Grita um homem ao portão: — Esta reforma tem engenheiro? — Está na placa — grita o de dentro. — Onde? — grita o de fora. — No muro — responde o de dentro. — Senhor — grita o de fora —, este CREA é falso. Terei que multá-lo. — Como? — grita o de dentro, abrindo o portão grande e fazendo o de fora entrar com seu carro. — Sim. Verifiquei no sistema, pelo meu celular, e este CREA não existe, nem o nome do engenheiro. — Como? Eu contratei este engenheiro. — O senhor precisaria ter verificado as credenciais dele antes de contratá-lo. — Ah, entendi... verificar antes... Posso bater uma foto sua com seu número de cadastro para verificar suas credenciais? — O senhor está duvidando que eu não seja fiscal? — grita o de fora. O dono da casa baixa a cabeça e pergunta: — Como posso resolver isso? Tenho que terminar a obra logo. Eu e minha família estamos morando na casa da sogra, apertados, longe dos filhos, e não vejo a hora de voltar. O que preciso fazer? — Eu entendo o senhor — sorri o fiscal. — Já passei por isso. Para ajudá-lo, vou aplicar uma multa mais baixa. Assim, se qualquer outro fiscal aparecer, o senhor já terá a multa aplicada, com o prazo para arranjar outro engenheiro e concluir a obra. — Muito obrigado. E de quanto será a multa? — A multa seria de três salários mínimos, mas consigo chegar a apenas um. Como sei o que o senhor está passando, posso ir até a lotérica aqui perto e fazer o pagamento. Quando voltar, o senhor me dá o dinheiro. E, para não ficar preocupado, deixo o meu carro com a chave na sua mão. O senhor sabe, hoje em dia não se pode confiar em mais ninguém. — Puxa! Obrigado. — Não demoro. O senhor se importa que meu carro tranque a saída do seu? Posso mudar. — Não precisa. Afinal, teremos que sair juntos, não é? — Claro, claro — diz o fiscal. — Já volto. Vou correndo, porque correr faz bem e o coração agradece. O dono da obra ficou olhando o fiscal correr até dobrar a esquina. Mal fechou o portão, uma sirene começou a soar, cada vez mais alta. Três viaturas da polícia pararam em frente ao portão. Dez policiais armados saltaram das viaturas e gritaram: — Abra o portão ou arrombamos! — O que aconteceu? — grita o de dentro, abrindo o portão. — O senhor tem a chave deste veículo? — pergunta o policial, apontando para o carro do fiscal. — Tenho, sim — responde o de dentro, tirando a chave do bolso. — O senhor está preso por roubar e esconder o veículo. Revistem o carro! — Mas... — O senhor vem conosco e se explique na delegacia.
(Autora: Rita Marília)
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Encontrei, hoje à tarde, um recadinho que a vovó Frau deixou para ti no livro Os Lusíadas, de Camões.
Estranhamente (ou de forma proposital?), a editora deixou uma folha em branco, só com a palavra “Prefácio” no alto: vovó Frau prefaciou.
Fiquei emocionada e curiosa para saber se 2004, em Floripa, foi tão legal quanto ela desejou a ti, e se lestes o livro de Camões antes do vestibular. Imagino que vovó Frau talvez não soubesse o quanto havia para estudar antes do vestibular, mas certamente tinha muito orgulho de ti.
Agora que estamos quase no Natal de 2008, quero que saibas que vovó Frau continua a amar-te muito, viu?
Que ela tem certeza de que hoje, quatro anos depois, te tornaste “uma mocinha muito sabida”. E que Deus te abençoou e continuará a abençoar-te pela eternidade, porque desejos de Vovó, Deus jamais nega.
Belinha, não sei bem por que deixaste o recadinho da vovó ir parar na biblioteca. Penso em um descuido na hora de separar os livros ou teu desejo de que todos soubessem do amor dela por ti. Afinal, o melhor lugar para se perpetuar uma obra poética, escrita com amor de Vovó, é, realmente, a biblioteca.
Li poemas de Manuel Bandeira, Vinícius de Moraes, Fernando Pessoa e Manoel de Barros — e nada é mais lindo do que a poesia simples da vovó Frau para ti.
Não tive a sorte de receber de minhas avós um recadinho tão amoroso, por isso fiquei com um pouco dessa emoção que tu, talvez sem saber, deixaste para quem viesse depois.
Reproduzo abaixo, tal como está, a dedicatória da vovó Frau: "Querida Belinha! Para você ler antes do vestibular e assim se tornar uma mocinha muito sabida! Lembre-se sempre de que vovó Frau ama muito você, viu? Com carinho votos de que 2004 em Floripa seja muito legal. Deus abençoe você hoje e sempre! Feliz Natal! Vovó Fraunely 25/12/2003"
E, caso queiras rever a dedicatória, para matar a saudade, poderás encontrá-la novamente na biblioteca da Barca dos Livros, na Lagoa, onde o teu exemplar se encontra.
Com carinho, uma leitora ***** Autora: Rita Marília T. Signorini
Foto da autora
Imagem fiel do recadinho da vovó Frau para Belinha.
Encontrei um livro na minha estante. Ao olhar sua lombada, percebi que nunca mais o havia tocado: intacto, petrificado pelo tempo. Olhei-o com ternura: o tempo passara por nós, eu em rebuliço, ele em silêncio. Contemplei seu rosto: imutável. Ele não diria o mesmo de mim. Nunca nos abrimos: eu não li suas entrelinhas, ele não leu meus olhos. Tive medo de abri-lo. O que escondia? Verdades ou ilusões? Promessas? E ele, ao me abrir, o que encontraria? Nuvens, esperanças ainda no berço? Quem somos. Sem abri-lo, deduzi: ele, pedra; eu, rio. Caminhei com tremor até o sofá. Sentei-me e, em silêncio, abracei-o. Éramos dois estranhos.
