Ganhei um gatinho amarelo e branco, uma caixa de sapato cheia de areia e uma seringa grossa improvisada como mamadeira. Fiquei parada, olhando aquela bolinha de pelo se mexendo nas minhas mãos, enquanto minha amiga sumia de mãos vazias. Era tão pequeno e peludo que não vi seus olhos. Dizem que machos têm duas cores e fêmeas, três. Era macho: duas cores. Não gostei. Machos marcam território, era tudo o que eu sabia. Ia crescer, e as marcações começariam. Pesquisei na internet: “castrar pode diminuir a marcação ou até parar”, nada certo. Para adiar qualquer decisão radical, como devolver o gato, resolvi não pensar. Foquei no que fazer e por onde começar. Miados e mamadeiras de dia, miados e mamadeiras à noite. Os dias passaram, o felino crescia e a caixa de areia diminuía. O mais difícil era andar olhando o chão e não pisar nele. Um mês de cuidados intensivos e, da indiferença, passei a admirar seus movimentos quando tentando correr, caía como se estivesse bêbado. Pulava e corria sem parar até que, de repente, tombava em qualquer lugar, já dormindo. Ele era insistente: caía, levantava, forçando e fortalecendo as patinhas. Era isso: sem escolha. No começo, dormia muito, para minha alegria, mas poucos dias depois o sono diminuiu enquanto o corpinho aumentava. Eu resistia, porém, a cada dia, ficava mais tempo olhando o peludo e, pior, comecei a falar com ele. - Tenho que arranjar um nome para você, falei olhando para ele. Pedro? Não. Paulo? Não. Manoel… Chiquinho… Bobagem. Melhor não pensar. Nem sei o que vou fazer com você… Ele passou a miar na porta do meu quarto cada dia mais cedo. E, quanto mais cedo miava, mais brava eu levantava e, chutando as cobertas com os pés, mais longe eu as jogava. Mesmo assim, quando abria a porta, não resistindo, sorria e conversava com aquela bola de fogo. - Você está me olhando por quê? Gostando de me acordar cedo, né? Não tem o que fazer? Bastava me ver, e já vinha se encostando em mim, o fingidinho. - O que é isto aqui, hein? Não aprendeu a ir na caixinha? No canto da área de serviço, ele tinha deixado um presentinho bem cheiroso. - Isto aqui é para mim, seu pestinha? Vem cá. Vem. Ah, foi se esconder, né? Ficou com medo ou tá com vergonha? Vem ver o que você fez. Tão pequeno e já sabe fazer malcriação? Na verdade, o presentinho não era tão malcheiroso, nem tão grande que um pouco de álcool e algumas folhas de papel higiênico não resolvessem. Um mês depois, com o pestinha só comendo e crescendo, resolvi sair para comprar desinfetante, uma caixa de areia maior e comida, para ele e, talvez, para mim. Entrei numa agropecuária pedindo o que queria, estava com pressa. A vendedora, apertando os olhos e abrindo um pequeno sorriso, recuou para trás do balcão e perguntou: - Gato ou cachorro? - Gato, respondi, apressada. Que dúvida, para quê saber? pensei. - E como ele é? - Bem pequeno, ainda filhote. Ganhei há um mês. É macho, amarelo e branco. E mostrei uma foto de quando me empurraram aquele bichano peludo. - Ai, que lindinho, que fofo, que delicinha, que ... Olhei para ela, desconfiada daquele entusiasmo. Era emoção verdadeira ou exagero para vender mais? O que eu mais queria, naquele momento, era a minha casa limpa e cheirosa de volta. Por isso, em vez de esperar, fui atrás dela pelo corredor, procurando o desinfetante que tinha pesquisado na internet. Ela não parava de tagarelar, distribuindo adjetivos a um simples gatinho. Por favor, é só um gato, não é um ET. Finalmente, pegou o desinfetante e, junto, um brinquedinho — eu era ingênua mesmo — dizendo-me que felinos gostam disto. Gostar? Meu senhor, em que mundo estamos? Um gato não tem capacidade de gostar. E lá foi o brinquedo para dentro da cesta, junto com o desinfetante e minha cara zangada. Ela, talvez sentindo minha resistência, calou-se e mudou de tática: conduziu-me por outros corredores, cheios de coisas coloridas e inúteis. Fui