Prosa

A Morte

Veio visitar-me a morte.
Entrou sem barulho e, sentada no sofá, aguardou a noite que não tardava.
Eu, sem saber, olhava o mundo pelo computador, via Facebook, olhando e criticando a vida de tantos e de todos.
Não sentindo tristeza pela desgraça, nem alegria pela felicidade alheia e, não sendo instruída em nada, desliguei o computador para ir dormir.
Percebi então, no sofá, a presença cândida de alguém que viera me buscar para um longo e longínquo passeio.
– Não haverá trevas nem ranger de dentes, disse-me por telepatia.
– Não haverá barco em lago sinistro, bruma ou breu da noite, continuou.
Neste instante refleti. O que ainda não estava pronto?
Comecei uma lista de coisas para a ocasião:
– dividas além das que estão no cartão de crédito? – não tenho.
– grandes pendências judiciais? – também não tenho.
– herdeiros além dos legalmente constituídos? – não possuo.
– desejos deixados para trás? – nenhum.
– esperanças do passado que ficarão no futuro inexistente? – nada.
– ódio? – não.
– desentendimentos? – Sim, mas nada que não caiba dentro do caixão.
– bens? – Sim, para felicidade dos herdeiros.
– inimigos que festejarão minha morte? – não tenho: logo não haverá fogos de artifício.
– amigos que me carregarão até o carro fúnebre? – Tenho o suficiente: 4. Poucos, mas de imenso amor e a eles meu coração e gratidão.
Minha mala está pronta.
Deixo amigos queridos, devolvo a casa que tenho chamado de parque de diversão, com meus brinquedinhos, e deixo uma história que voará pelo éter. Uma história “meio mais ou menos”, sem tragédias que possam provocar comoção nacional, sem filosofia para um livro, sem importância para significar uma perda.
Saio da história como entrei: anônima.
O que fiz durante a vida? Trazer até a velhice os sentimentos deslumbrados da infância.
Um depois? – logo saberei.
Se nada houver, nunca saberei.
Boa noite.

O texto acima foi publicado na pagina 23 da Revista literária A ILHA de junho/2019. Segue link

Prosa

Notícia Urgente

PALAVRAS CAVAM TÚNEL PARA FUGIREM

 


Ontem, a polícia descobriu um túnel, cavado e pronto, que serviria para um grupo de palavras fugirem do dicionário.
O delegado, em entrevista para o mundo e com exclusividade para nós, declarou que algumas palavras, revoltadas pelos maus tratos e abandono que vêm sofrendo, rebelaram-se e, amotinados, buscavam fugir no dia de finados.
O delegado nada mais soube ou quis dizer.
A investigação prossegue, mas o que nossos repórteres já descobriram é que a mais perigosa facção criminosa, liderada pela palavra Ética, está totalmente envolvida.
Outros nomes que estão sob suspeita são: Moral, Respeito, Civilidade e seus seguidores.
Nossos repórteres não tiveram nenhuma informação sobre a morte da Honestidade, ocorrida dentro das páginas, que está sendo mantida sob absoluto sigilo. Cogita-se que ela tenha sido espancada e torturada até a morte.
O delegado não quis falar sobre o caso para não atrapalhar o andamento das investigações, que prosseguirão assim que um novo Chefe do Departamento for nomeado, empossado e assumir o caso.
Disse-nos, o delegado, que a posse do novo Chefe deve ocorrer no prazo máximo de trinta anos (30 anos), e que este prazo não interferirá no andamento das investigações, já que tudo está sendo registrado e documentado.
Fontes altamente sigilosas informaram a nossos repórteres que mais fugas e mortes estão sendo arquitetadas dentro e fora do dicionário.
Também ficaram sabendo que outro grupo, grande e bem armado, chefiado pela Ganância, aproveitando-se da agitação nas páginas do dicionário, está preparando uma grande chacina e o alvo principal é o bando encabeçado pela Tolerância com seus comparsas que, aliás, parece já estar em negociatas com a quadrilha do Intolerante, para se pouparem da morte anunciada.
Ninguém mais quis dar entrevista, mas nossos repórteres, bravos homens da notícia, continuarão investigando por conta própria e noticiando a qualquer hora, em edição extraordinária.
Ficamos no aguardo de novas informações.

