Outros Autores · Poema

Fotografia

O fotógrafo ensina a gente a ver
botando nossos olhos na janela
que leva a tiracolo – e nos revela
o que a rotina está sempre a esconder

o que a retina na pressa atropela
o que em paisagem passa a se perder
ou o que os olhos estão a verter
feito fonte que em fogo se congela

Salta o detalhe enfim pinçado e exposto
no ambiente vestido de luz onde
o ar respira e as coisas criam rosto

E em cada foto a nos olhar se expande
a fé de um amoroso deus maroto
da arte para um mundo radiante

Poeta:Domingues Pellegrini

Fotografia: Rita Marília

Poema

Anjo Preto

Na noite escura
Escura como breu
Eu
Escura
Em pura loucura.
 
Mas o anjo
Ah o anjo!
Branco, alvo
Longe.
 
No dia escuro
Eu, branca
O anjo, preto.
 
No pôr do sol
O sol
O sol e eu.

………………….
Foto: Rita Marília T. Signorini
#ritamariliats

Poema

Mais um Poema Triste

Quero fazer um poema
Que seja só eu
Que tendo início
No fim, o Morfeu.
 
Um poema tristonho
Comprometido com a dor
Um poema caduco
Como num galho, a flor.
 
Quero fazer um poema
Que diga todos meus “Ais”
Que diga todos meus “Oh!s”
Escondendo meus ideais.

Um poema de vida inteira
Um poema assim a escorrer
Pingo a pingo
De uma geleira!

 

 

 

 

Com muito orgulho a poesia acima foi publicada à pagina 57 da revista eletrônica A ILHA – Ler aqui

Poema

Amor por Rodrigo

Hoje descobri que te amo
Não sabia antes, hoje sei.
Descobri o véu sobre o meu amor por ti
E todo dia re-velarei o meu amor por ti.

Amar-te no infinito silêncio dos segundos
Quando contigo no abismo das horas impróprias, vertiginosas
Tocar meus dedos toscos em tua delicada alma
Encontrar minh’alma em outro corpo: meu corpo sem alma
Vida!

Ah!
Estar ao teu alcance, estares ao meu lado
Enrodilhar-nos em emoções vagas, fluídicas, apoteóticas
Cavalgar pelos amores incompreendidos
Delirar de mãos dadas com o teu sentir, com o teu emocionar.

Delirar!
Delirar!
Delirar!
Sim, o paraíso está em sons poéticos de beleza
No silêncio da contemplação
Delírios de sentir.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

30.09.2018

A Rodrigo De Haro, amigo que, em certo dia, deu-me momentos de pura contemplação, enchendo minha alma de luz poética, ofereço estes dizeres que verteram de emoções nascidas daquele nosso encontro.

Poema

Qualquer Coisa

Qualquer coisa é um nada
Que devagar
Lentamente
De nós vai se apoderando
Operando
Abrindo, fechando
Se fazendo
Se tornando ser
Crescente
A nos envolver
Docemente
Semente
Eternamente.

Muito honrada fiquei ao ser escolhida para compor a Revista Eletrônica Suplemento Literário A ILHA, numero 146, página 31.
Ler a Revista aqui

Poema

Haikai ao Luar

Na lua cheia
Casinha de pescador
Ondas vem e vão

Assoma à porta
Homem rude a olhar
Barco vai ao mar

Long’em alto mar
Joga rede a sonhar
Tempo de passar

Clara ao luar
Casinha de pescador
Pequena n’olhar

Rez’a São Pedro
Puxando rede do mar
Lágrimas n’olhar

Um, dois, três e mil
Peixes na rede estão
Pratas ao luar

Puxa âncora
Barco volta do mar
Beijo de mulher

Lua já sumiu
Casinha de pescador
Brilha o amor.

Poema

Traição Perfeita

Desculpa, hoje eu te traí.

Te traí com aquele homem elegante
Te traí com aquele sonho alucinante
Te traí com o teu eco
Com o teu espectro
Com o teu reflexo.

Desculpa, hoje eu te traí.

E te traí totalmente
Completamente
E te traí dançando com o teu fantasma
E te traí beijando a tua sombra
E te traí amando a tua lembrança
E te traí muito
E me deleitei
E ri muito
Porque finalmente
Enlouquecidamente
Hoje eu te traí.