Estava sentada em um banco da praça quando uma folha de jornal voou em minha direção.
O papel era fino, mal impresso, com a tinta ligeiramente borrada nas bordas. Algumas linhas pareciam desalinhadas, como se tivessem sido publicadas às pressas, sem revisão ou conferência adequada.
Em letras garrafais, irregulares, o título ocupava toda a primeira linha da página, que transcrevo abaixo:
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Palavras Cavam Túnel para Fugirem
Ontem, a polícia descobriu um túnel cavado, pronto e finalizado, que serviria possivelmente para um grupo de palavras fugirem do dicionário, conforme informações preliminares ainda não confirmadas de forma oficial.
O delegado, em entrevista exclusiva para nós presentes e para todos os demais veículos de comunicação em geral, declarou dizendo que algumas palavras, revoltadas pelos maus-tratos e pelo abandono que vêm sofrendo há tempos, rebelaram-se e, amotinadas entre si, buscavam fugir no dia de finados, o que ainda está sendo verificado se procede ou não procede.
O delegado nada mais soube ou quis dizer, ou não quis dizer porque não sabia, o que também não ficou muito bem esclarecido direito até o atual momento presente.
A investigação prossegue em andamento contínuo, sendo que nossos repórteres apuraram previamente de forma inicial que a mais perigosa facção criminosa atualmente existente dentro do dicionário, liderada pela palavra Ética, está totalmente envolvida, direta ou indiretamente, de alguma forma, no caso.
Outros nomes suspeitos que estão sob suspeita são: Moral, Respeito, Civilidade e outros termos mais específicos e tecnicamente mais adequados, que não puderam ser devidamente mencionados por não sabermos ao certo como nomeá-los no momento da apuração.
Nossos repórteres não tiveram nenhuma informação concreta confirmada oficialmente sobre a morte da Honestidade, ocorrida dentro das páginas internas do dicionário, que está sendo mantida sob absoluto segredo sigiloso. Cogita-se, sem a confirmação confirmada, que ela possa ter sido espancada e torturada até a morte fatal.
Informações não confirmadas indicam que palavras mais complexas, como as relacionadas às ideias de integridade e conduta adequada, também teriam deixado o dicionário, o que pode explicar a dificuldade da reportagem em utilizar palavras mais certas aqui.
O delegado não quis falar sobre o caso para não atrapalhar o andamento em andamento das investigações, que prosseguirão assim que um novo Chefe do Departamento for nomeado, empossado e assumir o caso oficialmente, o que deve ocorrer no prazo máximo de trinta anos (30 anos), prazo este que não deverá interferir no andamento em curso das investigações em andamento.
Fontes altamente sigilosas, que pediram anonimato não identificado, informaram a nossos repórteres que mais fugas e mortes estão sendo arquitetadas, planejadas e organizadas dentro e fora do dicionário, simultaneamente ao mesmo tempo.
Também foi informado que outro grupo, grande, expressivo e bem armado, chefiado pela Ganância, aproveitando-se da situação atual em curso no momento presente, está preparando uma grande chacina de grandes proporções, tendo como alvo principal o grupo encabeçado pela Tolerância com seus comparsas associados; havendo ainda informações, não confirmadas mas já amplamente comentadas, de que, não ficando claro se por parte deste grupo ou daquele anteriormente mencionado, já estariam em processo de negociatas negociais com a quadrilha da Intolerância, visando se pouparem preventivamente da morte previamente anunciada.
Ninguém mais quis dar entrevista no momento atual, mas nossos repórteres, bravos homens da notícia, profissionais da área jornalística em geral, continuarão investigando por conta própria e autônoma, trazendo novas informações futuras assim que possível e quando houver novas novidades.
Ficamos no aguardo de novas informações futuras.
Dobrei a folha com cuidado. Faltavam palavras ali, mas não apenas ali.
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Cedo cedo coração com sede nessa sede Cedo cedo nessa sede coração com sede Cedo nesta sede cedo coração com sede Cedo cedo sede dum coração com sede Coração com sede cede cedo sua sede Cedo coração com sede cede sua sede.
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A Pedra e o Caminho Tinha uma pedra no meio do caminho No meio da pedra tinha um caminho No caminho tinha meia pedra Tinha um meio entre a pedra e o caminho
Nunca me esquecerei desse acontecimento Quando a pedra atrapalhou meu caminho Meu caminho que não era de pedra Nem de meias pedras, nem de meios caminhos
Recadinho para Mário Quintana Meu tempo Também passará Passarinho! Apenas penas Ficarão Do meu caminho
Entre Pedras e Penas A melhor parte da chegada É o caminho Com pedra ou sem pedras Com pena ou sem penas Um caminho de pedras e penas. Minha pena corre E não tropeça na pedra
Há encontros que não são planejados — acontecem. Um poema chama outro. Uma pedra chama um caminho. Uma pena pousa onde antes havia obstáculo. O que começou como diálogo com vozes que admiro tornou-se percurso próprio. Percebi que os três textos não estavam lado a lado por acaso: eles se movem. Do peso à leveza. Da lembrança à escrita. Do tropeço à maturidade. Hoje assumo essa travessia. Entre pedras e penas, a palavra segue. E não tropeça.
Mira teu castigo Eu Mira meus olhos Teus Mira minha boca Oca Mira meu pescoço Colosso Mira meus seios Cheios Mira minha cintura Pura Mira minha pele Desvele Mira meu ventre Entre Mira!
Senhor! Não olheis assim para mim Minhas rugas denunciam minha idade Mas, nem de longe, o meu desejo Pois que pode desnudar minha volúpia E buscar em vós o meu prazer.
Senhor! Ficais assim a instigar-me? Não sabeis então Que navega em vossos olhos A pretensão de minha boca?
