Outros Autores · Poema

Fotografia

O fotógrafo ensina a gente a ver
botando nossos olhos na janela
que leva a tiracolo – e nos revela
o que a rotina está sempre a esconder

o que a retina na pressa atropela
o que em paisagem passa a se perder
ou o que os olhos estão a verter
feito fonte que em fogo se congela

Salta o detalhe enfim pinçado e exposto
no ambiente vestido de luz onde
o ar respira e as coisas criam rosto

E em cada foto a nos olhar se expande
a fé de um amoroso deus maroto
da arte para um mundo radiante

Poeta:Domingues Pellegrini

Fotografia: Rita Marília

Prosa · Reflexões

Despertando e Experienciando

Na pintura de Portinari, “Roda Infantil” – 1932, uma roda com várias crianças girando. Girando e cantando. Cantando e girando ao som e ritmo de um hino à fraternidade. 
Uma nova criança chega, observa, quer entrar. 
Ela depende de que duas daquelas crianças, abdicando de seus fortes laços já consolidados, abram a roda. A criança que está de braços cruzados –  fechada para o novo –  precisa abrir-se para poder entrar e vivenciar a nova experiência. 
Algumas crianças da roda, as mais próximas da criança a ser integrada, se agitam em maior alegria. 
A roda, que antes possuía um ritmo harmonioso, trepida, diminui o ritmo, perde um pouco a dinâmica. Algumas, dentre todas, tentam manter o compasso da roda, agora mais lento, sem desestabilizar. 
Num impulso, a nova criança estende os braços. Suas mãos, antes presa ao corpo, ao medo, ao egoísmo ou à individualidade, erguem-se alcançando a meditação do vazio para só depois prender-se ao todo.
No princípio ela sente somente o calor das mãos que lhe acolhem, mas suas pernas não encontram o compasso certo: tropeça algumas vezes , sente-se derrotada.
Mesmo assustada, busca, tenta, se esforça para entrar em harmonia com as demais. 
Não é fácil, pensa consigo, buscando um motivo para desistir e voltar ao ostracismo. Mas o equilíbrio de todas, a alegria com que rodam e cantam,  a cativa novamente: ela também quer ser feliz.
Apoiada nas mãos que a seguram com carinho, firmeza, e determinação, reequilibra-se novamente.
Sem consciência do que sente exatamente, é impulsionada a continuar. 
Agora, sempre de mãos dadas, e mais confiante, sente a roda, aos poucos, voltar a girar como anteriormente, ao som e ritmo de uma canção de amor universal onde cada criança faz sua parte para que o Todo gire em harmonia e no mesmo compasso.
… e de repente … a primeira volta completa se deu sem que ela tivesse grandes tropeços.
Seu coração cheio de júbilo, passa a acreditar que o esforço compensa e que seus resultados correspondem aos exemplos dados e por ela assimilados.
Sentindo-se mais segura nos passos, consegue, então, olhar para fora de si,  perceber as demais crianças e entender que para entrar e girar, vivenciar a alegria da roda é preciso abandonar a individualidade e tornar-se parte: parte das leis que fazem a roda girar em harmonia e sem se romper.
Pertencendo à roda e girando, sente e identifica, sem bem saber como, que há forças a regerem o movimento. Ela não conhece as forças de ação e reação, centrífuga e centrípeta, entre outras, e que estas forças, para a roda girar em harmonia, não podem agir independentes.
Mas já sente que seus passos não podem ser nem muito rápido, nem muito lentos, sem pressa e sem pausa: ela não pode imprimir seu próprio ritmo.
Assim, todas unidas com firmeza por mãos generosas, dando e recebendo, a cantoria recomeça com a circunferência um pouco maior, um pouco mais alegre, e sempre em volta do ponto central: o UNO.
A criança passou a confiar em seu aprendizado, em seu Eu interior e em quem está do seu lado na roda.
Aprendeu o ritmo da roda, sentiu e desejou ser apenas parte. 
Então é chegada a hora de um novo aprendizado: largar a mão que, até aquele momento, lhe acolheu, segurou e conduziu PARA TORNAR-SE a mão que  acolhe, segura e conduz outra mão que fora da roda espera.

Poema

Os Olhos Seus

Eu sou uma pandorga
A balançar pelo ar
E você é o menino
A me levar a voar

Olha, solta, estica, larga
Corre atrás e torna a puxar
É assim que você menino
Faz a pandorga voar

Lá longe muito distante
Olhos atentos aos céus
Todos olham a pandorga
Ninguém olha os olhos seus.

Prosa

O Medo

Quatro horas da tarde. 

A previsão era de um Ciclone Bomba.

Ciclone já assusta, ciclone bomba deve ser o fim dos tempos.

