Prosa · Reflexões

Domar

“ Você deve domar seu ego, domar seus instintos,
domar seus vícios, domar suas emoções.”

Nãããããõoooo, gritou bem alto meu espírito, ecoando dentro de todo meu ser onde se aloja meu ego, meus instintos, meus vícios, minhas emoções.

Não! Meus lábios, de um corpo já cansado, murmuraram… não, não e não.

Não a mais essa guerra que me aconselham a “travar”.

Não, não quero domar nada em mim.

Eu sou um ser frágil que, pelos céus de todas as estrelas, já andei..

Não, definitivamente NÃO!… 

Não travarei nenhuma guerra, não farei nenhuma domação.

Ao contrário, me acolherei nos braços de mim mesma e com ternura maternal, e com paciência celestial, me conduzirei, me ensinarei e, lentamente, despertarei do sono da ignorância.

Eu sou fruto de mim e todas as minhas partes, boas ou ruins, são minhas e como tal as bendigo porque foi com todos estes “estágios”, alternando-os, subindo, caindo, retornando, que cheguei aqui. 

Não posso “domar-me”, mas posso amar-me carinhosamente acolher-me e levar-me, passo a passo, para outros patamares da compreensão, lendo, aprendendo, meditando,  apreendendo, ponderando e praticando, sem pressa e sem pausa.

Ao fim do dia, devo olhar-me com o carinho de quem vai buscar o filho na escola e perguntar-me o que aprendi, em quais momentos tropecei nos meus vícios e em quais momentos agi corretamente de acordo com o que a natureza humana espera de mim. 

Devo entender, amorosamente, os significados dos degraus, e subir.

Não, definitivamente não domarei nada em mim  e não excomungarei minha ignorância como se ela fosse outro ser em mim e não minha parte em mudança e ascensão.

Não usarei o chicote do domador no lombo das minhas imperfeições, mas compreenderei que eu sou evolução. Que meu lado imberbe me anima a caminhar e que os grandes filósofos – mestres do amor – incentivam-me a buscar a mudança pelo conhecimento.

Não domarei: estudarei, sem pressa e sem pausa.

16.10.2020