Ora, Senhor meu! Não fiqueis a bulir Quem quieta está Quem sob o disfarce da Indiferença Cobre com panos gélidos A volúpia
Olhais, por certo, as mais moças Para mergulhardes no imaginário Onde o espelho do tempo vos mentirá Dizendo quem já não sois
Eu, Senhor meu, miro vossa estampa Vejo vossas rugas Percebo vossos contornos E imagino Ainda possuirdes Em vossas mãos o meu desejo A descobrir que a vida, Em velhas curvas sem beleza, Também pode levar-me, Em queda livre, ao prazer
Por isso Senhor meu! Conservai o vosso olhar no meu decote E percebei Minha respiração ofegante Lentamente ofegante Misteriosamente ofegante E concedei-me Bulir vossa íris Massagear vossa pupila E ver-me, e sentir-me Penetrada Pelo vosso olhar.
Então, Senhor meu! Grávida de vossos desejos Irei embora Vaidosa e confiante.
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Feliz por ter sido incluído na revista “Chicos” conforme mensagem recebida
“Olá Rita,
teu poema chegou a Cataguases MG, pelo Fernando Abritta com a sugestão de publicação numa e-zine chamada Chicos que mantemos cá na terrinha. Li e gostei. Prontamente acatei a sugestão de publicá-lo. Só circulamos pela internet. ..(à págna 25). Segue o link da edição: Ler Aqui
Qualquer coisa é um nada Que devagar lentamente De nós vai se apoderando Pulsando Abrindo, fechando Se tornando Ser Crescente A nos envolver docemente Semente Eternamente
Foi assim: Num dia qualquer, Sancho Pança chamou-me para juntos regalar o bofe com os manjares de seu bornal. Aceitei. Mal me ajeitava, surgiu diante de mim um senhor — não, um Duque — que, após uma mesura caprichada, apresentou-se: — Ilustre dama, deixai que me apresente. Sou Dom Quixote de La Mancha, cavaleiro da Triste Figura, vosso criado e, se me permitis, vosso guia nesta jornada. Encantaram-me suas mesuras. Alegraram-me os trajes. Já a fala… exigia fôlego. — Senhor — respondi —, com tantas honras me abasteço em seus dizeres, mas creio que sozinha não darei conta nem dos saberes que dizem existir no lombo de seu cavalo. Ele ergueu o queixo, seguro de si: — Senhora, a espera sem espora é justa e necessária. Aconselho-a a aceitar o convite que virá — mais ligeiro que a mula de Sancho, ainda que não tão veloz quanto meu Rocinante. E antes que eu pudesse insistir, partiu, seguido de seu fiel escudeiro. Fiquei entre o livro e o mundo, à espera do tal convite. - Podemos ler juntas? Ergui a cabeça ... como quem volta
CHÁ DAS CINCO
Três meninas faceiras Sentam-se à mesa Para o chá das cinco
Riem de tudo De Sancho De nada
Falam De si Do amor Da Triste Figura
À noitinha Retornam à casa Nutridas de pôr-do-sol
Saudades!
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Tentei matar O poeta que mora em mim Descobri que o poeta Há muito Já havia matado a mim E que eu Eu em mim Sou Apenas sou Um saco de ossos tatalando Que o poeta vai arrastando.
Rua! Estou na rua. Estou como a folha de uma árvore. Sou da rua. Meu espírito está sufocado; minha alma clama por voar. Não tenho escrito. Estou superlotada de silêncio. Preciso escrever. Já perdi todas as frases. Canso-me das pessoas; preciso de solidão. Perdi-me. Estou no meio de um redemoinho. Não sou ninguém. Onde estou? O que sinto? Quem eu quero ser ou continuar a ser? Viver ou morrer? Caio no poço. Emergirei. Salvar-me-ei. Voarei além de mim, até a ponta de minhas asas. Preciso ficar só, muito tempo só. Minhas palavras são vazias, minhas frases, sem sentido, e meu texto, desconexo. Mas preciso expulsar este nada. Preciso escrever, escrever, escrever, como preciso respirar. O tempo tem se formado sem que eu transborde. Nada mais tenho a dizer. Vou embora. Talvez, em outro lugar, eu esteja
Na sala de parto um último grito; um silêncio; um choro. Na penumbra do corredor, um homem de branco mostra a outro uma criancinha ainda envolta em pano branco manchado de sangue. Ao longe, na igrejinha da praça, os sinos dobram. São exatas seis horas da tarde: a hora da Ave-Maria.
Se a tristeza batesse à minha porta, com um tímido sorriso eu abriria e a deixaria entrar. Convidaria para sentar no sofá da sala; prepararia um cafezinho ou uma boa xícara de chá e conversaria longamente com ela.
Por certo ela me contaria, a princípio com algum constrangimento, o motivo de sua visita. Pacientemente eu a escutaria para entendê-la: talvez ela chorasse ao se despir do pudor.
Posso supor que eu também choraria.
Quando nossas lágrimas estivessem mais raras, eu a convidaria para um passeio pelo meu interior. Mostraria meu jardim e as flores que consegui cultivar, apesar dos tempos nublados.
Depois a levaria até o quarto de dormir e a deitaria numa cama acolhedora para que descansasse.
Pé ante pé sairia do quarto, não sem antes fechar as janelas e apagar todas as luzes.
Voltaria para a sala e, sozinha, velaria por ela durante toda a noite.
Ao amanhecer nos encontraríamos na sala novamente e eu a veria transformada, iluminada.
Sem dizermos mais nada, e pelo meu silêncio fazendo-a entender, ela partiria, deixando em seu lugar uma compreensão nostálgica.
Sem demora, eu correria até a janela para ainda vê-la sumir.
Se não a acolhesse ao assomar à minha porta, sei que por sua natureza ela se tornaria minha sombra sempre que o sol tentasse iluminar minha alma
Imagem: Composição visual criada por IA a partir de conceito autoral.
