Reflexões

Ninguém em Nós

É num lugar específico de nossa alma, onde mora o Ninguém, que somos o que somos e nos revelamos inteiros ao mundo quando este tal de “Ninguém” nos acompanha do lado de fora de nossa alma. 30.07.2019

Fotógrafa Rita Marília
Prosa · Reflexões

Despertando e Experienciando

Na pintura de Portinari, “Roda Infantil” – 1932, uma roda com várias crianças girando. Girando e cantando. Cantando e girando ao som e ritmo de um hino à fraternidade. 
Uma nova criança chega, observa, quer entrar. 
Ela depende de que duas daquelas crianças, abdicando de seus fortes laços já consolidados, abram a roda. A criança que está de braços cruzados –  fechada para o novo –  precisa abrir-se para poder entrar e vivenciar a nova experiência. 
Algumas crianças da roda, as mais próximas da criança a ser integrada, se agitam em maior alegria. 
A roda, que antes possuía um ritmo harmonioso, trepida, diminui o ritmo, perde um pouco a dinâmica. Algumas, dentre todas, tentam manter o compasso da roda, agora mais lento, sem desestabilizar. 
Num impulso, a nova criança estende os braços. Suas mãos, antes presa ao corpo, ao medo, ao egoísmo ou à individualidade, erguem-se alcançando a meditação do vazio para só depois prender-se ao todo.
No princípio ela sente somente o calor das mãos que lhe acolhem, mas suas pernas não encontram o compasso certo: tropeça algumas vezes , sente-se derrotada.
Mesmo assustada, busca, tenta, se esforça para entrar em harmonia com as demais. 
Não é fácil, pensa consigo, buscando um motivo para desistir e voltar ao ostracismo. Mas o equilíbrio de todas, a alegria com que rodam e cantam,  a cativa novamente: ela também quer ser feliz.
Apoiada nas mãos que a seguram com carinho, firmeza, e determinação, reequilibra-se novamente.
Sem consciência do que sente exatamente, é impulsionada a continuar. 
Agora, sempre de mãos dadas, e mais confiante, sente a roda, aos poucos, voltar a girar como anteriormente, ao som e ritmo de uma canção de amor universal onde cada criança faz sua parte para que o Todo gire em harmonia e no mesmo compasso.
… e de repente … a primeira volta completa se deu sem que ela tivesse grandes tropeços.
Seu coração cheio de júbilo, passa a acreditar que o esforço compensa e que seus resultados correspondem aos exemplos dados e por ela assimilados.
Sentindo-se mais segura nos passos, consegue, então, olhar para fora de si,  perceber as demais crianças e entender que para entrar e girar, vivenciar a alegria da roda é preciso abandonar a individualidade e tornar-se parte: parte das leis que fazem a roda girar em harmonia e sem se romper.
Pertencendo à roda e girando, sente e identifica, sem bem saber como, que há forças a regerem o movimento. Ela não conhece as forças de ação e reação, centrífuga e centrípeta, entre outras, e que estas forças, para a roda girar em harmonia, não podem agir independentes.
Mas já sente que seus passos não podem ser nem muito rápido, nem muito lentos, sem pressa e sem pausa: ela não pode imprimir seu próprio ritmo.
Assim, todas unidas com firmeza por mãos generosas, dando e recebendo, a cantoria recomeça com a circunferência um pouco maior, um pouco mais alegre, e sempre em volta do ponto central: o UNO.
A criança passou a confiar em seu aprendizado, em seu Eu interior e em quem está do seu lado na roda.
Aprendeu o ritmo da roda, sentiu e desejou ser apenas parte. 
Então é chegada a hora de um novo aprendizado: largar a mão que, até aquele momento, lhe acolheu, segurou e conduziu PARA TORNAR-SE a mão que  acolhe, segura e conduz outra mão que fora da roda espera.