*Foto flagrante: Fotógrafa Rita Marilia #ritamariliats

Com muito orgulho fiquei de também ser publicado na Revista Literária A ILHA 148 de Março/2019 com link abaixo:

.https://issuu.com/grupoliterarioailha/docs/revistaliteraria_148_104_alta

 

Poesia

Amor por Rodrigo

Hoje descobri que te amo
Não sabia antes, hoje sei.
Descobri o véu sobre o meu amor por ti
E todo dia re-velarei o meu amor por ti.

Amar-te no infinito silêncio dos segundos
Quando contigo no abismo das horas impróprias, vertiginosas
Tocar meus dedos toscos em tua delicada alma
Encontrar minh’alma em outro corpo: meu corpo sem alma
Vida!

Ah!
Estar ao teu alcance, estares ao meu lado
Enrodilhar-nos em emoções vagas, fluídicas, apoteóticas
Cavalgar pelos amores incompreendidos
Delirar de mãos dadas com o teu sentir, com o teu emocionar.

Delirar!
Delirar!
Delirar!
Sim, o paraíso está em sons poéticos de beleza
No silêncio da contemplação
Delírios de sentir.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

30.09.2018

A Rodrigo De Haro, amigo que, em certo dia, deu-me momentos de pura contemplação, enchendo minha alma de luz poética, ofereço estes dizeres que verteram de emoções nascidas daquele nosso encontro.

Poesia

Haikai ao Luar

Na lua cheia
Casinha de pescador
Ondas vem e vão

Assoma à porta
Homem rude a olhar
Barco vai ao mar

Long’em alto mar
Joga rede a sonhar
Tempo de passar

Clara ao luar
Casinha de pescador
Pequena n’olhar

Rez’a São Pedro
Puxando rede do mar
Lágrimas n’olhar

Um, dois, três e mil
Peixes na rede estão
Pratas ao luar

Puxa âncora
Barco volta do mar
Beijo de mulher

Lua já sumiu
Casinha de pescador
Brilha o amor.

Poesia

Traição Perfeita

Desculpa, hoje eu te traí.

Te traí com aquele homem elegante
Te traí com aquele sonho alucinante
Te traí com o teu eco
Com o teu espectro
Com o teu reflexo.

Desculpa, hoje eu te traí.

E te traí totalmente
Completamente
E te traí dançando com o teu fantasma
E te traí beijando a tua sombra
E te traí amando a tua lembrança
E te traí muito
E me deleitei
E ri muito
Porque finalmente
Enlouquecidamente
Hoje eu te traí.

Poesia

O Canto do Galo

No poleiro canta o galo
Para a moça da janela
“Ouça bem moça malvada
Não vou hoje p’ra panela”.

E cantando todo dia
Vai o galo bem feliz
Vendo que da morte fria
Vai fugindo por um triz

Se levanta o sol cedo
E o galo é aprendiz
“Vou viver eternamente”
Canta assim o infeliz.