Nasceram um para o outro e nada mais. Conheceram-se na escola, na quinta série, e fizeram todo o curso primário juntos. Desde cedo, ajudavam-se nos estudos. Ao final do secundário, já se amavam e decidiram cursar a mesma faculdade. Juntos cursaram todas as cadeiras, passaram em todas elas e concluíram o curso no mesmo semestre. Enquanto faziam a faculdade, definiram o futuro: abririam uma empresa própria e a cada um, sua atribuição específica. Não contratariam sócios nem funcionários para terem independência. Também durante a faculdade marcaram a data do casamento para logo depois da formatura. De mãos dadas, com passos rápidos e firmes, atravessaram o palco para receber o diploma, e fizeram um discreto cumprimento de cabeça em direção à plateia. Vaidosos, os pais organizaram uma confraternização simples e festiva para receber os parentes e amigos. Logo no início da festa, os jovens anunciaram o noivado e trocaram alianças compradas com muito orgulho pelo pai do noivo. Seis meses depois, dentro de uma pequena capela com poucos convidados, as alianças que estavam na mão direita passaram para a mão esquerda. Foi só então que começaram os preparativos para a abertura da empresa. Mais seis meses e a empresa estava aberta: trabalhavam com afinco. Estipularam um horário para trabalhar, um horário para o lazer e um para o descanso. Seguiam à risca os horários, desde o início da manhã de segunda até o final do dia de domingo. A empresa começou a dar lucro. Eles continuaram sem esmorecer. Passados dois anos, a empresa já estava relativamente consolidada: conquistara alguns clientes fiéis. No final desse prazo ela disse a ele que estava grávida, o que não era novidade: também isso seguia a cronologia que traçaram para suas vidas. Eles eram seus próprios patrões e a empresa, gerida de casa, favorecia a organização. Por isso, após o parto, ela passaria a trabalhar meio período, até que a criança começasse a engatinhar. Seis meses depois ela pôde trabalhar, não mais seis horas, mas oito horas por conta do bom desempenho da criança. Quando havia grande necessidade ou algum imprevisto, ela pôde se dar ao luxo de trabalhar até dez horas. Dois anos depois, ela anunciou outra gravidez, já esperada pelo casal e por todos os quatro avós. Todos torciam para que agora a criança fosse do sexo oposto ao da primeira. Sete meses e meio se passaram e a criança veio com o sexo desejado. Todos comemoraram com satisfação: agora eles tinham um casal de filhos. A empresa continuava bem. Não era uma empresa de renome, mas não era insignificante em seu segmento. Tinha alguns clientes importantes e o casal se desdobrava em atendê-los bem. Criaram algumas amizades sólidas, inclusive com alguns clientes. Dois casais de amigos foram escolhidos e convidados para serem os padrinhos de batismo do segundo filho. No dia do batismo, na igreja, todos cantaram, rezaram e comemoraram no restaurante. Cinco anos depois, terminaram de pagar a casa própria de dois andares, com três suítes mais um quarto completo de hóspedes que ficava no térreo, ao lado de um quartinho onde guardavam apenas coisas inúteis. Nesse ano também o filho mais velho entrou na escola. Um ano depois, os pais foram chamados no colégio para serem parabenizados pelas boas notas e bom comportamento do filho. No ano seguinte, o segundo filho, uma menina, entrou para o maternal. Os avós ficaram desolados por perderem a responsabilidade diária. Quinze anos depois, o mais velho terminou o curso profissionalizante e na formatura, onde os pais não estavam, ele anunciou o noivado com uma colega que ninguém conhecia: trocaram alianças de prata, simbolizando apenas um compromisso mais sério. No mesmo dia, depois da festa, a irmã fugiu com o professor do primeiro ano de faculdade. Trinta dias depois ela finalmente deu notícias dizendo que estava na Europa com o professor e que tudo estava muito bem. Três anos depois, a mãe morreu de infarto e seis meses depois o pai morreu de AVC. Seis meses depois, os bens foram vendidos. Seis meses depois, o valor foi dividido igualmente entre três: filho, filha e advogado.
Estes textos não nascem prontos, nem pretendem ser grandes. São registros de um olhar em construção — pequenos momentos, pensamentos, tentativas.
Durante muito tempo guardei tudo por medo do erro. Hoje, com mais liberdade, escolho compartilhar o que considero mais vivo, mesmo que ainda imperfeito.
Aqui há cenas, restos, palavras que ficaram. Há também dúvidas, silêncios e um esforço contínuo de nomear o que sinto e vejo.
Este espaço é parte de um caminho: aprender a dizer.
