Na mala
Importa
o que tem
o que tira
o que deixa.
Mala
no chão

Imagem autoral
Na mala
Importa
o que tem
o que tira
o que deixa.
Mala
no chão

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Poemas Breves
Escrevo como quem aprende a dizer.
Estes textos não nascem prontos, nem pretendem ser grandes. São registros de um olhar em construção — pequenos momentos, pensamentos, tentativas.
Durante muito tempo guardei tudo por medo do erro. Hoje, com mais liberdade, escolho compartilhar o que considero mais vivo, mesmo que ainda imperfeito.
Aqui há cenas, restos, palavras que ficaram. Há também dúvidas, silêncios e um esforço contínuo de nomear o que sinto e vejo.
Este espaço é parte de um caminho: aprender a dizer.
Árvore frondosa
Galhos balançam
Vento ou passarinho
Árvore caduca
Passarinho
Canta ao sol
Latido de cão
Passarinho voou
Todos atentos
Florzinha amarela
Pétala andante
Barco balança
Nas ondas do mar
Sol de verão
Ondas do mar
Barco apoitado
Sol de verão
Sol
Pela fresta
Vitamina D
Deitei os olhos
No livro
Amanheceu
Rompe o dia
Apneia
Taquicardia
Corpos aceitam
Longas horas de sol
Final de verão
Fim de tarde
Mar sereno
Leve brisa
Corpos ao sol
Foram-se todos
Ficaram as palavras
Nas cadeiras
Foram-se todos
Ficaram as palavras
E as cadeiras
Sobre a mesa
Caderno
Caneta
Sem ideia
Primavera florida
Até cadeira olha
Pela janela
Costuro poemas
Penduro
Na janela
Penduro poemas
Que na janela
Costuro
Autocentrada
Leio-me
Indefinidamente
Olhar um
Livro pelas frestas
Suscita
Mau aconselhamento
Ler um
Livro pelas frestas
Mau conselho
A noite
Ilumina
O dicionário
De noite
A lâmpada ilumina
O dicionário
Lua tristonha
Vem namorar
Meus poemas
Contemplação
Paz
Coração leve
Sentimento vazio
De palavras
Sentimento vazio
Delira alma sonhadora
Já não é sem tempo
Deves descobrir teu sonho
E quiçá vê-lo morrer
Em tua histeria.
Delira
Que em ti
Tudo é fugaz
Mas toma cuidado
Que talvez
Por tão antigo
Enraizado
Em tua carne
Esteja
Delira, alma infante
Já não é sem tempo
Cumprires tua sina


Eu sou uma pandorga
A balançar pelo ar
E você é o menino
A me levar a voar
Olha, solta, estica, larga
Corre atrás e torna a puxar
E assim você menino
Faz a pandorga bailar
Lá longe muito distante
Olhos atentos aos céus
Todos olham a pandorga
Ninguém olha os olhos seus.
O pinto pia
O gato mia
A‘strela guia.
A moça espia.
A velha fia
A mãe paria.
A flor abria
O sol ardia
Roda cutia.
Vida inicia
Soberania
Lucro, euforia
Explode a cria
É fantasia.
Levanta o dia
Pneumonia
Nada comia
Hipertermia
Foi boemia
Quando chovia.
Vai à abadia
Nest’ agonia
Tudo ironia
Monotonia
O mundo ardia
Hemorragia.
Da ventania
A sinfonia
A morte ria...
Ele a seguia.

Imagem: Composição visual criada por IA à partir de conceito autoral
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CASTIGO
Mira teu castigo
Eu
Mira meus olhos
Teus
Mira minha boca
Oca
Mira meu pescoço
Colosso
Mira meus seios
Cheios
Mira minha cintura
Pura
Mira minha pele
Desvele
Mira meu ventre
Entre
Mira!
Mira e atira.


Sentada na pedra
Eu e uma formiga
Verão acabou
Sentada na pedra
Eu e uma formiga
Outono passou
Sentada na pedra
Eu e uma formiga
Inverno findou
Sentada na pedra
Eu e uma formiga
Primavera, Ah!