Penso que nada posso fazer em relação a isto a não ser me proteger, mas esta idéia é apenas teórica e vaga: sempre é, diante da realidade.

A previsão era para a noite: o pior sempre vem a noite.

Preciso levar uma pessoa em casa, já que, nesta época de pandemia, os ônibus andam vazios da espécie humana, mas cheios de vírus C-19, rindo e pulando, deixando suas partes aqui e ali e se refazendo feito lagartixa que perdeu o rabo.

Já estava na programação do dia esta missão.

Adianto-me uma hora para sair de casa e não pegar o vento que sempre prenuncia estes temporais: uma espécie de gentileza do temporal aos viventes, já que as pedras nada sentem e nada podem fazer.

Minha carona e eu, alegres pela decisão de antecipar as ações, estamos  a uma distância de aproximadamente 10 km, e cerca de 7 minutos do destino.

Partimos!

Na rua a silhueta do sol ainda pode ser vista através de uma espécie de plástico leitoso que se estende sob todo o céu.

Olhando o movimento das ruas, percorremos quase todo o trajeto com alegria simples. Minha caroneira é uma das pérolas da minha vida.

Dobrando uma rua, já no destino, ela chama-me a atenção para as nuvens no céu, enquanto eu paro para ela descer.

Ela corre para casa e eu, rapidamente, dou partida no carro.

Uma nuvem relativamente pequena está à minha frente. Ela é cinza, muito escura, está baixa, muito baixa e faz reviravolta feito peão, e por não ser muito grande eu posso ver todo seu tamanho, todas as suas formas que se amalgamam em si … e ao fundo, o horror: o cinza-chumbo-azulado encobrindo tudo.

Meu pensamento é para minha filha: ela estará na rua?

O céu não espera minhas ações! Nem minhas e nem as dos passarinhos, para que pousem em segurança: tudo se resume ao Nada.

Entre um sim e um não de meu genro, sei que ele e minha filha estão em segurança,  podendo, agora, cuidar de mim: a tormenta se faz maior que meu amor materno.

Chegou!

E chegou sem nenhuma gentileza ou delicadeza. Chegou varrendo com fúria tudo que podia. Tudo é seu e sem pudor faz o que quer.

Eu não posso ficar na rua, penso: preciso me abrigar.

O cérebro, mais rápido do que o louco que paira sobre mim, me orienta. 

E a poucos segundos dali uma grande loja, com estacionamento no subsolo, me recebe: a mim e a mais uma centena de insignificantes mortais.

Lá fora, o louco ruge e cospe vento e chuva. Dentro apenas e tão somente seres assustados.

Cinco minutos foi o tempo que o louco arrastou suas correntes, gargalhando dos orgulhosos “nada” que se escondiam feito formigas fugindo de seu formigueiro remexido. Cinco minutos, que foram 30, 60, 90 minutos, talvez uma eternidade para alguns.

Capítulo II – A dança

As notícias eram de outro louco que estava chegando para o horário da madrugada.

Uns diziam que era mais louco, outros, menos louco. Uns diziam que era maior e mais vingativo, outros que não passava de um incompreendido. Enfim, fiquemos atentos que  tudo pode ser!

Quem se apavora acredita já estar ouvindo o ribombar; quem não acredita, vê, ouve e sente a calmaria. 

Seriam estes os sentimentos dos conscientes diante da morte iminente?

É hora de dormir.

No desejo de ainda fazer muitas coisas, as horas passam céleres e a meia-noite se anuncia.

As 3:30 horas minha janela acusa a proximidade do vento.

As 4:00 horas meu espírito não permite que eu fique na cama: meu espírito levanta; meu corpo vai atrás.

A madrugada é fria. Na rua, apenas a música cantada pelo vento e dançada pelas árvores que atiram suas folhas ao chão em condição de total subserviência. Outras, em franca histeria, jogam-se ao chão.

É a dança dançada nos infernos e aplaudida pelos ateus.

Eu…, eu, pobre de mim!

Assustada como na tarde anterior, busco abrigo dentro do meu abrigo: embaixo da escada, na parte mais escura e irrelevante da casa. Embaixo da escada para abrigar a parte mais relevante de mim. 

Ele, o louco, dança na frente da minha casa ao ritmo de todos os ritmos.

Vez ou outra vem aos tropeços e bate com força na porta, na janela, no portão.

Dança e sapateia no telhado, cansa e descansa: silêncio.

As árvores se erguem, ficam empertigadas: eu não consigo sair de minha posição fetal.

Aguardo.

Silêncio.

Tudo passou e eu estou salva.

Mas o que?

Como gato, aprumo o ouvido e ouço, ao longe, o baile dos infernos se aproximando.

… e vem vindo

… e tudo recomeça.

Minhas costas que doíam, já não doem mais.

Minhas pernas amortecidas são esquecidas.