Árvore frondosa Galhos balançam Vento ou passarinho
Árvore caduca Passarinho Canta ao sol
Latido de cão Passarinho voou Todos atentos
Florzinha amarela Pétala andante
Barco balança Nas ondas do mar Sol de verão
Ondas do mar Barco apoitado Sol de verão
Sol Pela fresta Vitamina D
Deitei os olhos No livro Amanheceu
Rompe o dia Apneia Taquicardia
Corpos aceitam Longas horas de sol Final de verão
Fim de tarde Mar sereno Leve brisa Corpos ao sol
Foram-se todos Ficaram as palavras Nas cadeiras
Foram-se todos Ficaram as palavras E as cadeiras
Sobre a mesa Caderno Caneta Sem ideia
Primavera florida Até cadeira olha Pela janela
Costuro poemas Penduro Na janela
Penduro poemas Que na janela Costuro
Autocentrada Leio-me Indefinidamente
Olhar um Livro pelas frestas Suscita Mau aconselhamento
Calço os chinelos de pano Chego à janela Vejo o mundo Espio o horror Fecho os postigos que se batem Puxo as cortinas Acendo as velas do candelabro Chopin ou Mozart? Vou até a lareira Coloco uma acha de lenha Reavivo as línguas de fogo
Contemplo a gata dormindo no sofá Vou até a cristaleira Pego uma taça Abro uma garrafa de vinho Volto à lareira Tiro o casacão Agacho-me ao pé do sofá onde está minha gata Coloco no chão a taça e a garrafa Vou até a estante Pego o livro deitado na frente dos outros Coloco-o no chão junto à taça e à garrafa Busco almofadas dispostas no sofá Ouço o crepitar da lenha me chamando E os gritos dos seres além de meu postigo
Vou até a vitrola Escolho um disco entre alguns nos escaninhos Pego o braço da agulha Empurro-o para trás Vejo o prato girar - o prato gira lentamente A rotação aumenta Cai o vinil Coloco a agulha na primeira ranhura Ouço o silêncio perfeito criado pela minha apneia Espero A música se impõe aos gritos apavorantes dos transeuntes, atrás do postigo Volto ao tapete em frente à lareira Inclino-me Sento no chão Pego meu livro Analiso a capa Aliso seu volume acetinado Releio a contracapa Percebo novamente a música a se sobrepor aos barulhos das sirenes do outro lado do postigo
Ergo a garrafa Ergo a taça Despejo um pouco de vinho cor de sangue na taça Giro o copo Analiso o anel colorido deixado pelo vinho nas paredes da taça Inspiro seu buquê suave Lembro-me do sangue derramado na rua em frente à minha janela Sinto o cheiro ácido-oxidado do sangue livre Volto à suavidade da música Ao perfume do vinho Ao toque macio no livro Ao divino sabor da uva transformada em vinho Lembro-me dos seres transformados em feras do outro lado do postigo Acomodo-me entre as almofadas Aqueço-me diante da lareira Lembro-me dos mendigos acomodados nas calçadas Minha gata pula do sofá Aproxima-se de mim Ronrona Estico a mão Aliso sua cabeça macia e peluda Ela devolve-me com um giro de corpo Lembro-me das crianças retorcidas do outro lado do postigo Inclino a taça Inspiro novamente o buquê do vinho Bebo um gole Lembro-me da sede entre homens do outro lado da minha janela
Abro o livro Busco a marca onde parei Reclino a cabeça Fecho os olhos Ouço a música suave Sinto a gata do meu lado Toco os contornos do livro Percebo meu coração parando Ouço ao longe os últimos pedidos de socorro Crianças chorando Homens esbravejando Mulheres em histeria Velhos em agonia Respiro com dificuldade Abro os olhos Leio: “tudo é efêmero”, Um gole de vinho Uma nota musical Um afago na gata Uma dor no peito Um golpe de ar apaga as velas do candelabro... 19.07.2015
Ganhei um gatinho amarelo e branco, uma caixa de sapato cheia de areia e uma seringa grossa improvisada como mamadeira. Fiquei parada, olhando aquela bolinha de pelo se mexendo nas minhas mãos, enquanto minha amiga sumia de mãos vazias. Era tão pequeno e peludo que não vi seus olhos. Dizem que machos têm duas cores e fêmeas, três. Era macho: duas cores. Não gostei. Machos marcam território, era tudo o que eu sabia. Ia crescer, e as marcações começariam. Pesquisei na internet: “castrar pode diminuir a marcação ou até parar”, nada certo. Para adiar qualquer decisão radical, como devolver o gato, resolvi não pensar. Foquei no que fazer e por onde começar. Miados e mamadeiras de dia, miados e mamadeiras à noite. Os dias passaram, o felino crescia e a caixa de areia diminuía. O mais difícil era andar olhando o chão e não pisar nele. Um mês de cuidados intensivos e, da indiferença, passei a admirar seus movimentos quando tentando correr, caía como se estivesse bêbado. Pulava e corria sem parar até que, de repente, tombava em qualquer lugar, já dormindo. Ele era insistente: caía, levantava, forçando e fortalecendo as patinhas. Era isso: sem escolha. No começo, dormia muito, para minha alegria, mas poucos dias depois o sono diminuiu enquanto o corpinho aumentava. Eu resistia, porém, a cada dia, ficava mais tempo olhando o peludo e, pior, comecei a falar com ele. - Tenho que arranjar um nome para você, falei olhando para ele. Pedro? Não. Paulo? Não. Manoel… Chiquinho… Bobagem. Melhor não pensar. Nem sei o que vou fazer com você… Ele passou a miar na porta do meu quarto cada dia mais cedo. E, quanto mais cedo miava, mais brava eu levantava e, chutando as cobertas com os pés, mais longe eu as jogava. Mesmo assim, quando abria a porta, não resistindo, sorria e conversava com aquela bola de fogo. - Você está me olhando por quê? Gostando de me acordar cedo, né? Não tem o que fazer? Bastava me ver, e já vinha se encostando em mim, o fingidinho. - O que é isto aqui, hein? Não aprendeu a ir na caixinha? No canto da área de serviço, ele tinha deixado um presentinho bem cheiroso. - Isto aqui é para mim, seu pestinha? Vem cá. Vem. Ah, foi se esconder, né? Ficou com medo ou tá com vergonha? Vem ver o que você fez. Tão pequeno e já sabe fazer malcriação? Na verdade, o presentinho não era