Outros Autores

Sabiá com Trevas – XIV

No chão, entre raízes de inseto, esma e cisca o sabiá.
É um sabiá de terreiro.
Até junto de casa, nos podres dos baldrames, vem apanhar grilos gordos.
No remexer do cisco adquire experiência de restolho.
Tem uma dimensão além de pássaro, ele!
Talvez um desvio de poeta na voz.
Influi na doçura de seu canto o gosto que pratica de ser uma pequena coisa infinita de chão.
Nas fendas do insignificante ele procura grãos de sol.
A essa vida em larvas que lateja debaixo das árvores o sabiá se entrega.
Aqui desabrocham corolas de jias!
Aqui apodrecem os vôos.
Sua pequena voz se umedece de ínfimos adornos.
Seu canto é o próprio sol tocado na flauta!
Serve de encosto pros corgos.
Do barranco uma rã lhe entarda os olhos.
Esse ente constrói o álacre.
É intenso e gárrulo: como quem visse a aba verde das horas.
É ínvio e ardente o que o sabiá não diz.
E tem espessura de amor.

Manoel de Barros
Livro: ARRANJOS PARA ASSOBIO
Foto: Rita Marília – #ritamariliats

Prosa

Um Caso de Amor e Ódio

Hoje saí apressada e esqueci o celular em casa. 

A princípio fiquei chateada. No momento seguinte, fiquei com medo de precisar dele para uma emergência, mas me acalmei percebendo que à minha volta todos tinham celular e que, felizmente, eu carregava minha carteirinha do plano de saúde e o meu cartão de crédito.

Para maior segurança, busquei relembrar, com relativo esforço pela falta de uso, o número do celular da filha caso eu viesse a precisar (quantas saudades da agendinha telefônica).

Assustei-me ante a possibilidade de que minha filha, após alguns segundos decorridos tentando falar comigo sem sucesso, entrasse em pânico e começasse a me procurar nos hospitais, nas delegacias e (principalmente?) nos manicômios.

Infelizmente, por ter hora marcada no dentista, não me permiti voltar para casa a fim de resgatá-lo e o remédio foi seguir, seguir e seguir, tentando não surtar.

Cheguei, estacionei e, caminhando pela calçada em direção ao dentista, fiquei imaginando o que eu faria na sala de espera sem meu celular.

Novamente fiquei aterrorizada pela angústia que se abateria sobre mim naqueles eternos e dramáticos momentos antes da consulta, por não ter nada o que fazer.

Assim caminhei: caminhando e sofrendo, sofrendo e caminhando. E sofri por antecipação e me esconjurei por não ter verificado minha bolsa antes de sair de casa. Como pude cometer tal estrago no meu dia, ainda mais sabendo que depois do dentista, que já era outro estrago físico e financeiro, teria muitas outras coisas a fazer antes de voltar para casa?

Imbuída deste estado de desânimo, segui inconformada até o consultório e, quando lá cheguei, quando lá sentei, deparei-me com minha tragédia anunciada: o que fazer durante aqueles intermináveis minutos que antecediam a tortura? 

Ah! Se eu tivesse meu companheiro, meu amigo de todas as horas! Aquele que me distrai em todos os momentos da minha vida. Aquele que não me deixa observar nada à minha volta por ser extremamente possessivo. Aquele que promove todos os meus risos e todas as minhas lágrimas. Aquele que condensa meu dia num único segundo. Aquele que é meu confidente quando dele me valho para expressar minhas emoções. Aquele que resolve todas as minhas dúvidas. Aquele que me faz esquecer os inimigos e, porque não dizer, os amigos também, que me aproxima de muitos que a tempos eu não via e, mesmo assim, neste intervalo, nunca fizeram falta, mas agora fazem parte dos meus “Milhões de Amigos”, como disse Roberto Carlos, prevendo os “likes” do Face, quando cantou “eu quero ter um milhão de amigos”.  Aquele que, trazendo o mundo para a palma da minha mão, torna-me senhora e centro do universo, a estrela rara de quinta grandeza e a mais amada pelos muitos e muitos “likes” em minhas postagens. Aquele que é vida e morte, trabalho e lazer, aquele que une os que estão longe e separa os que estão próximos, que resolve e dificulta, que é do anjo a mão esquerda de mãos dadas com a mão direita do demônio, aquele que …

A secretária me olhou sem dó. Explico: sem dó do meu desamparo, sem dó da minha futura dor, sem dó do meu desfalque financeiro.

