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Notícia Urgente

PALAVRAS CAVAM TÚNEL PARA FUGIREM


Ontem, a polícia descobriu um túnel, cavado e pronto, que serviria para um grupo de palavras fugirem do dicionário.
O delegado, em entrevista para o mundo e com exclusividade para nós, declarou que algumas palavras, revoltadas pelos maus tratos e abandono que vêm sofrendo, rebelaram-se e, amotinados, buscavam fugir no dia de finados.
O delegado nada mais soube ou quis dizer.
A investigação prossegue, mas o que nossos repórteres já descobriram é que a mais perigosa facção criminosa, liderada pela palavra Ética, está totalmente envolvida.
Outros nomes que estão sob suspeita são: Moral, Respeito, Civilidade e seus seguidores.
Nossos repórteres não tiveram nenhuma informação sobre a morte da Honestidade, ocorrida dentro das páginas, que está sendo mantida sob absoluto sigilo. Cogita-se que ela tenha sido espancada e torturada até a morte.
O delegado não quis falar sobre o caso para não atrapalhar o andamento das investigações, que prosseguirão assim que um novo Chefe do Departamento for nomeado, empossado e assumir o caso.
Disse-nos, o delegado, que a posse do novo Chefe deve ocorrer no prazo máximo de trinta anos (30 anos), e que este prazo não interferirá no andamento das investigações, já que tudo está sendo registrado e documentado.
Fontes altamente sigilosas informaram a nossos repórteres que mais fugas e mortes estão sendo arquitetadas dentro e fora do dicionário.
Também ficaram sabendo que outro grupo, grande e bem armado, chefiado pela Ganância, aproveitando-se da agitação nas páginas do dicionário, está preparando uma grande chacina e o alvo principal é o bando encabeçado pela Tolerância com seus comparsas que, aliás, parece já estar em negociatas com a quadrilha do Intolerante, para se pouparem da morte anunciada.
Ninguém mais quis dar entrevista, mas nossos repórteres, bravos homens da notícia, continuarão investigando por conta própria e noticiando a qualquer hora, em edição extraordinária.
Ficamos no aguardo de novas informações.

*Foto flagrante: Fotógrafa Rita Marilia #ritamariliats

Com muito orgulho fiquei de também ser publicado na Revista Literária A ILHA 148 de Março/2019.
Ler a Revista aqui