tão malcheiroso, nem tão grande que um pouco de álcool e algumas folhas de papel higiênico não resolvessem. Um mês depois, com o pestinha só comendo e crescendo, resolvi sair para comprar desinfetante, uma caixa de areia maior e comida, para ele e, talvez, para mim. Entrei numa agropecuária pedindo o que queria, estava com pressa. A vendedora, apertando os olhos e abrindo um pequeno sorriso, recuou para trás do balcão e perguntou: - Gato ou cachorro? - Gato, respondi, apressada. Que dúvida, para quê saber? pensei. - E como ele é? - Bem pequeno, ainda filhote. Ganhei há um mês. É macho, amarelo e branco. E mostrei uma foto de quando me empurraram aquele bichano peludo. - Ai, que lindinho, que fofo, que delicinha, que ... Olhei para ela, desconfiada daquele entusiasmo. Era emoção verdadeira ou exagero para vender mais? O que eu mais queria, naquele momento, era a minha casa limpa e cheirosa de volta. Por isso, em vez de esperar, fui atrás dela pelo corredor, procurando o desinfetante que tinha pesquisado na internet. Ela não parava de tagarelar, distribuindo adjetivos a um simples gatinho. Por favor, é só um gato, não é um ET. Finalmente, pegou o desinfetante e, junto, um brinquedinho — eu era ingênua mesmo — dizendo-me que felinos gostam disto. Gostar? Meu senhor, em que mundo estamos? Um gato não tem capacidade de gostar. E lá foi o brinquedo para dentro da cesta, junto com o desinfetante e minha cara zangada. Ela, talvez sentindo minha resistência, calou-se e mudou de tática: conduziu-me por outros corredores, cheios de coisas coloridas e inúteis. Fui seguindo e me arrependendo. Volta e meia, ela parava diante de uma prateleira, fingia organizar, pegava algo e me explicava para que servia. E, quanto mais ela falava, mais eu pensava: um gato, é apenas um gato. Como estará a minha casa com aquele intruso solto? O que estará fazendo? Se machucando? Minha urgência de voltar para casa aumentava na proporção da tagarelice dela. - Moça, falei alto, dirigindo-me ao caixa, só quero o desinfetante, um saco de areia e a caixa. Por favor, estou com pressa. Pode fazer a conta? Foi quando vi uma caminha para gato. - Vou levar esta caminha também. Ela combina com meu sofá. Era mesmo esse o motivo? Tirei da prateleira e a balconista, ao ouvir o barulho, olhou-me com um sorriso, de ironia ou satisfação, não sei. Entusiasmada, recomeçou: - Quando o gatinho crescer, nós temos isso, isto, aquilo. Eu já estava pronta para sair sem levar nada quando ela, percebendo minha irritação, apresentou a conta. Paguei sem dizer nada e fui para o carro. Resolvi voltar para casa e me acalmar, deixando o resto para depois. Desci do carro carregando a caixa, a cama, o desinfetante e o saco de areia. - Onde está a chave da casa? Larguei tudo no chão, em frente a porta: a cama, a caixa, o desinfetante e o saco de areia, e voltei para o carro. A chave havia caído entre os bancos, fazendo-me contorcer para pegá-la. Ao empurrar a porta da sala, uma surpresa… - Ai, que droga! gritei alto. - Que nojo. - Gato? Onde você está? Tive que dar um pulo para entrar. Ao empurrar a porta, empurrei também um monte grande e fedorento, que se espalhou no chão num desenho marrom, aberto como um leque. Com os dedos no nariz, respirei fundo. Minha vontade era voltar à loja levando tudo que havia comprado, inclusive o gato, por quem ela tanto se derreteu, mas eu não tinha mais fôlego. Fechei os olhos, adiei o problema marrom e fui sentar no sofá, esquecendo as compras na entrada. Se antes eu estava irritada, agora eu estava furiosa e… inerte. Eu sabia que qualquer ação, naquele momento, poderia ser um desastre para aquela coisinha peluda, que veio rebolando quando me viu entrar. Parou com as patinhas da frente sobre meus pés, a cabeça levemente inclinada, olhando-me de um jeito que me fez dizer, com meio sorriso: - Você sabe o que fez, né? Seu praguinha. Agora vai lá limpar, vai. Quantas vezes eu também deixei coisas atrás da porta? Pensei em Deus. E sorri para aquela pestinha que, me olhando, abanou o rabinho. Joguei o brinquedo que estava no meu bolso e me deixei envolver pelo que via. Primeiro, ele pulou assustado quando o brinquedo caiu perto. Depois, aos poucos, criou coragem e foi enfrentar a “terrível fera feroz”. Tentou morder, pulou em cima, mas, com a pata, empurrou o brinquedo para baixo do sofá. E que esforço para tirá-lo de lá. Levantei-me de um salto e fui buscar o que ficara na entrada, evitando olhar o que tinha atrás da porta, que continuava aberta. Coloquei a caminha ao lado do sofá e, imediatamente, o felino se deitou nela, como se eu o tivesse ensinado, mas, por castigo, não lhe dei atenção. Depois fui limpar atrás da porta, testando o desinfetante. Pronto. Entrada limpa, desinfetante inaugurado, brinquedo e caminha em uso. Olhei para a caminha e para o sofá. Combinavam? Não muito, mas compensava ver o bichano, dentro dela, agarrado ao brinquedo. Não queria mais saber de bichanos e suas necessidades e o melhor, agora, era eu pegar um livro e ler. Abri a janela e sentei-me no sofá. Uma leve brisa balançou a cortina e, depois, tocou meu rosto. À minha frente, o felino, pequeno e cansado, dormia indiferente a tudo o que eu tinha sentido ao longo do dia. Se as emoções são minhas, eu que as trate. Ele cuidará das dele: comer, crescer, se defender e dormir. Bom para ele, que tem poucas. As minhas são mais complexas e hoje foram intensas, algumas desagradáveis. Abri o livro na página marcada. Duas ou três páginas bastaram para me dar sono, e deixei os olhos fecharem, a cabeça cair para trás. Sem demora, senti uma dor no pé subindo rápido pela perna. Como não rir? Ri do esforço desengonçado dele e do meu susto. O que aquele ser