano. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2020. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa2797/olegario-mariano&gt;. Acesso em: 11 de Jan. 2020. Verbete da Enciclopédia.
ISBN: 978-85-7979-060-7

Outros Autores · Poema

Anjinho

Não chorem... que não morreu!
Era um anjinho do céu
Que um outro anjinho chamou!
Era uma luz peregrina,
Era uma estrela divina
Que ao firmamento voou!

Pobre criança! Dormia:
A beleza reluzia
No carmim da face dela!
Tinha uns olhos que choravam,
Tinha uns risos que encantavam!...
Ai meu Deus! era tão bela.

Um anjo d'asas azuis,
Todo vestido de luz,
Sussurrou-lhe num segredo
Os mistérios doutra vida!
E a criança adormecida
Sorria de se ir tão cedo!

Tão cedo! que ainda o mundo
O lábio visguento, imundo,
Lhe não passara na roupa!
Que só o vento do céu
Batia do barco seu
As velas d'ouro da poupa!

Tão cedo! que o vestuário
Levou do anjo solitário
Que velava seu dormir!

Que lhe beijava risonho
E essa florzinha no sonho
Toda orvalhava no abrir!

Não chorem! lembro-me ainda
Como a criança era linda
No fresco da facezinha!
Com seus lábios azulados,
Com os seus olhos vidrados
Como de morta andorinha!

Pobrezinho! o que sofreu!
Como convulso tremeu
Na febre dessa agonia!
Nem gemia o anjo lindo,
Só os olhos expandindo
Olhar alguém parecia!

Era um canto de esperança
Que embalava essa criança?
Alguma estrela perdida,
Do céu c'roada donzela...
Toda a chorar-se por ela
Que a chamava doutra vida?

Não chorem... que não morreu!
Que era um anjinho do céu
Que um outro anjinho chamou!
Era uma luz peregrina,
Era uma estrela divina
Que ao firmamento voou!

Era uma alma que dormia
Da noite na ventania
E que uma fada acordou!
Era uma flor de palmeira
Na sua manhã primeira
Que um céu d'inverno murchou!

Não chorem! abandonada
Pela rosa perfumada,
Tendo no lábio um sorriso,
Ela se foi mergulhar
- Como pérola no mar -
Nos sonhos do paraíso!

Não chorem! chora o jardim
Quando marchado o jasmim
Sobre o seio lhe pendeu?
E pranteia a noite bela

Pelo astro ou a donzela
Mortos na terra ou no céu?

Choram as flores no afã
Quando a ave da manhã
Estremece, cai, esfria?
Chora a onda quando vê
A boiar um irerê
Morta ao sol do meio-dia?

Não chorem!... que não morreu!
Era um anjinho do céu
Que um outro anjinho chamou!
Era uma luz peregrina,
Era uma estrela divina
Que ao firmamento voou! 

Manuel Antônio Álvares de Azevedo ( São Paulo, 12 de setembro de 1831 – Rio de Janeiro, 25 de abril de 1852 ) Foi um escritor da segunda geração romântica ( ultra-romântica, byroniana ou mal-do-século ), contista, dramaturgo, poeta e ensaísta brasileiro, autor de Noite na Taverna .

Ver mais em
https://alvares-deazevedo.blogspot.com/2009/01/anjinho.html

Outros Autores

Quási –


Mário de Sá-Carneiro, in Dispersão

Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num grande mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dor! - quase vivido...

Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim - quase a expansão...
Mas na minhalma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!

De tudo houve um começo ... e tudo errou...
- Ai a dor de ser - quase, dor sem fim...
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou...

Momentos de alma que desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ânsias que foram mas que não fixei...

Se me vagueio, encontro só indícios...
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios...

Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...

Um pouco mais de sol - e fora brasa,
Um pouco mais de azul - e fora além.
Para atingir faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

Listas de som avançam para mim a fustigar-me
Em luz.
Todo a vibrar, quero fugir... Onde acoitar-me?...
Os braços duma cruz
Anseiam-se-me, e eu fujo também ao luar...
 
Nasceu a 19 Maio 1890
(Lisboa)Morreu em 26 Abril 1916
(Paris, França). Mário de Sá-Carneiro foi um poeta, contista e ficcionista português, um dos grandes expoentes do modernismo em Portugal e um dos mais reputados membros da Geração d’Orpheu.
Curiosidades

Museu – Significado Original

A Mitologia Grega Como Início de um Imaginário Museal

A palavra museu tem início na Grécia antiga, com a palavra grega mouseion, que significa Templo das Musas. Ou seja, a palavra museu tem início na mitologia grega.

Zeus, o olímpico, rei e pai de muitos dos deuses, casado com Hera, a rainha dos deuses e a deusa do casamento, sempre teve seus casos fora de seu casamento. Frequentemente mantinha casos com outras deusas e mortais, e Hera sempre terminava por descobrir e, enfurecido, sempre encontrava uma forma de punir as amantes de Zeus.