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Síndrome do Ninho Vazio

Síndrome do Ninho Vazio

Às 6h da manhã levanto, não por opção, mas porque eu sempre fui assim: a cama não quer mais o corpo, o corpo não quer mais a cama, mesmo que o sono fique ali deitado.
Levanto, bebo dois copos de água, passo café e sento para ler por mais ou menos uma hora e meia.
Nem sempre foi assim.
Em tempos de correria, quando a filha era pequena, quando eu trabalhava em tempo integral, levantava cedo, mas não lia. Não lia, mas em parcos momentos de um dia atribulado roubava minutos para, com fios de sonhos, tecer esperança.
Fiz, naquela época, o que julguei ser meu dever de casa. A cada noite uma página era virada e pela manhã uma nova página, com novas lições, novos desafios, novos exercícios não vividos e … sem livros para consulta.
Trabalhei, criei uma filha e, embora ela já morasse fora de casa, não a ver “encaminhada” continuava sendo minha principal ocupação, preocupação.
Numa manhã qualquer, um e-mail chamando-a para assumir um cargo conquistado através de concurso muda meu olhar sobre a minha vida e silenciosamente surge a Síndrome do Ninho Vazio: ninho emocional.
Não naquele dia, que era para comemorar. Não no outro, que era para comemorar ainda mais. Mas, depois…
Então…
Então às 6h da manhã levantei e antes de ler olhei para minha idade, olhei para meu corpo em visíveis transformações, olhei para o tempo passado e olhei para o futuro.
Futuro!? Futuro!? Futuro!?
Qual futuro?
O futuro do minuto seguinte, da noite seguinte, do dia seguinte.
O futuro aqui, grudado, de boca aberta e de olhos esbugalhados esperando minhas ordens.
Minhas ordens?
Minhas?
Minhas, sim. Minhas e de mais ninguém.
Eu? Ser dona? Ampla, total, irrestrita, dona e livre? Dona de mim, de meu tempo, de meus pensamentos? …. Eu? De mim?
Nesta manhã voltei para a cama sem ler … e dormi.
Na manhã seguinte a cama também me acolheu e na outra ela me escondeu do mundo, do mundo que sempre espiei pela fresta das possibilidades.
Possibilidades, possibilidades, possibilidades!!! …. Possível.
Então agora eu poderia olhar, não mais pela fresta, mas pela janela escancarada e alcançar as possibilidades.
Mas não desejando saber, eu dormia embalada pelo medo.
Medo!
Medo do desconhecido, medo de ser livre, medo de não ser útil e de ser esquecida, jogada no silêncio.
Medo do tempo que se agigantou à minha frente, porque os ponteiros do relógio passaram a se mexer lentamente pela falta de urgência, dando-me sobrevida.
Medo de saltar do trampolim da responsabilidade familiar, medo de estar em pleno voo – um dos momentos mais solitários em que alguém pode estar – medo de tocar a água lá em baixo e senti-la com carícia se abrindo para me receber como útero invertido, medo de me afogar de tanta emoção, medo de voltar à tona e não receber aplausos e ver-me só e feliz, medo de sair da água e (“que Deus me livre”) dizer apenas para mim: sou feliz com o que tenho, sou feliz com o que sou, sou feliz com o que ainda serei e realizarei.
Mas eu dormia e dormia em tempo integral. Dormia e fugia.
As marcas das rédeas da responsabilidade ainda sangravam no meu pescoço.
Meus amigos me buscavam, ofereciam-me passeios, lugares, reuniões: eu fugia.
Até que, num final de semana, fui constrangida a fazer uma pequena viagem.
Pedi carona num dos três carros da caravana.
O casal, meu amigo, com uma gentileza inominável, acolheu-me em seu carro e eu, por brincadeira, para deixar o ambiente descontraído, disse que eu ia “de filha”, já que o acento de trás a mim pertencia.
As risadas foram boas e logo na saída, no primeiro quilômetro, percebendo que eles aceitavam a brincadeira e também para relembrar momentos vividos por eles e por mim, falei:
– Já chegamos? Falta muito?
E, sentada no banco de trás, viajei contando e relembrando as coisas da minha infância. Falei que meus pais sempre me levavam em seus passeios de carro, que eu adorava estar à mercê dos desejos deles, e que para mim tudo era bom quando estava com eles …
Assim, fui e voltei brincando, relembrando e me denominando “filha”.
Na última parada já de volta, troquei de carro e eles – adoráveis “eles” – continuando a brincadeira, fizeram mil recomendações para eu me comportar no carro das “tias”.
Por que? Não sei, mas foi assim.
Aquela viagem me fez voltar no tempo e lembrar-me do antes: do antes de ser mãe, do tempo de “ser filha”.
E relembrei aquele tempo, quem eu era, onde eu estava, o que era bom, o que era ruim, o que era inevitável, o tempo que perdi lamentando sem fazer, os porquês, os como, o que eu sonhava ser e fazer.
O que sonhava ser e fazer?
Ser e fazer…
Do “ser” fui mãe com todas as obrigações, alegrias e tristezas, culminando no mérito do “ter encaminhado”.
Consegui criar o hábito da leitura e adquiri o conhecimento que eu sempre julguei importante para mim.
Mas restava tudo o mais que eu queria ser e, assim, de braços dados com o fazer, o ser que queria ser – e que morava no passado – precisava com urgência ser tele transportado para o presente.
Mas ainda a cama era o meu esconderijo, meu conforto e minha conselheira.
No dia seguinte, novamente fiz uma incursão ao ponto dos meus desejos de “ser” e de “ter” quando ainda a responsabilidade sobre minha filha não existia.
Quem eu era naquele passado?
Do que eu reclamava não ter? De não ser? De não poder fazer?
Percebi que eu tinha o privilégio de resgatar estas perguntas e responde-las todas.
Privilégio? Sim, porque estou aqui viva em pensamento, viva em saúde, viva em ação, viva em emoção.
Abri novamente o caderno da minha vida e voltei àquelas páginas amareladas para reassumir as queixas que me impediam de tantas coisas. E daquelas queixas “pueris” extrair os meus “quereres” e me comprometer a transforma-los novamente em sonhos e, de sonhos, em realizações com novas alegrias mesmo que com um corpo menos interessante, mas com uma cabeça muito mais “tudo”.
Quanto à Síndrome do Ninho Vazio? Ela permanecerá aqui comigo, do meu lado a me acompanhar, demarcando tempos vividos, porque ela é real e importante.
No caderno da minha vida, em letras grandes, junto com outras igualmente reais e importantes, vou acrescentá-la:

INFÂNCIA – ok
ADOLESCENCIA – ok
FASE ADULTA – ok
MATERNIDADE – ok
PROFISSÃO – ok
SAÚDE – ok
SINDROME DO NINHO VAZIO – ok
EU… em movimento

Ontem estive em uma reunião de amigos e senti toda a minha mocidade pincelar meu coração. Ali estive alegre, hoje sou feliz.
Alegria se conjuga com o verbo estar; felicidade se conjuga com o verbo ser.
Ser é um verbo de permanência; estar é um verbo de mutação.
E sou feliz porque, olhando para trás, vejo que os grandes desafios foram vencidos.
E sou feliz porque a vida me recompensa devolvendo-me tempo.
Daqui a alguns anos quero enumerar os meus sonhos realizados a partir de agora.
O ninho não estava vazio: havia uma fênix – eu – que aguardava o tempo certo para renascer e voar.