Porém, não me rendi e, com altivez, fingindo não entender a indiferença dela sobre minhas penas, olhei-a e lentamente levantei-me pegando a revista que “adormecia” placidamente sobre a mesinha.

Foi então que, ao folhear a revista, tive meu primeiro momento de vitória sobre a trágica ausência do meu celular.

Por favor, não leia rapidamente a palavra “folhear”. Em tempos atuais da supremacia da tecnologia, “folhear” é uma palavra que remete a um passado longínquo onde o tempo era lento, as horas, compridas e lânguidas, e “folhear” era uma benção.

Mas nada dessa melancolia do passado estava ao alcance da secretária que, pelo contrário, olhou-me de revesgueio ao ver-me “folheando”.

Não posso negar que senti o doce sabor da vitória sobre ela e sobre o imbecil do meu celular que se acha imprescindível e insubstituível.

Mostrei a ele que, a duras penas, ainda sou dona de mim quando longe dele.

E diante desta supremacia deleitei-me com a revista que a mim se entregava a cada folha virada, dizendo-me não ter ela o mundo todo de informações mas, em compensação, trazia-me o prazer da lenta leitura, do doce e nostálgico “folhear”.

Mas o dragão não morre: adormece. E, numa dúvida surgida numa frase qualquer contida na revista, o impulso de pegar o celular para buscar respostas trouxe-me novamente à angústia da separação irresponsável.

Nova pausa. Respiro profundamente e um conselho íntimo dizendo que tudo iria acabar bem, trouxe-me de volta à paz.

Neste momento de elevação e euforia de mim sobre mim mesma, a voz da dentista fez com que eu me despedisse da revista e, lenta e delicadamente, a devolvesse ao seu estado de torpor sobre a mesinha.

Na cadeira da dentista senti a tranquilidade advinda do saber que naquele momento, mesmo se eu tivesse o celular comigo, aquele infeliz estaria desligado e, portanto, não me chamaria, não existiria. Isto significava um zero a zero na nossa relação.

E na cadeira reclinada foi tanto “aiaiai”,  tanto “óóó”, tanto “hum-m-m”, que meu celular, o mundo e toda sua tecnologia não tiveram mais a menor importância para mim.

Por fim, desfalcada financeiramente, torturada e cambaleante, sem a doce companhia do meu celular que poderia servir para eu chamar uma ambulância ou a polícia, ou os dois juntos, um para socorrer-me na dor o outro para escoltar-me, segui para a porta do consultório, percorri o corredor até o elevador, achei a saída do edifício e, finalmente, a rua. Mas, e o celular?

Quem, diga-me leitor? Quem, em sã consciência, numa hora torturante dessas, lembraria de um estúpido celular? Quem? Quem? Quem? … Eu, claro!

Doía a boca, doía o bolso, dói a lembrança do objeto esquecido.

E “firme, como poste em banhado”, segui rumo a concluir as demais tarefas, dentre elas as compras no supermercado que, diga-se de passagem, é um dos bons lugares para se esquecer da existência daquela maldição.

Compras no carro, última tarefa realizada com relativa presteza, sigo para casa.

Ah! Penso eu, e por que não dizer, com profunda aflição e alegria, finalmente o encontro está próximo.

Chego em casa e minha intenção primeira era correr para ele, para que me dissesse quantas ligações, quantos likes, quantos whats, quantas mensagens recebidas; se, como o saudoso “tamagoshi”, ainda estaria vivo, ainda com bateria, se, se…

#ritamariliats

Finjo-me controlada e retiro todas as compras do carro (será que ouvi o sinal de uma mensagem chegando?), levo tudo para a cozinha, (será que esqueci mesmo em casa ou me enganei e perdi no trajeto?).
Guardo tudo, dirijo-me à sala e, finalmente,  …

Outros Autores

Vaidade

Sonho que sou a Poetisa eleita,
Aquela que diz tudo e tudo sabe,
Que tem a inspiração pura e perfeita,
Que reúne num verso a imensidade!

Sonho que um verso meu tem claridade
Para encher todo o mundo! E que deleita
Mesmo aqueles que morrem de saudade!
Mesmo os de alma profunda e insatisfeita!