seguindo e me arrependendo. Volta e meia, ela parava diante de uma prateleira, fingia organizar, pegava algo e me explicava para que servia. E, quanto mais ela falava, mais eu pensava: um gato, é apenas um gato. Como estará a minha casa com aquele intruso solto? O que estará fazendo? Se machucando? Minha urgência de voltar para casa aumentava na proporção da tagarelice dela. - Moça, falei alto, dirigindo-me ao caixa, só quero o desinfetante, um saco de areia e a caixa. Por favor, estou com pressa. Pode fazer a conta? Foi quando vi uma caminha para gato. - Vou levar esta caminha também. Ela combina com meu sofá. Era mesmo esse o motivo? Tirei da prateleira e a balconista, ao ouvir o barulho, olhou-me com um sorriso, de ironia ou satisfação, não sei. Entusiasmada, recomeçou: - Quando o gatinho crescer, nós temos isso, isto, aquilo. Eu já estava pronta para sair sem levar nada quando ela, percebendo minha irritação, apresentou a conta. Paguei sem dizer nada e fui para o carro. Resolvi voltar para casa e me acalmar, deixando o resto para depois. Desci do carro carregando a caixa, a cama, o desinfetante e o saco de areia. - Onde está a chave da casa? Larguei tudo no chão, em frente a porta: a cama, a caixa, o desinfetante e o saco de areia, e voltei para o carro. A chave havia caído entre os bancos, fazendo-me contorcer para pegá-la. Ao empurrar a porta da sala, uma surpresa… - Ai, que droga! gritei alto. - Que nojo. - Gato? Onde você está? Tive que dar um pulo para entrar. Ao empurrar a porta, empurrei também um monte grande e fedorento, que se espalhou no chão num desenho marrom, aberto como um leque. Com os dedos no nariz, respirei fundo. Minha vontade era voltar à loja levando tudo que havia comprado, inclusive o gato, por quem ela tanto se derreteu, mas eu não tinha mais fôlego. Fechei os olhos, adiei o problema marrom e fui sentar no sofá, esquecendo as compras na entrada. Se antes eu estava irritada, agora eu estava furiosa e… inerte. Eu sabia que qualquer ação, naquele momento, poderia ser um desastre para aquela coisinha peluda, que veio rebolando quando me viu entrar. Parou com as patinhas da frente sobre meus pés, a cabeça levemente inclinada, olhando-me de um jeito que me fez dizer, com meio sorriso: - Você sabe o que fez, né? Seu praguinha. Agora vai lá limpar, vai. Quantas vezes eu também deixei coisas atrás da porta? Pensei em Deus. E sorri para aquela pestinha que, me olhando, abanou o rabinho. Joguei o brinquedo que estava no meu bolso e me deixei envolver pelo que via. Primeiro, ele pulou assustado quando o brinquedo caiu perto. Depois, aos poucos, criou coragem e foi enfrentar a “terrível fera feroz”. Tentou morder, pulou em cima, mas, com a pata, empurrou o brinquedo para baixo do sofá. E que esforço para tirá-lo de lá. Levantei-me de um salto e fui buscar o que ficara na entrada, evitando olhar o que tinha atrás da porta, que continuava aberta. Coloquei a caminha ao lado do sofá e, imediatamente, o felino se deitou nela, como se eu o tivesse ensinado, mas, por castigo, não lhe dei atenção. Depois fui limpar atrás da porta, testando o desinfetante. Pronto. Entrada limpa, desinfetante inaugurado, brinquedo e caminha em uso. Olhei para a caminha e para o sofá. Combinavam? Não muito, mas compensava ver o bichano, dentro dela, agarrado ao brinquedo. Não queria mais saber de bichanos e suas necessidades e o melhor, agora, era eu pegar um livro e ler. Abri a janela e sentei-me no sofá. Uma leve brisa balançou a cortina e, depois, tocou meu rosto. À minha frente, o felino, pequeno e cansado, dormia indiferente a tudo o que eu tinha sentido ao longo do dia. Se as emoções são minhas, eu que as trate. Ele cuidará das dele: comer, crescer, se defender e dormir. Bom para ele, que tem poucas. As minhas são mais complexas e hoje foram intensas, algumas desagradáveis. Abri o livro na página marcada. Duas