insignificante pensava que era, me escalando? E o que esperava encontrar aqui em cima? Estava apenas aprendendo a subir? Novamente pensei em Deus. O que aprendi e ainda tenho que aprender ao escalar os ensinamentos dEle? - Sai daqui, gato - gritei. Olha o que você fez. Puxou o fio da minha blusa nova. Oh, seu peste amarelo. Levantei num pulo e, com firmeza, o coloquei na caminha. - Vai ficar aí, sua praguinha. Não bastou o presente que deixaste atrás da porta? Ele se enroscou como pôde sobre o brinquedo e ali ficou. E eu sorri. Fui até o quarto e troquei a blusa, perguntando-me até quando eu teria paciência. Não entendia como minhas amigas, que têm gatos, acham tudo engraçado. Não sei. Fechei a porta do quarto, deitei-me sobre a colcha e recomecei a ler, sem saber como havia levado o livro até ali. Dormi talvez uma hora e meia. Acordei assustada pensando no que aquele “ETzinho” teria feito na sala. Demorei alguns minutos sem saber se queria enfrentar a realidade, mas precisava. Espiei por entre a porta da sala. Ele continuava dormindo, na mesma posição de antes. Os dias se passaram: o bichano cresceu, a caminha encolheu. Chegou a hora de voltar à agropecuária para comprar mais de tudo. Fui de má vontade, sabendo que encontraria aquela moça elétrica, cheia de adjetivos “mimizentos”, e que, por gentileza, eu teria que sorrir como quem gosta. Entrei na loja, e ela veio sorrindo como se eu fosse uma velha amiga. - Como está o gatinho? - Bem, respondi, já irritada. E perguntou como eu estava? Claro que não. - Deve ter crescido, ficado mais espertinho… Eles são tão fofos! - Está, respondi seca. A outra opção seria ele estar morto, ou algo pior. - Tem foto dele? Eu tinha e por azar, e por não me conter, mostrei, achando que a conversa acabaria ali. Mas recomeçou: - Que lindinho, que espertinho… São uns fofos, né? Eu amo os meus. Os meus? Tive vontade de perguntar se ela estava louca por ter mais de um, mas me controlei e pedi o desinfetante. Desta vez, eu não iria andar pelos corredores, por isso encostei-me no balcão para pagar. Ela trouxe o que pedi e, de cabeça baixa, me apresentou a nota sem dizer nada. Nisso, entrou uma mulher com um gato enorme, peludo como uma ovelha sem tosa. Mal se achavam os olhos; o bicho tomava todo o braço que o sustentava. A balconista me deixou de lado e, saindo de trás do balcão, foi atender a nova cliente, levando o “monstro” pelos corredores. Fiquei ali, entre ir embora ou ficar para saber o motivo de tanta alegria. Não demorou, voltaram. A balconista com o gato, imóvel por preguiça, e a mulher com uma cesta cheia. Resolvi, por vingança, ficar ali e deixar que minha presença as incomodasse. Incomodou? Claro que não. Pelo contrário, conversavam, riam e me olhavam. Eu apenas sorria. Enquanto colocavam tudo sobre o balcão, comecei a imaginar levar algumas coisas também: eram tão interessantes... Em que dilema eu estava. A dona do gatão falava sem parar. Dizia que, quando estava triste, ele ficava ao lado dela; quando voltava para casa, ele a seguia por toda parte. Era sua companhia. Suspirei. A balconista, enfim, voltou-se para mim: - Só o desinfetante? Hesitei. Com vergonha e timidez, falei: - É a primeira vez que tenho um gato… Bastou. A outra, sorrindo, colocou a ovelha nos meus braços e levou-me pelos corredores mostrando o que eu “precisava” comprar. Falou de vacinas, cuidados, da veterinária, do gato, claro, e foi enchendo outra cestinha: brinquedos, outra cama, uma coberta, ração especial em pasta. Eu resistia e, ao mesmo tempo, cedia. De longe, a balconista observava, satisfeita. . Trinta dias depois, entrei na agropecuária com meu bichano no colo.
“ Deixai qualquer esperança, vós que entrais ” – Dante.
Blumenau – 110 pessoas chegaram…
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Quem eram essas 110 pessoas para além…
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… além do que poderíamos ver na carne?
Blumenau (1859 - 1950): A História quase perdida
“ Deixai qualquer esperança, vós que entrais ” - Dante.
Cento e dez pessoas chegam numa tarde de verão ou inverno, no obscuro futuro da esperança para alguns, tragédia para outros, acampam, misturam-se e somam-se aos 17 que ali estavam. Quem eram essas 110 pessoas para além do que poderíamos ver na carne? Homens, mulheres, crianças dentro e fora da barriga, agarradas ao peito, na mão, na saia, nas pernas dos de cabelos louros ou castanhos, olhos azuis, calças de tecido, saias compridas, tamancos, chinelos, botinas, fraldas, bicos, bolsas, malas de madeira, de papelão, sacos de pano, lenços na cabeça, fitas de cetim, chapéus redondos, ovais, bicudos, pretos, tragédia no olhar, mosquito, suor a escorrer no rosto, no pescoço, no sovaco, nas costas, entre as pernas, na alma que tremia febril pelo espanto, pela insegurança, pelo medo. Pela tragédia do sarampo, da gripe, da malária, da febre sem sentido, da gravidez em seu fim, pelo parto mal sucedido, pela morte da mãe, pelo desespero da criança que ficará sem mãe, sem rumo, sem pátria, sem infância, sem juventude, para enfim casar e filhos ter para cuidar e dividir a terra que é enorme, gigante, ao lado do rio cheio de mistérios, peixes abundantes nunca vistos, serpenteando a mata cheia de madeira, de animais ferozes, de frutas exóticas e abundantes como a banana, a laranja, o abacaxi, que de seu suco se extrai o mais rico sabor que a terra já produziu. Além de milho, feijão, batata, farinha, cevada para cerveja que virá acompanhada do humor alemão, além da dança que já está, como também a língua materna que se transformará em dialeto em muitos lugares por onde estes homens, 110 homens, colocarem seus pés, seus filhos, seus sonhos, seus netos com suas