Sonho que sou Alguém cá neste mundo…
Aquela de saber vasto e profundo,
Aos pés de quem a Terra anda curvada!

E quando mais no céu eu vou sonhando,
E quando mais no alto ando voando.
Acordo do meu sonho… E não sou nada!…

Poesia de Florbela Espanca

Poema

Anjo Preto

Na noite escura
Escura como breu
Eu
Escura
Em pura loucura.
 
Mas o anjo
Ah o anjo!
Branco, alvo
Longe.
 
No dia escuro
Eu, branca
O anjo, preto.
 
No pôr do sol
O sol
O sol e eu.

………………….
Foto: Rita Marília T. Signorini
#ritamariliats

Poema

Mais um Poema Triste

Quero fazer um poema
Que seja só eu
Que tendo início
No fim, o Morfeu.
 
Um poema tristonho
Comprometido com a dor
Um poema caduco
Como num galho, a flor.
 
Quero fazer um poema
Que diga todos meus “Ais”
Que diga todos meus “Oh!s”
Escondendo meus ideais.

Um poema de vida inteira
Um poema assim a escorrer
Pingo a pingo
De uma geleira!

 

 

 

 

Com muito orgulho a poesia acima foi publicada à pagina 57 da revista eletrônica A ILHA – Ler aqui

Prosa

Carta Resposta

Bom dia Vovó!

Demorei para responder?  Ontem já estava deitado, eu e as lembranças, tudo em cima da cama.

Me empolguei lendo sua carta e vendo os desenhos que você me mandou e depois fui empolgado pelo sono.

Agora são 7:00 horas e o café está pronto. A Dinda me chama, a mãe me chama mas vou escrever primeiro. Sabe de uma coisa? ainda tem lua e ela está arribando para o cais do nunca.

Por aqui tudo bem: aqui deste outro lado da razão, como diz a Dinda…

Vó!  por aqui às vezes falta luz então acendemos a imaginação. Outras vezes falta água, então abrimos a torneira das emoções. Se falta luz e água corremos pra  baixo da cama e caímos num abismo fundo, escuro e perigoso cheio de lagartixas falantes, vespas gigantes, mulas que voam sem cabeça. O que nunca falta é cama para deitar o corpo cansado de carregar preguiça.

Eu acho que cama pra ser bem gostosa tinha que ter braço. Minha mãe disse que a cama dela tinha. De madrugada eu fui espiar e achei 2 braços. Pela manhã entrei no quarto dela e só encontrei o pai colocando gravata. Eu perguntei pra mãe onde ela escondia os dois braços e ela disse que quem guardava os dois braços era o pai. Perguntei pro pai onde ele escondia os 2 braços da cama da mãe. Ele disse que era segredo. Perguntei pro pai se a minha cama também podia ter 2 braços. O pai disse que só quando eu crescer eu posso colocar dois braços na minha cama. Fui correndo pra cozinha dizer para a Dinda que minha cama vai ter dois braços quando eu crescer. A Dinda riu e me deu um abraço. Eu queria os dois braços da Dinda presos na minha cama, mas se eu roubar os braços dela ela vai ficar sem os dois braços e vai ficar triste porque não vai mais poder me abraçar nem me dar um tapinha sempre que me manda brincar no quintal.

De manhã a coragem sempre me sacode até eu acordar e pular fora da cama. É sempre a hora do café com sono. Na cozinha sempre estão o pai, a mãe, a Dinda, eu e muitas frutas da estação como a goiaba alegria, a banana preguiça,o  kiwi bom humor e muitos outras. Depois chega a minha irmã com cara de sapo beiçudo. Ruim mesmo é que pela porta da cozinha, que dá para o quintal da vida dos outros, como diz a Dinda, sempre entra o moleque da tristeza carregando os mortos do dia anterior. A Dinda suspira, a mãe suspira e eu, sem saber o porquê, suspiro: todos suspiramos e o pai faz a gente agradecer a Deus por ainda não sermos notícia.

Eu repito: Deus muito obrigado por ainda não ser notícia. Eu não sei o que é ser notícia, mas agradeço. O que mais gosto é ir de tarde  jogar corrida com o vento, pular amarelinha com a sombra e, só quando estou sozinho, ir brincar de poetizar assoprando palavras na barriga do caderno de pauta quebrada.