No seco do meu coração
Plantei.
Nasceu cacto
Regador sem furo
Reguei
Sol forte
Protegi
A mim e a meu cacto
Desmaiei.
Alguém
Levou meu cacto
Fiquei no seco.
No seco fiquei.
Cedo cedo coração com sede nessa sede
Cedo cedo nessa sede coração com sede
Cedo nesta sede cedo coração com sede
Cedo cedo sede dum coração com sede
Coração com sede cede cedo sua sede
Cedo coração com sede cede sua sede.

Imagem: Composição visual criada por IA a partir de conceito autoral
A Pedra e o Caminho
Tinha uma pedra no meio do caminho
No meio da pedra tinha um caminho
No caminho tinha meia pedra
Tinha um meio entre a pedra e o caminho
Nunca me esquecerei desse acontecimento
Quando a pedra atrapalhou meu caminho
Meu caminho que não era de pedra
Nem de meias pedras, nem de meios caminhos
Recadinho para Mário Quintana
Meu tempo
Também passará
Passarinho!
Apenas penas
Ficarão
Do meu caminho
Entre Pedras e Penas
A melhor parte da chegada
É o caminho
Com pedra ou sem pedras
Com pena ou sem penas
Um caminho de pedras e penas.
Minha pena corre
E não tropeça na pedra

Há encontros que não são planejados — acontecem.
Um poema chama outro. Uma pedra chama um caminho. Uma pena pousa onde antes havia obstáculo. O que começou como diálogo com vozes que admiro tornou-se percurso próprio. Percebi que os três textos não estavam lado a lado por acaso: eles se movem. Do peso à leveza. Da lembrança à escrita. Do tropeço à maturidade. Hoje assumo essa travessia. Entre pedras e penas, a palavra segue. E não tropeça.

Eram duas estrelas
Uma do céu
Uma do mar
Que na areia se amavam
O mar ciumento chegou
Galopando em suas vagas
Separou
Quem na areia se amava
Nunca mais!
Nunca mais!
O mar rugindo espumava.
Fiz um vestido verde
Para meus sonhos
Cobrir
Um vestido rodado
P’ro vento do acaso
Verde como teus olhos
Sedoso como teus beijos
Caía-me bem
Como o teu amor
Pendurado
Sofre os males do tempo
Mofa
Morre

Amanheceu para nós
Para fazer novos nós
Ou desfazer alguns nós
Na conivência de nós.
Nós que amamos
Nós que precisamos
Nós que desejamos
Nós que abandonamos
Nós que não queremos.
Nós em nós
Nós, só nós
Do choro ao silêncio
Eternamente
Nós.
- eternamente sós -
(Rita Marília- 08.12.2018)
Qualquer coisa é um nada
Que devagar lentamente
De nós vai se apoderando
Pulsando
Abrindo, fechando
Se tornando
Ser
Crescente
A nos envolver docemente
Semente
Eternamente
No poleiro canta o galo
Para a moça da janela
"Ouça bem moça malvada:
Não vou hoje p'ra panela".
E cantando todo dia
Vai o galo bem feliz
Vendo que da morte fria
Vai fugindo por um triz
O sol levanta bem cedo
O galo é seu aprendiz
"Vou viver eternamente"
Canta assim o infeliz.

Também na Revista eletrônica “Escritores do Brasil” número 5, à pagina 73 editada em 30.07.2019
Segue link: Leia aqui

Tentei matar
O poeta que mora em mim
Descobri que o poeta
Há muito
Já havia matado a mim
E que eu
Eu em mim
Sou
Apenas sou
Um saco de ossos tatalando
Que o poeta vai arrastando.
Imagem feita por IA
Vô pedi a Santantônio
Nesse mês que é o seu
Pra ranjá um namorado
Que seja todinho meu
Não precisa sê bonito
Elegante ou coisa e tar
Só precisa tê carinho
Prá mode me conquistar
Pode sê preto, amarelo
Grandão ou pequeninote
Só não pode fazê feio
Na hora de dançá o xote
Pode falá de mansinho
Pode falá rastadinho
Só não pode ficá mi oiando
Sem sorri um bocadinho
Pode inté usá gravatinha
Bombacha ou clavinote
Só não pode vin cherando
A mulher no seu cangote
Inté pode facão na cinta
Lenço branco ou encarnado
Só não pode comê angú
E fica ajumentado.
Santantônio conseguindo
Um noivo prá modi eu casá
Eu compro uma capelinha
Prá Ele ir lá morá
Todo dia dô uma vela
Pru seus pé alumiá
Verde, encarnada, azur
Prá Ele nus bençoá.