Tudo é escuro e desconfortável embaixo da escada, mas tudo é escuro e assustador fora dela.

E novamente as árvores  dançam se revezando com este bailarino invisível.

Não há nuvens no céu e as estrelas assistem, passivamente, à mais esta tragédia humana: O MEDO.

Poema

Nós

Amanheceu para nós
Para fazer novos nós
Ou desfazer alguns nós
Na conivência de nós.

Nós que amamos
Nós que precisamos
Nós que desejamos
Nós que abandonamos
Nós que não queremos.

Nós em nós
Nós, só nós
Do choro ao silêncio
Eternamente
Nós.

- eternamente sós - 


(Rita Marília- 08.12.2018)

Poema

Ex-Cada

Simples assim é o viver:
Sinuoso
Subindo sempre
Sentindo emoções
Sensações
Subindo sempre
Sem degrau de descida
Só ilusão e subida
Sem descanso, só fadiga.
No último
A queda fria
Vazia.

Saudade
Dos primeiros degraus
Da subida!

Simples assim é o viver

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Este poema encontra-se também na pagina 47 do SUPLEMENTO LITERÁRIO A ILHA – Edição 152 – Março/2020  – veja aqui

Outros Autores · Poema · Prosa

Noite Na Taverna – Álvares de Azevedo

” …
—Quem eu sou? na verdade fora difícil dizê-lo: corri muito mundo, a cada instante mudando de nome e de vida. Fui poeta e como poeta cantei. Fui soldado e banhei minha fronte juvenil nos últimos raios de sol da águia de Waterloo. Apertei ao fogo da batalha a mão do homem do século. Bebi numa taverna com Bocage — o português, ajoelhei-me na Itália sobre o túmulo de Dante e fui a Grécia para sonhar como Byron naquele túmulo das glórias do passado. — Quem eu sou? Fui um poeta aos vinte anos, um libertino aos trinta, sou um vagabundo sem pátria e sem crenças aos quarenta. Sentei-me a sombra de todos os sóis, beijei lábios de mulheres de todos os países; e de todo esse peregrinar só trouxe duas lembranças — um amor de mulher que morreu nos meus braços na primeira noite de embriaguez e de febre — e uma agonia de poeta… Dela,
tenho uma rosa murcha e a fita que prendia seus cabelos. Dele olhai… “

Parte do conto “Noite na Taverna” de Álvares de Azevedo, extraído do site
http://objdigital.bn.br/Acervo_Digital/Livros_eletronicos/noitenataverna.pdf

Noite na Taverna é uma antologia de contos do autor ultrarromântico brasileiro Álvares de Azevedo sob o pseudônimo Job Stern. Foi publicada postumamente, em 1855; três anos após a sua morte.
( https://pt.wikipedia.org/wiki/Noite_na_Taverna )

Em seu velório foi lido o poema abaixo que compôs alguns dias antes

SE EU MORRESSE AMANHÃ

Se eu morresse amanhã, viria ao menos
Fechar meus olhos minha triste irmã;
Minha mãe de saudades morreria
Se eu morresse amanhã!

Quanta glória pressinto em meu futuro!
Que aurora de porvir e que amanhã!
Eu perdera chorando essas coroas
Se eu morresse amanhã!

Que sol! que céu azul! que doce n’alva
Acorda a natureza mais louçã!
Não me batera tanto amor no peito
Se eu morresse amanhã!

Mas essa dor da vida que devora
A ânsia de glória, o doloroso afã…
A dor no peito emudecera ao menos
Se eu morresse amanhã!

https://www.pensador.com/frase/NjA3NDEx/

Álvares de Azevedo
Nasceu a 12.09.1831 em São Paulo e morreu em 25.04.1852 no Rio de Janeiro, aos 20 anos de idade

Outros Autores · Poema

Por Quem Foi Que Me Trocaram

Por quem foi que me trocaram
Quando estava a olhar pra ti?
Pousa a tua mão na minha
E, sem me olhares, sorri.

Sorri do teu pensamento
Porque eu só quero pensar
Que é de mim que ele está feito
E que o tens para mo dar.

Depois aperta-me a mão
E vira os olhos a mim...
Por quem foi que me trocaram
Quando estás a olhar-me assim? 



FERNANDO ANTÓNIO NOGUEIRA PESSOA foi um poeta, filósofo, dramaturgo, ensaísta, tradutor, publicitário, astrólogo, inventor, empresário, correspondente comercial, crítico literário e comentarista político português. Fernando Pessoa é o mais universal poeta português.
* Nasceu a 13 de junho de 1888, Lisboa, Portugal
+ Faleceu a 30 de Novembro de 1935, Lisboa, Portugal.


Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990).  – 19. http://arquivopessoa.net/textos/4230
https://pt.wikipedia.org/wiki/Fernando_Pessoa