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Versos Íntimos

Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão – esta pantera –
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

Augusto dos Anjos

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Mila

Era pouco maior do que minha mão: por isso eu precisei das duas para segurá-la, 13 anos atrás. E, como eu não tinha muito jeito, encostei-a ao peito para que ela não caísse, simples apoio nessa primeira vez. Gostei desse calor e acredito que ela também. Dias depois, quando abriu os olhinhos, olhou-me fundamente: escolheu-me para dono. Pior: me aceitou.
Foram 13 anos de chamego e encanto. Dormimos muitas noites juntos, a patinha dela em cima do meu ombro. Tinha medo de vento. O que fazer contra o vento?
Amá-la -foi a resposta e também acredito que ela entendeu isso. Formamos, ela e eu, uma dupla dinâmica contra as ciladas que se armam. E também contra aqueles que não aceitam os que se amam. Quando meu pai morreu, ela se chegou, solidária, encostou sua cabeça em meus joelhos, não exigiu a minha festa, não queria disputar espaço, ser maior do que a minha tristeza.
Tendo-a ao meu lado, eu perdi o medo do mundo e do vento. E ela teve uma ninhada de nove filhotes, escolhi uma de suas filhinhas e nossa dupla ficou mais dupla porque passamos a ser três. E passeávamos pela Lagoa, com a idade ela adquiriu “fumos fidalgos”, como o Dom Casmurro, de Machado de Assis. Era uma lady, uma rainha de Sabá numa liteira inundada de sol e transportada por súditos imaginários.
No sábado, olhando-me nos olhos, com seus olhinhos cor de mel, bonita como nunca, mais que amada de todas, deixou que eu a beijasse chorando. Talvez ela tenha compreendido. Bem maior do que minha mão, bem maior do que o meu peito, levei-a até o fim.
Eu me considerava um profissional decente. Até semana passada, houvesse o que houvesse, procurava cumprir o dever dentro de minhas limitações. Não foi possível chegar ao gabinete onde, quietinha, deitada a meus pés, esperava que eu acabasse a crônica para ficar com ela.
Até o último momento, olhou para mim, me escolhendo e me aceitando. Levei-a, em meus braços, apoiada em meu peito. Apertei-a com força, sabendo que ela seria maior do que a saudade.

CARLOS HEITOR CONY

Folha de São Paulo dia 04.06.1995

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A Arte de Infantilizar Formigas

“As coisas tinham para nós uma desutilidade poética.
Nos fundos do quintal era muito riquíssimo o nosso dessaber.
A gente inventou um truque para fabricar brinquedos com palavras.
O truque era só virar bocó.
Como dizer: Eu pendurei um bentevi no sol…
O que disse Brugrinha: Por dento de nossa casa passava um rio inventado.
O que nosso avô falou: O olho do gafanhoto é sem princípio.
Mano Preto perguntava: Será que fizeram o beija-flor diminuído só para ele voar parado?
As distâncias somavam a gente para menos.
O pai campeava campeava.
A mãe fazia velas.
Meu irmão cangava sapos.
Bugrinha batia com uma vara no corpo do sapo e ele virava uma pedra.
Fazia de conta?
Ela era acrescentada de graças concluídas….”

Do livro: LIVRO SOBRE NADA – Manoel de Barros
Editora Record – 13ª edição – 2008, página 11.

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Ismália

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Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar…
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar…
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar…

E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar…
Estava perto do céu,
Estava longe do mar…

E como um anjo pendeu
As asas para voar…
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar…

As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par…
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar…

Alphonsus de Guimaraens (1870-1921), poeta simbolista do século XIX.
É uma das poesias mais famosas da literatura brasileira.

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Pergaminhos

Uma homenagem a meu pai.

Por volta dos seus 5 anos, trepado no balcão da venda, meu pai declamava esta poesia como tinha aprendido, oralmente, de seu pai (meu avô). Os versos que ele declamava eu os coloco no final, pedindo permissão à Alexandre da Conceição, pelos modificações. Como poeta, posso imaginar que Alexandre não se incomodou, pelo contrário, se lá do céu estiver ouvindo, ficará orgulhoso de ter feito parte de uma história tão linda de amor, ingenuidade e muito lirismo.
Meu pai os ensinou a mim, como aprendeu de seu pai, e não sabemos como meu avô aprendeu.Por longos anos eu recitei como aprendi de meu pai mas hoje busco a retratação ou a conciliação. Espero que ambos, meu pai e Alexandre, estejam juntos declamando no céu.

