Poema

Quisera

Quem eleito pelos anjos foi
Deste sorriso, o dono
Desta mulher, escravo?

Alguém muito especial por certo
Que das sombras se fazia
Que do infinito amor se revelava

Quisera qu’eu também sorrisse
Para um amor que de longe vinha
Para um sonho que se realizasse.

02.11.2018

Prosa

A Máquina de Fazer Pensamento

Era 6h46min de uma manhã gelada de inverno.

Acordei, talvez, uma hora atrás e percebi que minha máquina de fazer pensamento estava e continuava trabalhando a todo vapor. Uma revolução ímpar de pensamentos, imagens e emoções passavam por mim, cada qual com mais pressa e desejo de ser meu eleito. Porém um, de menor possibilidade, frágil, de luz viva, porém discreta, se escondia e, mesmo escondido, era ainda mais empurrado para o lado enquanto diziam que ele, que era feito sem nenhum argumento, débil, muito pouco robusto, não tinha nenhum valor.

Permaneci assim parada, estarrecida, a querer entender tal briga de gigantes diante de mim.

Como pacificadora tentei, de todas as formas, harmonizar o ambiente, entretanto pouco resultado obtive. Cada qual trazia em si armas e argumentos dos mais variados, revestidos de cores e imagens para impressionar e fazer-me decidir.

Foi difícil este momento porque, do terror ao sublime amor, todas as imagens, todas as emoções e todos os pensamentos percorreram o estreito caminho da decisão.

Os mais ousados e assustados vinham com imagens tristes, lembranças de pânico, sugerindo tragédias impossíveis de vencer. Os idealistas, mais seguros de si, vinham com argumentos plausíveis, amorosos, edificantes.

Estive neste desfile de pensamentos, emoções e sentimentos, impossibilitada de uma tomada de decisão assertiva.

Deixei digladiarem-se, certa de que o mais forte venceria. Porém, qual foi minha surpresa quando percebi que não era o mais forte que me levava para a escolha, mas aquela luz timidamente brilhante, aquela luz que a um canto ficara.

E de repente tudo escureceu. Neste instante percebi, perplexa, que quem iluminava a briga dos gigantes era tão somente aquela luzinha que ficara esquecida a um canto; aquela luzinha tênue, frágil, tímida.

Não tive mais dúvida. Tudo se esclarecera naquele breu e então, eu gritei:

– Basta, basta, basta! A escolha já foi feita!

Todos pararam imóveis. A máquina de fazer pensamento estancou no silêncio que em mim se fez audível, e eu, serena, sentenciei:

– Não tenho mais dúvida: o vencedor é o Sonho!

Outros Autores

Sabiá com Trevas – XIV

No chão, entre raízes de inseto, esma e cisca o sabiá.
É um sabiá de terreiro.
Até junto de casa, nos podres dos baldrames, vem apanhar grilos gordos.
No remexer do cisco adquire experiência de restolho.
Tem uma dimensão além de pássaro, ele!
Talvez um desvio de poeta na voz.
Influi na doçura de seu canto o gosto que pratica de ser uma pequena coisa infinita de chão.
Nas fendas do insignificante ele procura grãos de sol.
A essa vida em larvas que lateja debaixo das árvores o sabiá se entrega.
Aqui desabrocham corolas de jias!
Aqui apodrecem os vôos.
Sua pequena voz se umedece de ínfimos adornos.
Seu canto é o próprio sol tocado na flauta!
Serve de encosto pros corgos.
Do barranco uma rã lhe entarda os olhos.
Esse ente constrói o álacre.
É intenso e gárrulo: como quem visse a aba verde das horas.
É ínvio e ardente o que o sabiá não diz.
E tem espessura de amor.

Manoel de Barros
Livro: ARRANJOS PARA ASSOBIO
Foto: Rita Marília – #ritamariliats

Poema

Anjo Preto

Na noite escura
Escura como breu
Eu
Escura
Em pura loucura.
 
Mas o anjo
Ah o anjo!
Branco, alvo
Longe.
 
No dia escuro
Eu, branca
O anjo, preto.
 
No pôr do sol
O sol
O sol e eu.

………………….
Foto: Rita Marília T. Signorini
#ritamariliats

Prosa

A Morte

Veio visitar-me a morte.
Entrou sem barulho e, sentada no sofá, aguardou a noite que não tardava.
Eu, sem saber, olhava o mundo pelo computador, via Facebook, olhando e criticando a vida de tantos e de todos.
Não sentindo tristeza pela desgraça, nem alegria pela felicidade alheia e, não sendo instruída em nada, desliguei o computador para ir dormir.
Percebi então, no sofá, a presença cândida de alguém que viera me buscar para um longo e longínquo passeio.
– Não haverá trevas nem ranger de dentes, disse-me por telepatia.
– Não haverá barco em lago sinistro, bruma ou breu da noite, continuou.
Neste instante refleti. O que ainda não estava pronto?
Comecei uma lista de coisas para a ocasião:
– dividas além das que estão no cartão de crédito? – não tenho.
– grandes pendências judiciais? – também não tenho.
– herdeiros além dos legalmente constituídos? – não possuo.
– desejos deixados para trás? – nenhum.
– esperanças do passado que ficarão no futuro inexistente? – nada.
– ódio? – não.
– desentendimentos? – Sim, mas nada que não caiba dentro do caixão.
– bens? – Sim, para felicidade dos herdeiros.
– inimigos que festejarão minha morte? – não tenho: logo não haverá fogos de artifício.
– amigos que me carregarão até o carro fúnebre? – Tenho o suficiente: 4. Poucos, mas de imenso amor e a eles meu coração e gratidão.
Minha mala está pronta.
Deixo amigos queridos, devolvo a casa que tenho chamado de parque de diversão, com meus brinquedinhos, e deixo uma história que voará pelo éter. Uma história “meio mais ou menos”, sem tragédias que possam provocar comoção nacional, sem filosofia para um livro, sem importância para significar uma perda.
Saio da história como entrei: anônima.
O que fiz durante a vida? Trazer até a velhice os sentimentos deslumbrados da infância.
Um depois? – logo saberei.
Se nada houver, nunca saberei.
Boa noite.

