Encontrei um livro na minha estante.
Ao olhar sua lombada, percebi que nunca mais o havia tocado: intacto, petrificado pelo tempo.
Olhei-o com ternura: o tempo passara por nós, eu em rebuliço, ele em silêncio.
Contemplei seu rosto: imutável. Ele não diria o mesmo de mim.
Nunca nos abrimos: eu não li suas entrelinhas, ele não leu meus olhos.
Tive medo de abri-lo. O que escondia? Verdades ou ilusões? Promessas?
E ele, ao me abrir, o que encontraria? Nuvens, esperanças ainda no berço?
Quem somos.
Sem abri-lo, deduzi: ele, pedra; eu, rio.
Caminhei com tremor até o sofá.
Sentei-me e, em silêncio, abracei-o.
Éramos dois estranhos.

