Poesia

Haikai ao Luar

Na lua cheia
Casinha de pescador
Ondas vem e vão

Assoma à porta
Homem rude a olhar
Barco vai ao mar

Long’em alto mar
Joga rede a sonhar
Tempo de passar

Clara ao luar
Casinha de pescador
Pequena n’olhar

Rez’a São Pedro
Puxando rede do mar
Lágrimas n’olhar

Um, dois, três e mil
Peixes na rede estão
Pratas ao luar

Puxa âncora
Barco volta do mar
Beijo de mulher

Lua já sumiu
Casinha de pescador
Brilha o amor.

Poesia

Traição Perfeita

Desculpa, hoje eu te traí.

Te traí com aquele homem elegante
Te traí com aquele sonho alucinante
Te traí com o teu eco
Com o teu espectro
Com o teu reflexo.

Desculpa, hoje eu te traí.

E te traí totalmente
Completamente
E te traí dançando com o teu fantasma
E te traí beijando a tua sombra
E te traí amando a tua lembrança
E te traí muito
E me deleitei
E ri muito
Porque finalmente
Enlouquecidamente
Hoje eu te traí.

Poesia

O Canto do Galo

No poleiro canta o galo
Para a moça da janela
“Ouça bem moça malvada
Não vou hoje p’ra panela”.

E cantando todo dia
Vai o galo bem feliz
Vendo que da morte fria
Vai fugindo por um triz

Se levanta o sol cedo
E o galo é aprendiz
“Vou viver eternamente”
Canta assim o infeliz.

Poesia

A Tecelã Tradutora

Traduza menina, traduza
Teça igual velha rendeira
Seus bilros são o teclado
Sua renda é brasileira

Traduza menina, traduza
Teça igual velhas rendeiras
Que é pelo seu traduzir
Que se abrem as fronteiras

Traduza menina, traduza
Teça igual velhas rendeiras
Vai cantando na janela
E trançando as bandeiras

Traduza menina, traduza
Teça igual velha rendeira
Seu coração é ilhoa que
Tece com linha estrangeira

Traduza menina, traduza
Reze igual velhas rendeiras
Tendo vento a bombordo
Defenda-se das feiticeiras

