
Nem sei por que eu escrevo
Escrevo porque já senti
Um fogo imenso infinito
Rodando dentro de mim
Escrevo porque não posso
Falar do que vai em mim
Só palavras escritas podem
Levar o meu querubim
E sigo neste deleite
Sabendo quem me traduz
O som de uma palavra
Na boca de quem a conduz
Não posso fugir confesso
Dos sons desta balada
Prefiro morrer à míngua
Que ser dela enviuvada
Passei um tempo infeliz
Longe da valsa dolente
Meus ais todos ausentes
Com olhos de meretriz
Disseram-me: “vai por aqui”
Ou talvez “vá por ali”
O mundo a nada conduz
Eu pobre morria em cruz
Nada de belo olhei
Nada de sonho sonhei
Nada aqui eu conquistei
Nada ali eu revelei
Tristes dias de clausura
De boca amarga fiquei
Minhas palavras trancadas
Nos sonhos que não sonhei
Agora voem meus sonhos
Estendam as asas, meus ais
Buliça, minha alegria
E da pena vos derramais
Nunca mais volto a cabeça
Nunca mais mulher de sal
Hoje sou o sol e a lua
Hoje sou na pedra a cal.