PASSOS PEQUENOS
Quando, em silêncio, vislumbro
O amanhã triste, escuro
Fecho a porta, acendo a vela
E me ponha a bailar
Seguro na mão do vento,
Na minha cintura, o tenpo
Me conduzindo vai lento
Nos frágeis passos que tento
E, olhando meus pés, eu percebo
Meus passos, assim tão pequenos
Só meus sonhos podem voar
24.03.2020

Abri a mão
Ela voou
Livre
Virei saudade.

Vovô viu a uva
A uva não viu vovô
A uva não uiva
O cão de vovô uiva
Vovô viu a noiva na curva
A noiva de luva uiva
Vovô não usa luva
Noite de chuva
Vovô uiva
Morre vovô na curva.
Vovô não mais verá a uva
Nem a noiva de luva

25.10.2016
A poesia também foi editada à pagina 19 do Suplemento Literário A ILHA
número 144 de março/2018 – Ler Mais

Começa em Mi
Completa em Si
Estando Só
Sentindo Dó
Se vai a Ré
Aqui ou Lá.
Fá
Senhor!
Não olheis assim para mim
Minhas rugas denunciam minha idade
Mas, nem de longe, o meu desejo
Pois que pode desnudar minha volúpia
E buscar em vós o meu prazer.
Senhor!
Ficais assim a instigar-me?
Não sabeis então
Que navega em vossos olhos
A pretensão de minha boca?
Ora, Senhor meu!
Não fiqueis a bulir
Quem quieta está
Quem sob o disfarce da
Indiferença
Cobre com panos gélidos
A volúpia
Olhais, por certo, as mais moças
Para mergulhardes no imaginário
Onde o espelho do tempo vos mentirá
Dizendo quem já não sois
Eu, Senhor meu, miro vossa estampa
Vejo vossas rugas
Percebo vossos contornos
E imagino
Ainda possuirdes
Em vossas mãos o meu desejo
A descobrir que a vida,
Em velhas curvas sem beleza,
Também pode levar-me,
Em queda livre, ao prazer
Por isso Senhor meu!
Conservai o vosso olhar no meu decote
E percebei
Minha respiração ofegante
Lentamente ofegante
Misteriosamente ofegante
E concedei-me
Bulir vossa íris
Massagear vossa pupila
E ver-me, e sentir-me
Penetrada
Pelo vosso olhar.
Então, Senhor meu!
Grávida de vossos desejos
Irei embora
Vaidosa e confiante.

Imagem: composição visual criada por IA a partir de conceito autoral.
Feliz por ter sido incluído na revista “Chicos” conforme mensagem recebida

Nem sei por que eu escrevo
Escrevo porque já senti
Um fogo imenso infinito
Rodando dentro de mim
Escrevo porque não posso
Falar do que vai em mim
Só palavras escritas podem
Levar o meu querubim
E sigo neste deleite
Sabendo quem me traduz
O som de uma palavra
Na boca de quem a conduz
Não posso fugir confesso
Dos sons desta balada
Prefiro morrer à míngua
Que ser dela enviuvada
Passei um tempo infeliz
Longe da valsa dolente
Meus ais todos ausentes
Com olhos de meretriz
Disseram-me: "vai por aqui"
Ou talvez "vá por ali"
O mundo a nada conduz
Eu pobre morria em cruz
Nada de belo olhei
Nada de sonho sonhei
Nada aqui eu conquistei
Nada ali eu revelei
Tristes dias de clausura
De boca amarga fiquei
Minhas palavras trancadas
Nos sonhos que não sonhei
Agora voem meus sonhos
Estendam as asas, meus ais
Buliça, minha alegria
E da pena vos derramais
Nunca mais volto a cabeça
Nunca mais mulher de sal
Hoje sou o sol e a lua
Hoje sou na pedra a cal.
Por trás dos montes espia
Outras almas a brincar
Por trás dos montes expia
Vendo almas a cantar
Atrás dos montes se esconde
Esta alma a esperar.