O texto acima foi publicado na pagina 23 da Revista literária A ILHA de junho/2019.  Muito honrada fiquei.
Ler Revista aqui

Prosa

Notícia Urgente

PALAVRAS CAVAM TÚNEL PARA FUGIREM


Ontem, a polícia descobriu um túnel, cavado e pronto, que serviria para um grupo de palavras fugirem do dicionário.
O delegado, em entrevista para o mundo e com exclusividade para nós, declarou que algumas palavras, revoltadas pelos maus tratos e abandono que vêm sofrendo, rebelaram-se e, amotinados, buscavam fugir no dia de finados.
O delegado nada mais soube ou quis dizer.
A investigação prossegue, mas o que nossos repórteres já descobriram é que a mais perigosa facção criminosa, liderada pela palavra Ética, está totalmente envolvida.
Outros nomes que estão sob suspeita são: Moral, Respeito, Civilidade e seus seguidores.
Nossos repórteres não tiveram nenhuma informação sobre a morte da Honestidade, ocorrida dentro das páginas, que está sendo mantida sob absoluto sigilo. Cogita-se que ela tenha sido espancada e torturada até a morte.
O delegado não quis falar sobre o caso para não atrapalhar o andamento das investigações, que prosseguirão assim que um novo Chefe do Departamento for nomeado, empossado e assumir o caso.
Disse-nos, o delegado, que a posse do novo Chefe deve ocorrer no prazo máximo de trinta anos (30 anos), e que este prazo não interferirá no andamento das investigações, já que tudo está sendo registrado e documentado.
Fontes altamente sigilosas informaram a nossos repórteres que mais fugas e mortes estão sendo arquitetadas dentro e fora do dicionário.
Também ficaram sabendo que outro grupo, grande e bem armado, chefiado pela Ganância, aproveitando-se da agitação nas páginas do dicionário, está preparando uma grande chacina e o alvo principal é o bando encabeçado pela Tolerância com seus comparsas que, aliás, parece já estar em negociatas com a quadrilha do Intolerante, para se pouparem da morte anunciada.
Ninguém mais quis dar entrevista, mas nossos repórteres, bravos homens da notícia, continuarão investigando por conta própria e noticiando a qualquer hora, em edição extraordinária.
Ficamos no aguardo de novas informações.

*Foto flagrante: Fotógrafa Rita Marilia #ritamariliats

Com muito orgulho fiquei de também ser publicado na Revista Literária A ILHA 148 de Março/2019.
Ler a Revista aqui

Poema

Amor por Rodrigo

Hoje descobri que te amo
Não sabia antes, hoje sei.
Descobri o véu sobre o meu amor por ti
E todo dia re-velarei o meu amor por ti.

Amar-te no infinito silêncio dos segundos
Quando contigo no abismo das horas impróprias, vertiginosas
Tocar meus dedos toscos em tua delicada alma
Encontrar minh’alma em outro corpo: meu corpo sem alma
Vida!

Ah!
Estar ao teu alcance, estares ao meu lado
Enrodilhar-nos em emoções vagas, fluídicas, apoteóticas
Cavalgar pelos amores incompreendidos
Delirar de mãos dadas com o teu sentir, com o teu emocionar.

Delirar!
Delirar!
Delirar!
Sim, o paraíso está em sons poéticos de beleza
No silêncio da contemplação
Delírios de sentir.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

30.09.2018

A Rodrigo De Haro, amigo que, em certo dia, deu-me momentos de pura contemplação, enchendo minha alma de luz poética, ofereço estes dizeres que verteram de emoções nascidas daquele nosso encontro.

Prosa

A Tempestade

Não era nada além de um anúncio de temporal.

As árvores balançaram suas cabeleiras pondo muitos ninhos ao chão – a natureza nem sempre é pacífica.
Depois veio um silêncio ensurdecedor e, no horizonte, o manto cinza começava a se estender em direção ao oceano. E nenhum pássaro voou.
Tudo era calmaria, tudo era assustador.
Todos olhavam o céu se matizando do cinza ao chumbo, do chumbo ao breu.

… e veio vindo, silencioso, rápido, deslizante como cobra ao bote: éramos as vítimas.

Assustados, paramos e aguardamos o fim com o coração batendo no mesmo compasso dos relâmpagos que, agora, clareavam o que já não se via.
Ficamos petrificados e impotentes como folha ao vento.

… e o silêncio virou sinfonia de tambores e da sinfonia o caos.
… e agora estava sobre nossas cabeças, e gritava, e gargalhava, e chicoteava, e nos sacudia, e nos horrorizava.
… e perdendo a visão, entramos a entender o inferno, a nos questionar, a nos arrepender, a nos purificar, a nos abençoar.
… e aquele manto nos agasalhou.
… e nada mais soubemos da vida.