Poema

O Canto do Galo

No poleiro canta o galo
Para a moça da janela
“Ouça bem moça malvada
Não vou hoje p’ra panela”.

E cantando todo dia
Vai o galo bem feliz
Vendo que da morte fria
Vai fugindo por um triz

Se levanta o sol cedo
E o galo é aprendiz
“Vou viver eternamente”
Canta assim o infeliz.

Muito honrada fiquei ao ser convidada a participar, com este poema, da Revista eletrônica “Escritores do Brasil” número 5, à pagina 73 editada em 30.07.2019
Segue link: Leia aqui
Juntamente com meu texto: Carta Resposta – Ler aqui

Poema

A Tecelã Tradutora

Traduza menina, traduza
Teça igual velha rendeira
Seus bilros são o teclado
Sua renda é brasileira

Traduza menina, traduza
Teça igual velhas rendeiras
Que é pelo seu traduzir
Que se abrem as fronteiras

Traduza menina, traduza
Teça igual velhas rendeiras
Vai cantando na janela
E trançando as bandeiras

Traduza menina, traduza
Teça igual velha rendeira
Seu coração é ilhoa que
Tece com linha estrangeira

Traduza menina, traduza
Reze igual velhas rendeiras
Tendo vento a bombordo
Defenda-se das feiticeiras

Traduza menina, traduza
Teça igual velhas rendeiras…

Outros Autores

Conversa Com a Pedra

 

Bato à porta da pedra.
– Sou eu, me deixa entrar.
Quero penetrar no teu interior
olhar em volta,
te aspirar como o ar.

– Vai embora – diz a pedra. –
Sou hermeticamente fechada.
Mesmo partidas em pedaços
seremos hermeticamente fechadas.
Mesmo reduzidas a pó
não deixaremos ninguém entrar.

Bato à porta da pedra.
– Sou eu, me deixa entrar.
Venho por curiosidade pura.
A vida é minha ocasião única.
Pretendo percorrer teu palácio
e depois visitar ainda a folha e a gota d’água.
Pouco tempo tenho para isso tudo.
Minha mortalidade devia te comover.

– Sou de pedra – diz a pedra –
e forçosamente devo manter a seriedade
Vai embora.
Não tenho os músculos de riso.

Bato à porta da pedra.
– Sou eu, me deixa entrar.
Soube que há em ti grandes salas vazias,
nunca vistas, inutilmente belas,
surdas, sem ecos de quaisquer passos.
Admite que mesmo tu sabes pouco disso.

– Salas grandes e vazias – diz a pedra –
mas nelas não há lugar.
Belas, talvez, mas para além do gosto
dos teus pobres sentidos.
Podes me reconhecer, nunca me conhecer.
Com toda a minha superfície me volto para ti
mas com todo o meu interior permaneço de costas.

Bato à porta da pedra.
– Sou eu, me deixa entrar.
Não busco em ti refúgio eterno.
Não sou infeliz.
Não sou uma sem-teto.
O meu mundo merece retorno.
Entro e saio de mãos vazias.
E para provar que de fato estive presente,
não apresentarei senão palavras,
a que ninguém dará credito.

– Não vais entrar – diz a pedra. –
Te falta o sentido da participação.
Nenhum sentido te substitui o sentido da participação.
Mesmo a vista aguçada até a onividência
de nada te adianta sem o sentido da participação.
Não vais entrar, mal tens ideia desse sentido,
mal tens o seu germe, a sua concepção.

Bato à porta da pedra.
– Sou eu, me deixa entrar.
Não posso esperar dois mil séculos
para estar sob teu teto.

– Se não me acreditas – diz a pedra –
fala com a folha, ela dirá o mesmo que eu.
Com a gota d’água, ela dirá o mesmo que a folha.
Por fim pergunta ao cabelo da tua própria cabeça.
O riso se expande em mim, o riso, um riso enorme,
eu que não sei rir.

Bato à porta da pedra.
– Sou eu, me deixa entrar.

– Não tenho porta – diz a pedra.

 

*** Wislawa Szymborska nasceu em 1923 em Bnin, na Polônia. Em 1931 mudou-se com a família para Cracóvia de onde não mais saiu. Em 1996 granhou o Prêmio Nobel de Literatura.
Faleceu em 2012.

*** retirado do livro “Wislawa Szymborska [poemas] tradução de Regina Przybycien
– editora Companhia das Letras. 2011.