Estava em frente ao balcão da loja de ferragens esperando ser atendida quando ouvi algo caindo ao meu lado. Imediatamente virei-me, olhei para baixo e encontrei uma pequena chave que em nada representava o barulho estrondoso que eu ouvira segundos antes.
Baixei-me para pegá-la e no exato momento em que eu colocava a mão sobre ela, senti um calor abrasador na palma da minha mão.
Minha reação foi tirar imediatamente a mão de cima dela e levantar-me por impulso, mantendo meus olhos fixos nela.
A chavinha, ainda no mesmo lugar, brilhava como se fosse de ouro, atingida por um único raio de sol.
Senti minha vista arder pela intensidade da luz e desviei o olhar.
O atendente parou em frente a mim e perguntou-me o que eu queria mas eu, com o coração aos pulos, apenas fiquei olhando o rapaz que começou a notar uma certa estranheza em meu olhar.
Ele olhava para mim sem poder falar e eu olhava para ele sem poder dizer nada.
E assim, ficamos tentando nos entender até que outro rapaz chegou e, vendo-nos parados a olhar-nos, balbuciou algo sem conseguir dizer nada, e ali permaneceu.
Éramos, então, três a olharmo-nos.
À nossa volta outros clientes iam e vinham, compravam e pagavam, mas, nós três, permanecíamos olhando-nos.
Foi quando outro cliente chegou ao meu lado e vendo algo estranho no chão, abaixou-se, pegou do chão a chavinha e colocou em cima do balcão perguntando se alguém havia perdido.
Foi exatamente no momento em que a chavinha rolou da mão dele e caiu no balcão que eu e os dois balconistas nos olhamos espantados a nos interrogar sem emitir palavra alguma.
Abaixei a cabeça, peguei a chave que agora estava gelada e fui embora sem saber para que ela serviria.
E meu carro ficou do outro lado da rua …
Autora: Rita Marília

Imagem: composição visual criada por IA a partir de conceito autoral