“Viver uma grande vida é realizar na idade adulta um ideal da juventude. ”
Alfred Victor de Vigny

Este post foi incluído na Revista Eletrônica ESCRITORES DO BRASIL nr. 1 à pagina 23.
Segue link: Ler aqui

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Tributo a Júlio de Queiroz

Veja seu olhar! Diz tudo não? Não, não diz tudo porque havia mais muito mais no seu sorriso no seu coração no seu pensar.
Meu estar com ele foi temporal de verão: rápido e forte.
Pelo seu porte físico sempre me lembrou com carinho de Mário Quintana.
Agora tenho dois passarinhos na gaiola aberta de meu coração: um Alegre, outro Alegrete.

Vida é amor represado
Morte, amor trans-bordado

Perdemos o que viria a ser
Guardemos o que foi para que sejamos dignos.

Meu profundo sentimento de dor egoísta.

Recitado na Academia Catarinense de Letras – ACL na Sessão de Saudade do Acadêmico Julio de Queiroz, grande poeta brasileiro, por ocasião do primeiro ano do seu passamento – Ler Mais

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A Tempestade

Não era nada além de um anúncio de temporal.

As árvores balançaram suas cabeleiras pondo muitos ninhos ao chão – a natureza nem sempre é pacífica.
Depois veio um silêncio ensurdecedor e, no horizonte, o manto cinza começava a se estender em direção ao oceano. E nenhum pássaro voou.
Tudo era calmaria, tudo era assustador.
Todos olhavam o céu se matizando do cinza ao chumbo, do chumbo ao breu.

… e veio vindo, silencioso, rápido, deslizante como cobra ao bote: éramos as vítimas.

Assustados, paramos e aguardamos o fim com o coração batendo no mesmo compasso dos relâmpagos que, agora, clareavam o que já não se via.
Ficamos petrificados e impotentes como folha ao vento.

… e o silêncio virou sinfonia de tambores e da sinfonia o caos.
… e agora estava sobre nossas cabeças, e gritava, e gargalhava, e chicoteava, e nos sacudia, e nos horrorizava.
… e perdendo a visão, entramos a entender o inferno, a nos questionar, a nos arrepender, a nos purificar, a nos abençoar.
… e aquele manto nos agasalhou.
… e nada mais soubemos da vida.

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Postigo

Calço os chinelos de pano, chego à janela, vejo o mundo, espio o horror, fecho os postigos, puxo as cortinas, acendo as velas do candelabro, Chopin ou Mozart, me aproximo da lareira, forneço uma acha de lenha, reavivo as línguas de fogo, contemplo a gata dormindo no sofá, vou até a cristaleira, pego uma taça, abro uma garrafa de vinho, volto à lareira, tiro o casacão, agacho-me ao pé do sofá onde está minha gata, coloco no chão a taça e a garrafa, vou até a estante, pego o livro deitado na frente dos outros, coloco-o no chão junto da taça e da garrafa, busco algumas almofadas dispostas no sofá grande, ouço o crepitar da lenha me chamando e os gritos dos seres além de meu postigo, vou até a vitrola, escolho um disco entre alguns nos escaninhos, pego o braço da agulha, empurro-o para trás, vejo o prato girar lentamente, a rotação aumenta, cai o vinil, coloco a agulha na primeira ranhura, ouço o silêncio perfeito criado pela minha apneia, espero, a música se impõe aos gritos apavorantes dos transeuntes atrás do meu postigo, volto ao tapete em frente à lareira, inclino-me, sento no chão, pego meu livro, analiso a capa, aliso seu volume acetinado, releio a contracapa, percebo novamente a música a se sobrepor aos barulhos das sirenes do outro lado do meu postigo, ergo a garrafa, ergo a taça, despejo um pouco de vinho cor de sangue na taça, giro o copo, analiso o anel colorido que o vinho deixa nas paredes da taça, inspiro seu buquê suave, lembro-me do sangue derramado na rua em frente à minha janela, sinto o cheiro ácido-oxidado do sangue livre, volto à suavidade da música, ao perfume do vinho, ao toque macio no livro, ao divino sabor da uva transformada em vinho, lembro-me dos seres transformados em feras do outro lado do meu postigo, acomodo-me entre as almofadas, aqueço-me diante da lareira, lembro-me dos mendigos acomodados nas calçadas, minha gata pula do sofá, aproxima-se de mim, faz um ronronado, estico a mão, aliso sua cabeça macia e peluda, ela devolve-me com um giro de corpo, lembro-me das crianças retorcidas do outro lado do meu postigo, inclino a taça, inspiro novamente o buquê do vinho, bebo um gole, lembro-me da sede entre homens do outro lado da minha janela, abro o livro, busco a marca que aponta onde parei, reclino a cabeça, fecho os olhos, ouço a música suave, sinto a gata do meu lado, toco os contornos do livro, percebo meu coração parando, ouço ao longe os últimos pedidos de socorro, crianças chorando, homens esbravejando, mulheres em histeria, velhos em agonia, respiro com dificuldade, abro os olhos, leio: “tudo é efêmero”, um gole de vinho, uma nota musical, um afago na gata, uma dor no peito, um golpe de ar apaga as velas do candelabro…

