Poema

Mulher de Sal


Nem sei por que eu escrevo;
Escrevo porque já senti
Um fogo imenso, infinito,
Rodando dentro de mim.

Escrevo porque não posso
Falar do que vai em mim;
Só palavras escritas podem
Levar o meu querubim.

E sigo neste deleite,
Sabendo quem me traduz:
O som de uma palavra
Na boca de quem a conduz.

Não posso fugir, confesso,
Dos sons desta balada;
Prefiro morrer à míngua
Que ser dela enviuvada. 

Passei um tempo infeliz,
Longe da valsa dolente;
Meus ais, todos ausentes,
Com olhos de meretriz.

Disseram-me: “vai por aqui”
Ou, talvez, “vá por ali”
O mundo a nada conduz;
Eu pobre, morria em cruz.

Nada de belo olhei,
Nada de sonho sonhei,
Nada aqui eu conquistei,
Nada ali eu revelei.

Tristes dias de clausura,
De boca amarga fiquei;
Minhas palavras trancadas
Nos sonhos que não sonhei.

Agora, voem meus sonhos,
Estendam as asas, meus ais!
Buliçai, minha alegria,
E da pena vos derramai.

Nunca mais volto a cabeça,
Nunca mais mulher de sal,
Hoje sou o sol e a lua
Hoje sou, na pedra, a cal.

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