Após a guerra contra os titãs, as divindades anteriores aos deuses, Zeus se encontra com Mnemosine, deusa da memória, e, por dez noites consecutivas, se deita com ela. Após um ano, Mnemosine dá a luz às nove musas. As nove musas foram encarregadas de cantar a vitória e os grandes feitos dos deuses, sobre as suas divindades e belezas. Eram as preservadoras da memória. Cada musa possuía um nome e uma atribuição, dada por Hesíodo em seu livro Teogonia, sendo elas:

  • Calíope: Era a primeira das irmãs e era a musa da eloquência;
  • Clío: A musa da história;
  • Euterpe: A musa da poesia lírica;
  • Tália: A musa da comédia;
  • Melpômene: A musa da tragédia;
  • Terpsícore: A musa da dança;
  • Érato: A musa dos versos eróticos;
  • Polímnia: A musa dos hinos e a narradora de histórias;
  • Urânia: A musa da astronomia.

As musas eram a personificação das artes e das ciências. Eram donas da memória absoluta, imaginação criativa e presciência e, com suas danças, músicas e narrativas, ajudavam os homens a esquecer a ansiedade e a tristeza.

Segundo a mitologia grega, o templo das musas era localizado sobre o Monte Hélicon, e era frequentado por poetas, filósofos, astrônomos, entre outros estudiosos em busca de inspiração. Em muitos casos, essas buscas eram seguidas de presentes para as musas, objetos de todo tipo. Era uma mistura de templo e instuição de pesquisa destinada ao conhecimento filosófico. Havia exposições de artes e objetos dentro do museu, porém eram mais com uma finalidade de agradar as divindades do que para a contemplação humana.

É importante, aqui, mencionar que quando tratamos do início da palavra museu ao templo das musas, não queremos dizer que o templo das musas seja um protótipo de museus como conhecemos hoje. São ideias diferentes que compartilham um certo imaginário museal. O templo das musas era um templo, dedicado a adoração, a busca por inspiração, e a contemplação aos deuses. Os museus não possuem esse caráter.

Enquanto muitos tratam do templo das musas, como descrito, um local de adoração, de contemplação e busca por inspiração, poucos olham para as musas como personificação do imaginário museal. As musas eram as preservadoras da memória e cantavam com o intuito de manter a lembrança viva, elas representavam a compilação de todo conhecimento, das ciências e da memória.

O Museu de Alexandria

Apolo e as Musas no Monte Helicon (1680) por 
Claude Lorrain

Poucos sabem que a Biblioteca de Alexandria não era apenas uma biblioteca, mas sim uma espécie de convergência de tudo quanto é disciplina científica da época.

Durante a dinastia dos Ptolomeus, no Egito do século II antes de Cristo, a principal preocupação do mouseion de Alexandria era ensinar e discutir todo o saber enciclopédico existente na época, nos campos da religião, mitologia, astronomia, filosofia, medicina, zoologia, geografia, entre outros. O Museu possuía, além de estátuas e obras de arte, instrumentos cirúrgicos e astronômicos, peles de animais raros, presas de elefantes, pedras e minérios trazidos de terras distantes, etc.

Era constituída por um jardim botânico, observatório astronômico, laboratórios, bibliotecas, arquivos, exposição de objetos, zoológico, entre outros.

Dessa forma, muitos autores, dentro da museologia e áreas relacionadas, o chamam de Museu de Alexandria. Porém, mais uma vez, como nos templos das musas, o Museu de Alexandria não deve ser encarado como uma instituição museólogica atual. o Museu de Alexandria apenas compartilha um imaginário museu, alguns elementos. Também não deve ser encarado como um predecessor do museu. Cada instituição, através da história, que já teve alguns elementos que constituem o museu no presente, não era um predecessor, pois não almejava se tornar um museu. Porém é importante notar que o Museu de Alexandria representa uma parte da ideia de museu, que durante o renascimento até o nascimentos dos museus modernos, ficará ligada ao nome do museu; como uma compilação exaustiva, quase completa, sobre um determinado tema.

Podemos, a partir desses pontos, notar que a ideia de colecionar é tão antiga quanto o homem. Desde que o homem começou a produzir objetos de toda sorte para atuar, modificar e interpretar a realidade, o homem começou a colecionar objetos de fascinação, de estética atraente ou “amuletos mágicos” para a proteção.

Até aqui, vimos um panorama sobre algumas da ideias presentes no conceito moderno de museus, que tiveram suas origens em ações e ideias tão antigas quanto o homem. Por mais moderno que sejam os museus, ele possuí raízes na antiguidade.

.

Texto extraído do site: https://medium.com/museus-e-museologia/no-come%C3%A7o-haviamouseion-9491b931c480