esperanças de um dia voltarem a ver a pátria amada ou ao menos retratá-la, homenageá-la nesta terra brasil acolhedora, ampla, vasta, imponente, inexplorada, dura, feroz e mansa no leito do rio, no leito de morte, no leito do berço que transformou o imigrante em brasileiro, em colono feito de uma nacionalidade por fora e de outra por dentro. Que se explica na música, na dança, no tiro ao alvo, no bolão, na comida, no sotaque, no nome Blumenau, Friedenreich, Franz, Müller, August, Braunschweig, chucruts, bier, strudell, polka, Franz e Frida que se amaram na primeira noite sob a lua, sob as estrelas, sob o sol e na noite de tempestade quando o rio encheu lavando e levando sonhos, esperanças, crenças no pastor da igreja que proferia Deus misericordioso, senhor do céu e desta terra abençoada por quem nunca nenhum deles viu, ouviu, apertou a mão, trabalhou junto, sonhou, sofreu, chorou, dançou a polka a embalar o filho, outro filho, outro filho que casará com a filha do ilustre Senhor que de colono passou a ilustre Senhor da casa grande construída ao estilo dos ancestrais alemães que nunca sequer sonharam em abandonar a terra pátria para irem além-mar, além do lugar onde o sol se põe em múltiplas cores encontradas nos trajes típicos alemães, prussianos, poloneses, austríacos misturados a dormirem juntos, a procriarem, a viverem e morrerem no mesmo chão de uma terra anteriormente longínqua, inóspita, selvagem, abundante em riqueza para os corajosos, para os destemidos homens, mulheres, crianças que choravam, trabalhavam, adoeciam, morriam de febre, de susto, de tifo, de mordida de cobra, macaco, jacaré, cachorro raivoso enterrado lado a lado com a criança recém batizada pelo padre que mora longe, que batiza, casa, dá a extrema unção aos que depois de tudo feito com obstinação por terem sido recebidos por poucos com alegria patriótica, militar, fraterna para comporem 127 homens com lotes já definidos, recebendo outros tantos homens, criando do nada uma comunidade, uma igreja, uma escola, uma professora, um escritor, uma cervejaria, um alambique, um engenho, duas atafonas de mandioca, mais cervejarias, um teatro, uma serraria, uma casa comercial, uma escola de arte, uma escola alemã, um hotel, um cemitério para que os primeiros que ali chegaram esperassem os 110 que ali chegariam e mais outros que lá nasceram e nem se criaram ou pouco se criaram junto com todos os louros de olhos azuis ou os nem tão louros de olhos azuis e os pardos e os negros e os índios botocudos ou não, que se diziam verdadeiramente brasileiros e deles julgavam que nada construíam apenas cantavam pelados, despudorados, sacudindo seus cocares, seus colares de sementes e penas, renegados por deus, que não gosta de gente pelada a não ser na barriga das mães parideiras anualmente pela graça do senhor do céu e pelo poder do Senhor da terra, da Frida, e da porca, da ovelha, da chinoca, da casa, do cavalo, do chiqueiro, da lavoura, da lei e da ordem de fazer e não fazer, do que vestir, comer, cantar, comprar, vender, ensinar, aprender, namorar, casar, e que depois virá outro Senhor a reforçar ou refazer as ordens, as desordens, as conquistas, as histórias escritas em tinta no papel, em luz no daguerreótipo, no desenho, na pintura, na xilogravura, na litografia, na escultura, na fotografia, na lembrança dos que ficaram, dos que ouviram dos que ali passaram, trabalharam, casaram ou não, dos que ali morreram ou voltaram para sua pátria, daquele que veio de São José da Terra Firme para condensar em livro os primeiros 100 anos da história de Blumenau, que nunca mais será perdida. PS. “Rogamos às pessoas que receberem o presente número de jornal e não tiveram a vontade de ler, o obséquio especial de devolvê-lo”.
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PS. “Rogamos às pessoas que receberem o presente número de jornal e não tiveram a vontade de ler, o obséquio especial de devolvê-lo”.
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Texto inspirado na obra “Colônia de Blumenau no Sul do Brasil” – 1ª edição 2019 e Filme baseado no livro homônimo, de Gilberto Schmidt-Gerlach, Bruno Kilian Kadletz e Marcondes Marchetti .
Era uma vez uma grande explosão de amor.
Era uma vez uma criança que brincava de lojinha.
Era uma vez uma menina que morava na imaginação e sonhava no compasso do relógio.
Era uma vez uma mulher que aprisionou as palavras e as imagens, por longos anos.
Era uma vez uma vida feita com mais de 22 mil dias.
Mas agora não mais “Era uma vez”…
Palavras e imagens não eram uma vez mas, o reinventar da vida eternamente.
Pensando assim quero mostrar meu olhar através da fotografia e da palavra.
A fotografia contemplativa tem me mostrado que é possível romper-se com as formas tradicionais de olhar e, desprendendo-se do belo padronizado, encontrar emoção e beleza em cenas triviais que, muitas vezes, estão bem próximas de nós.
A palavra, em mim, é instrumento para me multiplicar quando sou abduzida pela contemplação. E ela vem em infinitas formas. O Haikai e a poesia chinesa despertam em mim este momento onde o quase nada reverbera em uma profusão de emoções translúcidas.
Por talvez ainda morar na imaginação e sonhar no compasso do relógio, estou aqui, nesta plataforma, que nada mais é do que morar numa imaginação no compasso de um grande relógio, brincando de lojinha para explodir de amor.
“Era uma vez”… morava na imaginação e sonhava no compasso do relógio
Meu nome é Rita Marília Tomaschewski Signorini, nasci em 1955 e moro em Florianópolis (SC). Sou presa ao mar porque talvez nasci em Rio Grande(RS), e pretendo jamais me separar dele.
Escrever e fotografar sempre estiveram em mim como apaziguadores dos meus devaneios.