Minha vida é caminho
Só caminho
Se posso, escolho
Chão batido
Árvores
Canto de passarinho
Se não
Calço as pantufas
Desenho um assobio
E vou como posso

Minha vida é caminho
Só caminho
Se posso, escolho
Chão batido
Árvores
Canto de passarinho
Se não
Calço as pantufas
Desenho um assobio
E vou como posso


No seco do meu coração
Plantei.
Nasceu cacto
Regador sem furo
Reguei
Sol forte
Protegi
A mim e a meu cacto
Desmaiei.
Alguém
Levou meu cacto
Fiquei no seco.
No seco fiquei.
Quem me olha de soslaio?
Entre
a casa é sua
Não repare no abandono
Sem quadros nas paredes
Sem flores nos vasos
Sem velas acesas
As paredes
guardam contornos
e teias
Vem
empurre as cortinas
Abra as janelas
Deixe o sol entrar
Aqueça este ambiente fúnebre
Dançar?
Não posso
O silêncio
me paralisou
ocupou todos os espaços
Já vai…
Fique
Preciso de luz
Fica
Fica
Fica...

Rua! Estou na rua. Estou como a folha de uma árvore. Sou da rua.
Meu espírito está sufocado; minha alma clama por voar.
Não tenho escrito.
Estou superlotada de silêncio. Preciso escrever.
Já perdi todas as frases.
Canso-me das pessoas; preciso de solidão.
Perdi-me. Estou no meio de um redemoinho.
Não sou ninguém.
Onde estou? O que sinto? Quem eu quero ser ou continuar a ser?
Viver ou morrer?
Caio no poço.
Emergirei. Salvar-me-ei.
Voarei além de mim, até a ponta de minhas asas.
Preciso ficar só, muito tempo só.
Minhas palavras são vazias, minhas frases, sem sentido, e meu texto, desconexo.
Mas preciso expulsar este nada.
Preciso escrever, escrever, escrever, como preciso respirar.
O tempo tem se formado sem que eu transborde.
Nada mais tenho a dizer.
Vou embora.
Talvez, em outro lugar, eu esteja
Por trás dos montes espia
Outras almas a brincar
Por trás dos montes expia
Vendo almas a cantar
Atrás dos montes se esconde
Esta alma a esperar.