ou três páginas bastaram para me dar sono, e deixei os olhos fecharem, a cabeça cair para trás. Sem demora, senti uma dor no pé subindo rápido pela perna. Como não rir? Ri do esforço desengonçado dele e do meu susto. O que aquele ser insignificante pensava que era, me escalando? E o que esperava encontrar aqui em cima? Estava apenas aprendendo a subir? Novamente pensei em Deus. O que aprendi e ainda tenho que aprender ao escalar os ensinamentos dEle? - Sai daqui, gato - gritei. Olha o que você fez. Puxou o fio da minha blusa nova. Oh, seu peste amarelo. Levantei num pulo e, com firmeza, o coloquei na caminha. - Vai ficar aí, sua praguinha. Não bastou o presente que deixaste atrás da porta? Ele se enroscou como pôde sobre o brinquedo e ali ficou. E eu sorri. Fui até o quarto e troquei a blusa, perguntando-me até quando eu teria paciência. Não entendia como minhas amigas, que têm gatos, acham tudo engraçado. Não sei. Fechei a porta do quarto, deitei-me sobre a colcha e recomecei a ler, sem saber como havia levado o livro até ali. Dormi talvez uma hora e meia. Acordei assustada pensando no que aquele “ETzinho” teria feito na sala. Demorei alguns minutos sem saber se queria enfrentar a realidade, mas precisava. Espiei por entre a porta da sala. Ele continuava dormindo, na mesma posição de antes. Os dias se passaram: o bichano cresceu, a caminha encolheu. Chegou a hora de voltar à agropecuária para comprar mais de tudo. Fui de má vontade, sabendo que encontraria aquela moça elétrica, cheia de adjetivos “mimizentos”, e que, por gentileza, eu teria que sorrir como quem gosta. Entrei na loja, e ela veio sorrindo como se eu fosse uma velha amiga. - Como está o gatinho? - Bem, respondi, já irritada. E perguntou como eu estava? Claro que não. - Deve ter crescido, ficado mais espertinho… Eles são tão fofos! - Está, respondi seca. A outra opção seria ele estar morto, ou algo pior. - Tem foto dele? Eu tinha e por azar, e por não me conter, mostrei, achando que a conversa acabaria ali. Mas recomeçou: - Que lindinho, que espertinho… São uns fofos, né? Eu amo os meus. Os meus? Tive vontade de perguntar se ela estava louca por ter mais de um, mas me controlei e pedi o desinfetante. Desta vez, eu não iria andar pelos corredores, por isso encostei-me no balcão para pagar. Ela trouxe o que pedi e, de cabeça baixa, me apresentou a nota sem dizer nada. Nisso, entrou uma mulher com um gato enorme, peludo como uma ovelha sem tosa. Mal se achavam os olhos; o bicho tomava todo o braço que o sustentava. A balconista me deixou de lado e, saindo de trás do balcão, foi atender a nova cliente, levando o “monstro” pelos corredores. Fiquei ali, entre ir embora ou ficar para saber o motivo de tanta alegria. Não demorou, voltaram. A balconista com o gato, imóvel por preguiça, e a mulher com uma cesta cheia. Resolvi, por vingança, ficar ali e deixar que minha presença as incomodasse. Incomodou? Claro que não. Pelo contrário, conversavam, riam e me olhavam. Eu apenas sorria. Enquanto colocavam tudo sobre o balcão, comecei a imaginar levar algumas coisas também: eram tão interessantes... Em que dilema eu estava. A dona do gatão falava sem parar. Dizia que, quando estava triste, ele ficava ao lado dela; quando voltava para casa, ele a seguia por toda parte. Era sua companhia. Suspirei. A balconista, enfim, voltou-se para mim: - Só o desinfetante? Hesitei. Com vergonha e timidez, falei: - É a primeira vez que tenho um gato… Bastou. A outra, sorrindo, colocou a ovelha nos meus braços e levou-me pelos corredores mostrando o que eu “precisava” comprar. Falou de vacinas, cuidados, da veterinária, do gato, claro, e foi enchendo outra cestinha: brinquedos, outra cama, uma coberta, ração especial em pasta. Eu resistia e, ao mesmo tempo, cedia. De longe, a balconista observava, satisfeita. . Trinta dias depois, entrei na agropecuária com meu bichano no colo.