Traduza menina, traduza
Teça igual velhas rendeiras…

Prosa

Ninho Vazio

Síndrome do Ninho Vazio

Às 6h da manhã levanto, não por opção, mas porque eu sempre fui assim: a cama não quer mais o corpo, o corpo não quer mais a cama, mesmo que o sono fique ali deitado.
Levanto, bebo dois copos de água, passo café e sento para ler por mais ou menos uma hora e meia.
Nem sempre foi assim.
Em tempos de correria, quando a filha era pequena, quando eu trabalhava em tempo integral, levantava cedo, mas não lia. Não lia, mas em parcos momentos de um dia atribulado roubava minutos para, com fios de sonhos, tecer esperança.
Fiz, naquela época, o que julguei ser meu dever de casa. A cada noite uma página era virada e pela manhã uma nova página, com novas lições, novos desafios, novos exercícios não vividos e … sem livros para consulta.
Trabalhei, criei uma filha e, embora ela já morasse fora de casa, não a ver “encaminhada” continuava sendo minha principal ocupação, preocupação.
Numa manhã qualquer, um e-mail chamando-a para assumir um cargo conquistado através de concurso muda meu olhar sobre a minha vida e silenciosamente surge a Síndrome do Ninho Vazio: ninho emocional.
Não naquele dia, que era para comemorar. Não no outro, que era para comemorar ainda mais. Mas, depois…
Então…
Então às 6h da manhã levantei e antes de ler olhei para minha idade, olhei para meu corpo em visíveis transformações, olhei para o tempo passado e olhei para o futuro.
Futuro!? Futuro!? Futuro!?
Qual futuro?
O futuro do minuto seguinte, da noite seguinte, do dia seguinte.
O futuro aqui, grudado, de boca aberta e de olhos esbugalhados esperando minhas ordens.
Minhas ordens?
Minhas?
Minhas, sim. Minhas e de mais ninguém.
Eu? Ser dona? Ampla, total, irrestrita, dona e livre? Dona de mim, de meu tempo, de meus pensamentos? …. Eu? De mim?
Nesta manhã voltei para a cama sem ler … e dormi.
Na manhã seguinte a cama também me acolheu e na outra ela me escondeu do mundo, do mundo que sempre espiei pela fresta das possibilidades.
Possibilidades, possibilidades, possibilidades!!! …. Possível.
Então agora eu poderia olhar, não mais pela fresta, mas pela janela escancarada e alcançar as possibilidades.
Mas não desejando saber, eu dormia embalada pelo medo.
Medo!
Medo do desconhecido, medo de ser livre, medo de não ser útil e de ser esquecida, jogada no silêncio.
Medo do tempo que se agigantou à minha frente, porque os ponteiros do relógio passaram a se mexer lentamente pela falta de urgência, dando-me sobrevida.
Medo de saltar do trampolim da responsabilidade familiar, medo de estar em pleno voo – um dos momentos mais solitários em que alguém pode estar – medo de tocar a água lá em baixo e senti-la com carícia se abrindo para me receber como útero invertido, medo de me afogar de tanta emoção, medo de voltar à tona e não receber aplausos e ver-me só e feliz, medo de sair da água e (“que Deus me livre”) dizer apenas para mim: sou feliz com o que tenho, sou feliz com o que sou, sou feliz com o que ainda serei e realizarei.
Mas eu dormia e dormia em tempo integral. Dormia e fugia.
As marcas das rédeas da responsabilidade ainda sangravam no meu pescoço.
Meus amigos me buscavam, ofereciam-me passeios, lugares, reuniões: eu fugia.
Até que, num final de semana, fui constrangida a fazer uma pequena viagem.
Pedi carona num dos três carros da caravana.
O casal, meu amigo, com uma gentileza inominável, acolheu-me em seu carro e eu, por brincadeira, para deixar o ambiente descontraído, disse que eu ia “de filha”, já que o acento de trás a mim pertencia.
As risadas foram boas e logo na saída, no primeiro quilômetro, percebendo que eles aceitavam a brincadeira e também para relembrar momentos vividos por eles e por mim, falei:
– Já chegamos? Falta muito?
E, sentada no banco de trás, viajei contando e relembrando as coisas da minha infância. Falei que meus pais sempre me levavam em seus passeios de carro, que eu adorava estar à mercê dos desejos deles, e que para mim tudo era bom quando estava com eles …
Assim, fui e voltei brincando, relembrando e me denominando “filha”.
Na última parada já de volta, troquei de carro e eles – adoráveis “eles” – continuando a brincadeira, fizeram mil recomendações para eu me comportar no carro das “tias”.
Por que? Não sei, mas foi assim.
Aquela viagem me fez voltar no tempo e lembrar-me do antes: do antes de ser mãe, do tempo de “ser filha”.
E relembrei aquele tempo, quem eu era, onde eu estava, o que era bom, o que era ruim, o que era inevitável, o tempo que perdi lamentando sem fazer, os porquês, os como, o que eu sonhava ser e fazer.
O que sonhava ser e fazer?
Ser e fazer…
Do “ser” fui mãe com todas as obrigações, alegrias e tristezas, culminando no mérito do “ter encaminhado”.
Consegui criar o hábito da leitura e adquiri o conhecimento que eu sempre julguei importante para mim.
Mas restava tudo o mais que eu queria ser e, assim, de braços dados com o fazer, o ser que queria ser – e que morava no passado – precisava com urgência ser tele transportado para o presente.
Mas ainda a cama era o meu esconderijo, meu conforto e minha conselheira.
No dia seguinte, novamente fiz uma incursão ao ponto dos meus desejos de “ser” e de “ter” quando ainda a responsabilidade sobre minha filha não existia.
Quem eu era naquele passado?
Do que eu reclamava não ter? De não ser? De não poder fazer?
Percebi que eu tinha o privilégio de resgatar estas perguntas e responde-las todas.
Privilégio? Sim, porque estou aqui viva em pensamento, viva em saúde, viva em ação, viva em emoção.
Abri novamente o caderno da minha vida e voltei àquelas páginas amareladas para reassumir as queixas que me impediam de tantas coisas. E daquelas queixas “pueris” extrair os meus “quereres” e me comprometer a transforma-los novamente em sonhos e, de sonhos, em realizações com novas alegrias mesmo que com um corpo menos interessante, mas com uma cabeça muito mais “tudo”.
Quanto à Síndrome do Ninho Vazio? Ela permanecerá aqui comigo, do meu lado a me acompanhar, demarcando tempos vividos, porque ela é real e importante.
No caderno da minha vida, em letras grandes, junto com outras igualmente reais e importantes, vou acrescentá-la:

INFÂNCIA – ok
ADOLESCENCIA – ok
FASE ADULTA – ok
MATERNIDADE – ok
PROFISSÃO – ok
SAÚDE – ok
SINDROME DO NINHO VAZIO – ok
EU… em movimento

Ontem estive em uma reunião de amigos e senti toda a minha mocidade pincelar meu coração. Ali estive alegre, hoje sou feliz.
Alegria se conjuga com o verbo estar; felicidade se conjuga com o verbo ser.
Ser é um verbo de permanência; estar é um verbo de mutação.
E sou feliz porque, olhando para trás, vejo que os grandes desafios foram vencidos.
E sou feliz porque a vida me recompensa devolvendo-me tempo.
Daqui a alguns anos quero enumerar os meus sonhos realizados a partir de agora.
O ninho não estava vazio: havia uma fênix – eu – que aguardava o tempo certo para renascer e voar.