Poesia

A Tecelã Tradutora

Traduza menina, traduza
Teça igual velha rendeira
Seus bilros são o teclado
Sua renda é brasileira

Traduza menina, traduza
Teça igual velhas rendeiras
Que é pelo seu traduzir
Que se abrem as fronteiras

Traduza menina, traduza
Teça igual velhas rendeiras
Vai cantando na janela
E trançando as bandeiras

Traduza menina, traduza
Teça igual velha rendeira
Seu coração é ilhoa que
Tece com linha estrangeira

Traduza menina, traduza
Reze igual velhas rendeiras
Tendo vento a bombordo
Defenda-se das feiticeiras

Traduza menina, traduza
Teça igual velhas rendeiras…

Prosa

Ninho Vazio

Síndrome do Ninho Vazio

Às 6h da manhã levanto, não por opção, mas porque eu sempre fui assim: a cama não quer mais o corpo, o corpo não quer mais a cama, mesmo que o sono fique ali deitado.
Levanto, bebo dois copos de água, passo café e sento para ler por mais ou menos uma hora e meia.
Nem sempre foi assim.
Em tempos de correria, quando a filha era pequena, quando eu trabalhava em tempo integral, levantava cedo, mas não lia. Não lia, mas em parcos momentos de um dia atribulado roubava minutos para, com fios de sonhos, tecer esperança.
Fiz, naquela época, o que julguei ser meu dever de casa. A cada noite uma página era virada e pela manhã uma nova página, com novas lições, novos desafios, novos exercícios não vividos e … sem livros para consulta.
Trabalhei, criei uma filha e, embora ela já morasse fora de casa, não a ver “encaminhada” continuava sendo minha principal ocupação, preocupação.
Numa manhã qualquer, um e-mail chamando-a para assumir um cargo conquistado através de concurso muda meu olhar sobre a minha vida e silenciosamente surge a Síndrome do Ninho Vazio: ninho emocional.
Não naquele dia, que era para comemorar. Não no outro, que era para comemorar ainda mais. Mas, depois…
Então…
Então às 6h da manhã levantei e antes de ler olhei para minha idade, olhei para meu corpo em visíveis transformações, olhei para o tempo passado e olhei para o futuro.
Futuro!? Futuro!? Futuro!?
Qual futuro?
O futuro do minuto seguinte, da noite seguinte, do dia seguinte.
O futuro aqui, grudado, de boca aberta e de olhos esbugalhados esperando minhas ordens.
Minhas ordens?
Minhas?
Minhas, sim. Minhas e de mais ninguém.
Eu? Ser dona? Ampla, total, irrestrita, dona e livre? Dona de mim, de meu tempo, de meus pensamentos? …. Eu? De mim?
Nesta manhã voltei para a cama sem ler … e dormi.
Na manhã seguinte a cama também me acolheu e na outra ela me escondeu do mundo, do mundo que sempre espiei pela fresta das possibilidades.
Possibilidades, possibilidades, possibilidades!!! …. Possível.
Então agora eu poderia olhar, não mais pela fresta, mas pela janela escancarada e alcançar as possibilidades.
Mas não desejando saber, eu dormia embalada pelo medo.
Medo!
Medo do desconhecido, medo de ser livre, medo de não ser útil e de ser esquecida, jogada no silêncio.
Medo do tempo que se agigantou à minha frente, porque os ponteiros do relógio passaram a se mexer lentamente pela falta de urgência, dando-me sobrevida.
Medo de saltar do trampolim da responsabilidade familiar, medo de estar em pleno voo – um dos momentos mais solitários em que alguém pode estar – medo de tocar a água lá em baixo e senti-la com carícia se abrindo para me receber como útero invertido, medo de me afogar de tanta emoção, medo de voltar à tona e não receber aplausos e ver-me só e feliz, medo de sair da água e (“que Deus me livre”) dizer apenas para mim: sou feliz com o que tenho, sou feliz com o que sou, sou feliz com o que ainda serei e realizarei.
Mas eu dormia e dormia em tempo integral. Dormia e fugia.
As marcas das rédeas da responsabilidade ainda sangravam no meu pescoço.
Meus amigos me buscavam, ofereciam-me passeios, lugares, reuniões: eu fugia.
