Nasceram um para o outro e nada mais. Conheceram-se na escola, na quinta série, e fizeram todo o curso primário juntos. Desde cedo, ajudavam-se nos estudos. Ao final do secundário, já se amavam e decidiram cursar a mesma faculdade. Juntos cursaram todas as cadeiras, passaram em todas elas e concluíram o curso no mesmo semestre. Enquanto faziam a faculdade, definiram o futuro: abririam uma empresa própria e a cada um, sua atribuição específica. Não contratariam sócios nem funcionários para terem independência. Também durante a faculdade marcaram a data do casamento para logo depois da formatura. De mãos dadas, com passos rápidos e firmes, atravessaram o palco para receber o diploma, e fizeram um discreto cumprimento de cabeça em direção à plateia. Vaidosos, os pais organizaram uma confraternização simples e festiva para receber os parentes e amigos. Logo no início da festa, os jovens anunciaram o noivado e trocaram alianças compradas com muito orgulho pelo pai do noivo. Seis meses depois, dentro de uma pequena capela com poucos convidados, as alianças que estavam na mão direita passaram para a mão esquerda. Foi só então que começaram os preparativos para a abertura da empresa. Mais seis meses e a empresa estava aberta: trabalhavam com afinco. Estipularam um horário para trabalhar, um horário para o lazer e um para o descanso. Seguiam à risca os horários, desde o início da manhã de segunda até o final do dia de domingo. A empresa começou a dar lucro. Eles continuaram sem esmorecer. Passados dois anos, a empresa já estava relativamente consolidada: conquistara alguns clientes fiéis. No final desse prazo ela disse a ele que estava grávida, o que não era novidade: também isso seguia a cronologia que traçaram para suas vidas. Eles eram seus próprios patrões e a empresa, gerida de casa, favorecia a organização. Por isso, após o parto, ela passaria a trabalhar meio período, até que a criança começasse a engatinhar. Seis meses depois ela pôde trabalhar, não mais seis horas, mas oito horas por conta do bom desempenho da criança. Quando havia grande necessidade ou algum imprevisto, ela pôde se dar ao luxo de trabalhar até dez horas. Dois anos depois, ela anunciou outra gravidez, já esperada pelo casal e por todos os quatro avós. Todos torciam para que agora a criança fosse do sexo oposto ao da primeira. Sete meses e meio se passaram e a criança veio com o sexo desejado. Todos comemoraram com satisfação: agora eles tinham um casal de filhos. A empresa continuava bem. Não era uma empresa de renome, mas não era insignificante em seu segmento. Tinha alguns clientes importantes e o casal se desdobrava em atendê-los bem. Criaram algumas amizades sólidas, inclusive com alguns clientes. Dois casais de amigos foram escolhidos e convidados para serem os padrinhos de batismo do segundo filho. No dia do batismo, na igreja, todos cantaram, rezaram e comemoraram no restaurante. Cinco anos depois, terminaram de pagar a casa própria de dois andares, com três suítes mais um quarto completo de hóspedes que ficava no térreo, ao lado de um quartinho onde guardavam apenas coisas inúteis. Nesse ano também o filho mais velho entrou na escola. Um ano depois, os pais foram chamados no colégio para serem parabenizados pelas boas notas e bom comportamento do filho. No ano seguinte, o segundo filho, uma menina, entrou para o maternal. Os avós ficaram desolados por perderem a responsabilidade diária. Quinze anos depois, o mais velho terminou o curso profissionalizante e na formatura, onde os pais não estavam, ele anunciou o noivado com uma colega que ninguém conhecia: trocaram alianças de prata, simbolizando apenas um compromisso mais sério. No mesmo dia, depois da festa, a irmã fugiu com o professor do primeiro ano de faculdade. Trinta dias depois ela finalmente deu notícias dizendo que estava na Europa com o professor e que tudo estava muito bem. Três anos depois, a mãe morreu de infarto e seis meses depois o pai morreu de AVC. Seis meses depois, os bens foram vendidos. Seis meses depois, o valor foi dividido igualmente entre três: filho, filha e advogado.