Eu sou bocó. E você? Já sabe contar até dez?
Quando me escondo na lua de lata e o vento me empina como pandorga, minha cabeça salta de estrela em estrela para pegar uma e amarrar na cabeleira do cometa.
Minha mãe disse que salada de fruta faz bem, por isso, à tardinha, vou chupar manga embaixo do pé de banana.
Contei para o tio que pintei meu dedo de preto para assustar meu irmão, dizendo ter um dedo a menos. Então o tio disse que, à noite, quando o dia fica preto, muita coisa desaparece; fui correndo me esconder embaixo da cama, achei minha boneca e descobri que era ali que as coisas desaparecidas ficam.
Nós estávamos todos comendo na cozinha e meu pai estava lendo em voz alta quando apareceu um homenzinho de chapéu e tudo. O pai não gostou e fechou o livro com força e a mãe bocejou.
Minha irmã foi chorar dentro do roupeiro para não ver o rio de sangue.
Eu fiquei rindo porque minha irmã não sabe que chorar também faz rio.
Minha mãe é que sabe das coisas: quando ela quer que algo desapareça, ela fecha os olhos.
Eu tenho um saco cheio de bolinhas de gude e uma delas chama “olho de gato”. Minha prima queria, mas não quis mais, porque eu disse que o olho não enxergava nada, então ela ficou contente.
Quem é bocó corre atrás dos versos e salta por cima dos números ímpares. Quem não é, sabe contar até dez.
Minha trisavó é vizinha de um tal homem de barro chamado Manuel. Ela disse que ele disse que eu sou bocó porque minha alma não expandiu ainda.
(Autora: Rita Marília)

Fotógrafa: Rita Marília ( Em dia de bocó )