19.07.15

Prosa

Ser Bocó

Quando me escondo na lua de lata e o vento me empina como pandorga, minha cabeça salta de estrela em estrela para pegar uma e amarrar na cabeleira do cometa.
Minha mãe disse que salada de fruta faz bem, por isto, à tardinha, vou chupar manga embaixo do pé de banana.
Contei para o tio que pintei meu dedo de preto para assustar meu irmão, dizendo ter um dedo a menos. Então o tio disse que à noite, quando o dia fica preto, muita coisa desaparece; fui correndo me esconder em baixo da cama, achei minha boneca e descobri que era ali que as coisas desaparecidas ficam.
Nós estávamos todos comendo na cozinha quando meu pai abriu um livro que cuspiu um capirotinho. Meu pai não gostou e fechou o livro, minha mãe bocejou e minha irmã foi chorar dentro do roupeiro, para não ver o rio de sangue. Eu fiquei rindo porque minha irmã não sabe que chorar também faz rio.
Minha mãe é que sabe das coisas: quando ela quer que algo desapareça, ela fecha os olhos.
Eu tenho um saco cheio de bolinhas de gude e uma delas chama “olho de gato”. Minha prima queria, mas não quis mais, porque eu disse que o olho não enxergava nada, então ela ficou contente.
Quem é bocó corre atrás dos versos e salta por cima dos números ímpares. Quem não é, sabe contar até dez.
Minha trisavó é vizinha d’um tal homem de barro chamado Manuel. Ela disse que ele disse que eu sou bocó porque minha alma não expandiu ainda.
Rita Marília
Floripa, 24.05.2017

……….

O texto acima foi citado na crônica do Escritor e Poeta Luiz Carlos Amorim em: Ler mais aqui
que também está em seu outro blog (ler aqui)

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APRESENTAÇÃO

Era uma vez uma grande explosão de amor.
Era uma vez uma criança que brincava de lojinha.
Era uma vez uma menina que morava na imaginação e sonhava no compasso do relógio.
Era uma vez uma mulher que aprisionou as palavras e as imagens, por longos anos.
Era uma vez uma vida feita com mais de 22 mil dias.
Mas agora não mais “Era uma vez”…
Palavras e imagens não eram uma vez mas, o reinventar da vida eternamente.
Pensando assim quero mostrar meu olhar através da fotografia e da palavra.
A fotografia contemplativa tem me  mostrado que é possível romper-se com as formas tradicionais de olhar e, desprendendo-se do belo padronizado,  encontrar emoção e beleza em cenas triviais que, muitas vezes, estão bem próximas de nós.
A palavra, em mim, é instrumento para me multiplicar quando sou abduzida pela contemplação. E ela vem em infinitas formas. O Haikai e a poesia chinesa despertam em mim este momento onde o quase nada reverbera em uma profusão de emoções translúcidas.
Por talvez ainda morar na imaginação e sonhar no compasso do relógio, estou aqui, nesta plataforma, que nada mais é do que morar numa imaginação no compasso de um grande relógio, brincando de lojinha para explodir de amor.
“Era uma vez”… morava na imaginação e sonhava no compasso do relógio
Meu nome é Rita Marília Tomaschewski Signorini, nasci em 1955 e moro em Florianópolis (SC). Sou presa ao mar porque talvez nasci em Rio Grande(RS), e pretendo jamais me separar dele.
Escrever e fotografar sempre estiveram em mim como apaziguadores dos meus devaneios.