Encontrei um livro na minha estante. Ao olhar sua lombada, percebi que nunca mais o havia tocado: intacto, petrificado pelo tempo. Olhei-o com ternura: o tempo passara por nós, eu em rebuliço, ele em silêncio. Contemplei seu rosto: imutável. Ele não diria o mesmo de mim. Nunca nos abrimos: eu não li suas entrelinhas, ele não leu meus olhos. Tive medo de abri-lo. O que escondia? Verdades ou ilusões? Promessas? E ele, ao me abrir, o que encontraria? Nuvens, esperanças ainda no berço? Quem somos. Sem abri-lo, deduzi: ele, pedra; eu, rio. Caminhei com tremor até o sofá. Sentei-me e, em silêncio, abracei-o. Éramos dois estranhos.
Foi assim: Num dia qualquer, Sancho Pança chamou-me para juntos regalar o bofe com os manjares de seu bornal. Aceitei. Mal me ajeitava, surgiu diante de mim um senhor — não, um Duque — que, após uma mesura caprichada, apresentou-se: — Ilustre dama, deixai que me apresente. Sou Dom Quixote de La Mancha, cavaleiro da Triste Figura, vosso criado e, se me permitis, vosso guia nesta jornada. Encantaram-me suas mesuras. Alegraram-me os trajes. Já a fala… exigia fôlego. — Senhor — respondi —, com tantas honras me abasteço em seus dizeres, mas creio que sozinha não darei conta nem dos saberes que dizem existir no lombo de seu cavalo. Ele ergueu o queixo, seguro de si: — Senhora, a espera sem espora é justa e necessária. Aconselho-a a aceitar o convite que virá — mais ligeiro que a mula de Sancho, ainda que não tão veloz quanto meu Rocinante. E antes que eu pudesse insistir, partiu, seguido de seu fiel escudeiro. Fiquei entre o livro e o mundo, à espera do tal convite. - Podemos ler juntas? Ergui a cabeça ... como quem volta
CHÁ DAS CINCO
Três meninas faceiras Sentam-se à mesa Para o chá das cinco
Riem de tudo De Sancho De nada
Falam De si Do amor Da Triste Figura
À noitinha Retornam à casa Nutridas de pôr-do-sol
Saudades!
Imagem: composição visual criada por IA a partir de conceito autoral