Nem sempre faz sol por aqui, Vó, porque nossa imaginação, de tão grande, faz eclipse o dia todo. A mãe disse pare, mas nós continuamos rabiscando tanto no azul do céu até ele ficar todo furadinho: de noite nasceu estrela espiante.

Atrás de casa não pode brincar de esconde-esconde porque as árvores não sabem contar até 10, só até 5. O filho do vizinho disse que o  tio do meu primo disse que elefante também não pode brincar por causa de quê a tromba sempre fica aparecendo. Fiquei chateado. O elefante é um cara legal.

O pai me perguntou quem era o tio do meu primo. Eu baixei a cabeça porque não sabia responder mas fiquei desconfiado porque um dia o meu primo chamou meu pai de tio. Briguei com meu primo porque não quero que meu pai vire tio. Tio é bom mas não é pai. Dei o Tio para ele e fiquei com meu pai. Acho que meu primo também queria fazer essa troca mas o meu tio disse que ele já tem pai e não pode ter dois pais. Eu não sei porque o meu tio não vira pai dele. Ele fica com um tio e um pai e pode dizer que de dia ele tem pai e de noite ele tem tio. Mas eu não quero. Eu quero pai de dia e de noite.

Meu pai usa gravata… meu primo diz que é “graveta” e dá risada… meu primo é burro mas não tem orelha pontuda. Eu fui espiar a orelha dele e só tem cera dentro de um buraco. Meu primo tem um buraco na orelha e é por isto que às vezes eu chamo e ele não responde. O buraco da orelha do meu primo é bem grandona mas não cabe o dedo: eu tentei.

Minha irmã começou a namorar um homem feio. Meu pai disse para ela que ele era feio. Meu tio disse que ele era feio. Eu disse que o namorado dela era feio. Minha mãe disse pra todos:

“Pro feio ficar bonitinho
Uma coisa vou dizer
Basta olhar com carinho
Pro feio que você vê”.

………………………………………………………….

Este meu texto foi selecionado para compor a revista eletrônica ESCRITORES DO BRASIL número 5, nas páginas 71, 72 e 73, ficando eu, muito honrada.

Segue link; Ler aqui

Prosa

A Morte

Veio visitar-me a morte.
Entrou sem barulho e, sentada no sofá, aguardou a noite que não tardava.
Eu, sem saber, olhava o mundo pelo computador, via Facebook, olhando e criticando a vida de tantos e de todos.
Não sentindo tristeza pela desgraça, nem alegria pela felicidade alheia e, não sendo instruída em nada, desliguei o computador para ir dormir.
Percebi então, no sofá, a presença cândida de alguém que viera me buscar para um longo e longínquo passeio.
– Não haverá trevas nem ranger de dentes, disse-me por telepatia.
– Não haverá barco em lago sinistro, bruma ou breu da noite, continuou.
Neste instante refleti. O que ainda não estava pronto?
Comecei uma lista de coisas para a ocasião:
– dividas além das que estão no cartão de crédito? – não tenho.
– grandes pendências judiciais? – também não tenho.
– herdeiros além dos legalmente constituídos? – não possuo.
– desejos deixados para trás? – nenhum.
– esperanças do passado que ficarão no futuro inexistente? – nada.
– ódio? – não.
– desentendimentos? – Sim, mas nada que não caiba dentro do caixão.
– bens? – Sim, para felicidade dos herdeiros.
– inimigos que festejarão minha morte? – não tenho: logo não haverá fogos de artifício.
– amigos que me carregarão até o carro fúnebre? – Tenho o suficiente: 4. Poucos, mas de imenso amor e a eles meu coração e gratidão.
Minha mala está pronta.
Deixo amigos queridos, devolvo a casa que tenho chamado de parque de diversão, com meus brinquedinhos, e deixo uma história que voará pelo éter. Uma história “meio mais ou menos”, sem tragédias que possam provocar comoção nacional, sem filosofia para um livro, sem importância para significar uma perda.
Saio da história como entrei: anônima.
O que fiz durante a vida? Trazer até a velhice os sentimentos deslumbrados da infância.
Um depois? – logo saberei.
Se nada houver, nunca saberei.
Boa noite.

O texto acima foi publicado na pagina 23 da Revista literária A ILHA de junho/2019.  Muito honrada fiquei.
Ler Revista aqui