“Viver uma grande vida é realizar na idade adulta um ideal da juventude. ”
Alfred Victor de Vigny

Prosa

Tributo a Júlio de Queiroz

Veja seu olhar! Diz tudo não? Não, não diz tudo porque havia mais muito mais no seu sorriso no seu coração no seu pensar.
Meu estar com ele foi temporal de verão: rápido e forte.
Pelo seu porte físico sempre me lembrou com carinho de Mário Quintana.
Agora tenho dois passarinhos na gaiola aberta de meu coração: um Alegre, outro Alegrete.

Vida é amor represado
Morte, amor trans-bordado

Perdemos o que viria a ser
Guardemos o que foi para que sejamos dignos.

Meu profundo sentimento de dor egoísta.

Recitado na Academia Catarinense de Letras – ACL na Sessão de Saudade do Acadêmico Julio de Queiroz, grande poeta brasileiro, por ocasião do primeiro ano do seu passamento – Ler Mais

Outros Autores

Conversa Com a Pedra

 

Bato à porta da pedra.
– Sou eu, me deixa entrar.
Quero penetrar no teu interior
olhar em volta,
te aspirar como o ar.

– Vai embora – diz a pedra. –
Sou hermeticamente fechada.
Mesmo partidas em pedaços
seremos hermeticamente fechadas.
Mesmo reduzidas a pó
não deixaremos ninguém entrar.

Bato à porta da pedra.
– Sou eu, me deixa entrar.
Venho por curiosidade pura.
A vida é minha ocasião única.
Pretendo percorrer teu palácio
e depois visitar ainda a folha e a gota d’água.
Pouco tempo tenho para isso tudo.
Minha mortalidade devia te comover.

– Sou de pedra – diz a pedra –
e forçosamente devo manter a seriedade
Vai embora.
Não tenho os músculos de riso.

Bato à porta da pedra.
– Sou eu, me deixa entrar.
Soube que há em ti grandes salas vazias,
nunca vistas, inutilmente belas,
surdas, sem ecos de quaisquer passos.
Admite que mesmo tu sabes pouco disso.

– Salas grandes e vazias – diz a pedra –
mas nelas não há lugar.
Belas, talvez, mas para além do gosto
dos teus pobres sentidos.
Podes me reconhecer, nunca me conhecer.
Com toda a minha superfície me volto para ti
mas com todo o meu interior permaneço de costas.

Bato à porta da pedra.
– Sou eu, me deixa entrar.
Não busco em ti refúgio eterno.
Não sou infeliz.
Não sou uma sem-teto.
O meu mundo merece retorno.
Entro e saio de mãos vazias.
E para provar que de fato estive presente,
não apresentarei senão palavras,
a que ninguém dará credito.

– Não vais entrar – diz a pedra. –
Te falta o sentido da participação.
Nenhum sentido te substitui o sentido da participação.
Mesmo a vista aguçada até a onividência
de nada te adianta sem o sentido da participação.
Não vais entrar, mal tens ideia desse sentido,
mal tens o seu germe, a sua concepção.

Bato à porta da pedra.
– Sou eu, me deixa entrar.
Não posso esperar dois mil séculos
para estar sob teu teto.

– Se não me acreditas – diz a pedra –
fala com a folha, ela dirá o mesmo que eu.
Com a gota d’água, ela dirá o mesmo que a folha.
Por fim pergunta ao cabelo da tua própria cabeça.
O riso se expande em mim, o riso, um riso enorme,
eu que não sei rir.

Bato à porta da pedra.
– Sou eu, me deixa entrar.

– Não tenho porta – diz a pedra.

 

*** Wislawa Szymborska nasceu em 1923 em Bnin, na Polônia. Em 1931 mudou-se com a família para Cracóvia de onde não mais saiu. Em 1996 granhou o Prêmio Nobel de Literatura.
Faleceu em 2012.

*** retirado do livro “Wislawa Szymborska [poemas] tradução de Regina Przybycien
– editora Companhia das Letras. 2011.

Poesia

Kalu

 

 

 

Eram duas estrelas
Uma do céu
Uma do mar
Que na areia se amavam

O mar ciumento chegou
Galopando em suas vagas
Separou
Quem na areia se amava

Nunca mais!
Nunca mais!
O mar rugindo espumava.

Poesia

Alma Infante

Delira alma sonhadora!
Já não é sem tempo
Deves descobrir teu sonho
E, quiça, vê-lo morrer
No delírio da histeria tua.

Delira!
Que em ti
Tudo é fugaz!

Mas toma cuidado!
Talvez,
Por tão antigo,
Enraizado
Em tua carne
Esteja.

Delira alma infante!
Já não é sem tempo
Cumprires tua sina.