               PERGAMINHOS

ALEXANDRE DA CONCEIÇÃO – Portugal

 

Não me esmagam mulher os teus sorrisos;
Eu tenho mais orgulho do que pensas
E rio-me também;
É debalde que tentas humilhar-me,
Porque eu ouso pensar – vê tu que insania! –
Que também sou alguém.

Alguém que veio ao mundo sem família,
Um produto do acaso, um pária, um mísero,
Um enjeitado enfim,
Um ser sem protecção das leis canoniais,
Filho sem pai no assunto do baptismo,
Mas um ser, inda assim.

Levantou-me da estrada do infortúnio
Um homem que entendeu que um filho espúrio
Tem jus à protecção,
Um homem que entendeu que é vil e infame
Atirar para o Iodo dos hospícios
Uma alma em embrião.

É que eu vi as premissas da vitória,
O aplauso espontâneo dos estranhos
Incitar-me a seguir,
É que eu via diante de meus passos
Rasgar-se ampla, infinita, luminosa
A estrada do porvir.

Se alguma cousa sou a mim o devo,
Ao meu trabalho honrado, ao meu estudo,
Ao amor de meus pais,
À força de vontade, à inteligência,
À sociedade pouco, às leis bem menos…
E a ti não devo mais.

E és tu que vens falar-me em pergaminhos?
E és tu que vens falar-me nas riquezas
Que o destino te deu?
Eu não troco os meus louros de poeta,
As conquistas do estudo e o meu futuro
Por tudo quanto é teu.

Não me compares pois à horda ignara
Que te adora os sorrisos pelo ouro…
Eu tenho coração,
Tenho por pergaminhos o trabalho,
Por tesouro a minha inteligência
E a honra por brasão.

Nós, os homens que andamos procurando
À luz do coração por este mundo
Os caminhos do bem,
Como trazemos alto o pensamento,
E a fronte erguida ao céu, temos orgulhos,
Bem vês, como ninguém.

Nascido a 16 de Outubro de 1842, em Ílhavo, trazia consigo um estigma que pode estar na base de algumas das suas atitudes mais violentas e intempestivas. Extraído de: Publicação semestral da Junta Distrital de Aveiro nrº 10

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NOSSA VERSÃO

Não me esmagam mulher os teus sorrisos, porque tenho mais orgulho do que pensas, e rio-me também. Se é debalde que tentas humilhar-me, ouso pensar – vê tu que insânia! – que eu também sou alguém. Alguém que veio ao mundo sem família, um produto do acaso, um ser, um pária, um mísero, um enjeitado em fim. Um ser sem proteção das leis canônicas, filho sem pai no assento do batismo, mas um ser ainda sim. Levantou-me da estrada do infortúnio um homem que viu um espúrio e uma alma em embrião. Este homem legou-me em vida seu honrado nome e vestiu quem era nu. Depois que me viu robusto e forte disse-me um dia: – Vai, sê homem, luta, trabalha para tu. Lutei, passei curvado sobre os livros nas mais floridas quadras dos meus dias, sereno a trabalhar. Progredi, iluminei-me para entrar em novas lutas ou então descansar. Foi aí que eu vi as premissas da vitória incitarem-me a seguir. Foi aí que eu vi rasgar-se ampla e iluminada a estrada do porvir. E se alguma coisa eu sou, a mim eu devo, ao meu trabalho honrado, à minha inteligência e às minhas ações. E a ti, a ti não devo mais. Se é tu que vens falar em pergaminhos, se é tu que vens falar-me na riqueza que o destino te deu, saiba que eu não troco os meus louros de poeta nem a conquista de um talento por tudo quanto é teu. É louca, sabes o quanto sou rico, rico de muita inteligência e coração, portanto devolvo-te a suspeita dos risos que não mendiguei. Vem e vê mulher, que se és rainha eu sou poeta e tenho orgulho de rei.