És tu, pro Inferno!
Viagem além do horror
Dentro de si
Busca incauta
De ser outra,
De estar em outra.
Desgrudar
A pele
Pegajosa,
Putrefata,
Ulcerada.
Liberdade
Acalentada
No esquecimento
Do beijo ensanguentado,
Da mão varicosa,
Do olhar lodal.
Vida pelo final.
Muda canção de ninar,
Ciranda de roda de uma só
Infância esquartejada:
Vida em morte,
Morta.

Imagem: Composição visual criada por IA a partir de conceito autoral.
Calço os chinelos de pano
Chego à janela
Vejo o mundo
Espio o horror
Fecho os postigos que se batem
Puxo as cortinas
Acendo as velas do candelabro
Chopin ou Mozart?
Vou até a lareira
Coloco uma acha de lenha
Reavivo as línguas de fogo
Contemplo a gata dormindo no sofá
Vou até a cristaleira
Pego uma taça
Abro uma garrafa de vinho
Volto à lareira
Tiro o casacão
Agacho-me ao pé do sofá onde está minha gata
Coloco no chão a taça e a garrafa
Vou até a estante
Pego o livro deitado na frente dos outros
Coloco-o no chão junto à taça e à garrafa
Busco almofadas dispostas no sofá
Ouço o crepitar da lenha me chamando
E os gritos dos seres além de meu postigo
Vou até a vitrola
Escolho um disco entre alguns nos escaninhos
Pego o braço da agulha
Empurro-o para trás
Vejo o prato girar - o prato gira lentamente
A rotação aumenta
Cai o vinil
Coloco a agulha na primeira ranhura
Ouço o silêncio perfeito criado pela minha apneia
Espero
A música se impõe aos gritos apavorantes dos transeuntes, atrás do postigo
Volto ao tapete em frente à lareira
Inclino-me
Sento no chão
Pego meu livro
Analiso a capa
Aliso seu volume acetinado
Releio a contracapa
Percebo novamente a música a se sobrepor aos barulhos das sirenes do outro lado do postigo
Ergo a garrafa
Ergo a taça
Despejo um pouco de vinho cor de sangue na taça
Giro o copo
Analiso o anel colorido deixado pelo vinho nas paredes da taça
Inspiro seu buquê suave
Lembro-me do sangue derramado na rua em frente à minha janela
Sinto o cheiro ácido-oxidado do sangue livre
Volto à suavidade da música
Ao perfume do vinho
Ao toque macio no livro
Ao divino sabor da uva transformada em vinho
Lembro-me dos seres transformados em feras do outro lado do postigo
Acomodo-me entre as almofadas
Aqueço-me diante da lareira
Lembro-me dos mendigos acomodados nas calçadas
Minha gata pula do sofá
Aproxima-se de mim
Ronrona
Estico a mão
Aliso sua cabeça macia e peluda
Ela devolve-me com um giro de corpo
Lembro-me das crianças retorcidas do outro lado do postigo
Inclino a taça
Inspiro novamente o buquê do vinho
Bebo um gole
Lembro-me da sede entre homens do outro lado da minha janela
Abro o livro
Busco a marca onde parei
Reclino a cabeça
Fecho os olhos
Ouço a música suave
Sinto a gata do meu lado
Toco os contornos do livro
Percebo meu coração parando
Ouço ao longe os últimos pedidos de socorro
Crianças chorando
Homens esbravejando
Mulheres em histeria
Velhos em agonia
Respiro com dificuldade
Abro os olhos
Leio: “tudo é efêmero”,
Um gole de vinho
Uma nota musical
Um afago na gata
Uma dor no peito
Um golpe de ar apaga as velas do candelabro...
19.07.2015