Até que, num final de semana, fui constrangida a fazer uma pequena viagem.
Pedi carona num dos três carros da caravana.
O casal, meu amigo, com uma gentileza inominável, acolheu-me em seu carro e eu, por brincadeira, para deixar o ambiente descontraído, disse que eu ia “de filha”, já que o acento de trás a mim pertencia.
As risadas foram boas e logo na saída, no primeiro quilômetro, percebendo que eles aceitavam a brincadeira e também para relembrar momentos vividos por eles e por mim, falei:
– Já chegamos? Falta muito?
E, sentada no banco de trás, viajei contando e relembrando as coisas da minha infância. Falei que meus pais sempre me levavam em seus passeios de carro, que eu adorava estar à mercê dos desejos deles, e que para mim tudo era bom quando estava com eles …
Assim, fui e voltei brincando, relembrando e me denominando “filha”.
Na última parada já de volta, troquei de carro e eles – adoráveis “eles” – continuando a brincadeira, fizeram mil recomendações para eu me comportar no carro das “tias”.
Por que? Não sei, mas foi assim.
Aquela viagem me fez voltar no tempo e lembrar-me do antes: do antes de ser mãe, do tempo de “ser filha”.
E relembrei aquele tempo, quem eu era, onde eu estava, o que era bom, o que era ruim, o que era inevitável, o tempo que perdi lamentando sem fazer, os porquês, os como, o que eu sonhava ser e fazer.
O que sonhava ser e fazer?
Ser e fazer…
Do “ser” fui mãe com todas as obrigações, alegrias e tristezas, culminando no mérito do “ter encaminhado”.
Consegui criar o hábito da leitura e adquiri o conhecimento que eu sempre julguei importante para mim.
Mas restava tudo o mais que eu queria ser e, assim, de braços dados com o fazer, o ser que queria ser – e que morava no passado – precisava com urgência ser tele transportado para o presente.
Mas ainda a cama era o meu esconderijo, meu conforto e minha conselheira.
No dia seguinte, novamente fiz uma incursão ao ponto dos meus desejos de “ser” e de “ter” quando ainda a responsabilidade sobre minha filha não existia.
Quem eu era naquele passado?
Do que eu reclamava não ter? De não ser? De não poder fazer?
Percebi que eu tinha o privilégio de resgatar estas perguntas e responde-las todas.
Privilégio? Sim, porque estou aqui viva em pensamento, viva em saúde, viva em ação, viva em emoção.
Abri novamente o caderno da minha vida e voltei àquelas páginas amareladas para reassumir as queixas que me impediam de tantas coisas. E daquelas queixas “pueris” extrair os meus “quereres” e me comprometer a transforma-los novamente em sonhos e, de sonhos, em realizações com novas alegrias mesmo que com um corpo menos interessante, mas com uma cabeça muito mais “tudo”.
Quanto à Síndrome do Ninho Vazio? Ela permanecerá aqui comigo, do meu lado a me acompanhar, demarcando tempos vividos, porque ela é real e importante.
No caderno da minha vida, em letras grandes, junto com outras igualmente reais e importantes, vou acrescentá-la:

INFÂNCIA – ok
ADOLESCENCIA – ok
FASE ADULTA – ok
MATERNIDADE – ok
PROFISSÃO – ok
SAÚDE – ok
SINDROME DO NINHO VAZIO – ok
EU… em movimento

Ontem estive em uma reunião de amigos e senti toda a minha mocidade pincelar meu coração. Ali estive alegre, hoje sou feliz.
Alegria se conjuga com o verbo estar; felicidade se conjuga com o verbo ser.
Ser é um verbo de permanência; estar é um verbo de mutação.
E sou feliz porque, olhando para trás, vejo que os grandes desafios foram vencidos.
E sou feliz porque a vida me recompensa devolvendo-me tempo.
Daqui a alguns anos quero enumerar os meus sonhos realizados a partir de agora.
O ninho não estava vazio: havia uma fênix – eu – que aguardava o tempo certo para renascer e voar.

“Viver uma grande vida é realizar na idade adulta um ideal da juventude. ”
Alfred Victor de Vigny