Prosa

Dois Estranhos

Encontrei um livro na estante da minha casa. 

Ao olhar sua lombada percebi que, depois de colocá-lo ali, nunca mais o havia tocado: estava intacto, imóvel, quase petrificado pelo tempo.
Olhei-o com ternura e vi o tempo que por nós havia passado: eu em pleno rebuliço imposto pela vida, ele, em sepulcral silêncio.
Olhei-o no rosto: imutável como o havia conhecido. Provável, ele não poderia dizer o mesmo de mim… muito mais velha.
Nunca havíamos nos aberto um ao outro: eu nunca lera suas entrelinhas, ele nunca lera meus olhos.
Tive medo de abri-lo. O que nele se escondia? Quais verdades, quais mentiras, quais ilusões, quais promessas? 
E ele, teria coragem de me abrir? O que encontraria? Nuvens, flores que há muito desabrocharam, temporais que se foram, esperanças que jazem no berço ainda?
Quem somos, perguntei a ele
Sem abri-lo deduzi: ele pedra, eu rio.
Caminhei lenta até o sofá, lenta e cuidadosamente como quem carrega o mundo que pode se esfacelar no chão ao primeiro fraquejar: o dele ou o meu?
Sentei-me e, com o amor de quem faz um parto, abri suas entranhas para extrair dele a luz.
Éramos, enfim, dois estranhos a se revelarem: ele em pedra, firme em suas ideias, eu em rio, mutante.
Abracei-o e, então, nos amamos em silêncio para toda a eternidade.

Fotógrafa Rita Marília

Outros Autores

Conversa Com a Pedra

 

Bato à porta da pedra.
– Sou eu, me deixa entrar.
Quero penetrar no teu interior
olhar em volta,
te aspirar como o ar.

– Vai embora – diz a pedra. –
Sou hermeticamente fechada.
Mesmo partidas em pedaços
seremos hermeticamente fechadas.
Mesmo reduzidas a pó
não deixaremos ninguém entrar.

Bato à porta da pedra.
– Sou eu, me deixa entrar.
Venho por curiosidade pura.
A vida é minha ocasião única.
Pretendo percorrer teu palácio
e depois visitar ainda a folha e a gota d’água.
Pouco tempo tenho para isso tudo.
Minha mortalidade devia te comover.

– Sou de pedra – diz a pedra –
e forçosamente devo manter a seriedade
Vai embora.
Não tenho os músculos de riso.

Bato à porta da pedra.
– Sou eu, me deixa entrar.
Soube que há em ti grandes salas vazias,
nunca vistas, inutilmente belas,
surdas, sem ecos de quaisquer passos.
Admite que mesmo tu sabes pouco disso.

– Salas grandes e vazias – diz a pedra –
mas nelas não há lugar.
Belas, talvez, mas para além do gosto
dos teus pobres sentidos.
Podes me reconhecer, nunca me conhecer.
Com toda a minha superfície me volto para ti
mas com todo o meu interior permaneço de costas.

Bato à porta da pedra.
– Sou eu, me deixa entrar.
Não busco em ti refúgio eterno.
Não sou infeliz.
Não sou uma sem-teto.
O meu mundo merece retorno.
Entro e saio de mãos vazias.
E para provar que de fato estive presente,
não apresentarei senão palavras,
a que ninguém dará credito.

– Não vais entrar – diz a pedra. –
Te falta o sentido da participação.
Nenhum sentido te substitui o sentido da participação.
Mesmo a vista aguçada até a onividência
de nada te adianta sem o sentido da participação.
Não vais entrar, mal tens ideia desse sentido,
mal tens o seu germe, a sua concepção.

Bato à porta da pedra.
– Sou eu, me deixa entrar.
Não posso esperar dois mil séculos
para estar sob teu teto.

– Se não me acreditas – diz a pedra –
fala com a folha, ela dirá o mesmo que eu.
Com a gota d’água, ela dirá o mesmo que a folha.
Por fim pergunta ao cabelo da tua própria cabeça.
O riso se expande em mim, o riso, um riso enorme,
eu que não sei rir.

Bato à porta da pedra.
– Sou eu, me deixa entrar.

– Não tenho porta – diz a pedra.

 

*** Wislawa Szymborska nasceu em 1923 em Bnin, na Polônia. Em 1931 mudou-se com a família para Cracóvia de onde não mais saiu. Em 1996 granhou o Prêmio Nobel de Literatura.
Faleceu em 2012.

*** retirado do livro “Wislawa Szymborska [poemas] tradução de Regina Przybycien
– editora Companhia das Letras. 2011.