Quando me escondo na lua de lata e o vento me empina como pandorga, minha cabeça salta de estrela em estrela para pegar uma e amarrar na cabeleira do cometa.
Minha mãe disse que salada de fruta faz bem, por isso, à tardinha, vou chupar manga embaixo do pé de banana.
Contei para o tio que pintei meu dedo de preto para assustar meu irmão, dizendo ter um dedo a menos. Então o tio disse que à noite, quando o dia fica preto, muita coisa desaparece; fui correndo me esconder embaixo da cama, achei a boneca e descobri que era ali que as coisas desaparecidas ficam.
Nós estávamos todos comendo na cozinha quando entrou um homenzinho de chapéu e tudo. Meu pai não gostou, fechou o livro e o homenzinho desapareceu. Minha mãe bocejou e minha irmã foi chorar dentro do roupeiro, para não ver o rio de sangue. Eu fiquei rindo porque minha irmã não sabe que chorar também faz rio.
Minha mãe é que sabe das coisas: quando ela quer que algo desapareça, ela fecha os olhos.
Eu tenho um saco cheio de bolinhas de gude e uma delas chama “olho de gato”. Minha prima queria, mas não quis mais, porque eu disse que o olho não enxergava nada, então ela ficou contente.
Quem é bocó corre atrás dos versos e salta por cima dos números ímpares. Quem não é, sabe contar até dez.
Minha trisavó é vizinha de um tal homem de barro chamado Manuel. Ela disse que ele disse que eu sou bocó porque minha alma não expandiu ainda.
Foi assim: Num dia qualquer, Sancho Pança chamou-me para juntos regalar o bofe com os manjares de seu bornal. Aceitei. Mal me ajeitava, surgiu diante de mim um senhor — não, um Duque — que, após uma mesura caprichada, apresentou-se: — Ilustre dama, deixai que me apresente. Sou Dom Quixote de La Mancha, cavaleiro da Triste Figura, vosso criado e, se me permitis, vosso guia nesta jornada. Encantaram-me suas mesuras. Alegraram-me os trajes. Já a fala… exigia fôlego. — Senhor — respondi —, com tantas honras me abasteço em seus dizeres, mas creio que sozinha não darei conta nem dos saberes que dizem existir no lombo de seu cavalo. Ele ergueu o queixo, seguro de si: — Senhora, a espera sem espora é justa e necessária. Aconselho-a a aceitar o convite que virá — mais ligeiro que a mula de Sancho, ainda que não tão veloz quanto meu Rocinante. E antes que eu pudesse insistir, partiu, seguido de seu fiel escudeiro. Fiquei entre o livro e o mundo, à espera do tal convite. - Podemos ler juntas? Ergui a cabeça ... como quem volta
CHÁ DAS CINCO
Três meninas faceiras Sentam-se à mesa Para o chá das cinco
Riem de tudo De Sancho De nada
Falam De si Do amor Da Triste Figura
À noitinha Retornam à casa Nutridas de pôr-do-sol
Saudades!
Imagem: composição visual criada por IA a partir de conceito autoral