Prosa · Reflexões

Solidão, Assim como Chá e Amor

Fotógrafa: Rita Marília

Tarde de primavera. Estou no shopping.

Sento-me em uma cafeteria, e, como sempre faço, começo a observar quem ali também está.

São várias mesas com pessoas aos pares, aos ternos, às quadras, aos etc… Só eu só.

Será que sentem medo de olhar nos olhos da solidão?

O que diria a Solidão? 

Diria talvez … 

– “ Estou só, sinto-me em mim, respiro meu hálito morno. 

– Ninguém me quer, ninguém me busca e aquele que senta-se ao meu lado apavora-se tanto que não se permite curtir a minha paz, o meu silêncio, a minha introspecção. 

– E para esse, que ora foge de mim, eu sussurraria em seu ouvido: ” eu tenho teu Eu para te apresentar e dou-te tempo em demasia para conheceres a ti mesmo “.

– Sou pouco exigente, não te quero em tempo integral, nem seria saudável, mas te ofereço meu ombro para deitares tuas dores.

– Do que falares para mim, em silêncio ou em voz alta, entre risos ou soluços, guardarei enterrado no meu ar.

– Discreta estarei contigo sempre e, se não tenho nada de belo e reconfortante para te dizer, também nada farei que te faça chorar, a menos que tu queiras. 

– Sou espaçosa e egoísta a ponto de caberes inteiro em mim e, também, não deixar ninguém aproximar-se de ti sob pena de eu fugir. Mas sempre ficarei à espreita para possuir-te, assim que me deres uma pequena  chance.

– Entendo que por ignorares minhas qualidades, me temes e para que eu não me aproxime de ti, vives em bando onde um é sentinela para o outro.

– Mas não importa!  Vou contar os meus feitos e peço um pouco de discrição para não ficares espalhando o grande círculo de amigos que já tive.

– Só para começar, fui parceira de todos os grandes compositores, escritores, pintores, filósofos e santos. Até Jesus Cristo buscou-me e se consolou em minha presença.

– Fui pano de fundo de todas as maravilhas que o homem já criou.

– Das artes à ciência, fui eu quem deu suporte emocional para que tudo se criasse.

– Ajudei a construir a mitologia e a filosofia. Foi sob meu manto que a igreja se definiu. 

“ Os que me temem, em mim se perderão.”

– Foi no meu quarto que Hitler alucinou e tantos se mataram. 

– Foi por me temer que Amy bebeu até morrer, que Elis se perdeu, que Maísa se matou …

– E há aqueles que tendo tanta gente à sua volta, me desejando e não sabendo onde me encontrar, buscam-me nos lugares mais improváveis como no fundo das garrafas, nas noites de bares, na cama alheia.

– Peço perdão pela minha arrogância, pela rispidez de minha fala, mas teu silêncio fez-me crer que eu precisava mostrar como sou e o que posso fazer por ti.

– Cansei de ver-te negando-me, colocando-me como algo abominável. 

– Está certo! Está certo que deixei alguns enlouquecerem em minha companhia, mas eles enlouqueceriam longe de mim também, sem nada produzirem.

– Tolo tu és! Não podes imaginar o que posso fazer por ti e para ti quando me aceitares no silêncio de algumas horas dos teus dias, em alguns dias dos teus meses, alguns meses da tua vida – única vida …

Mas se aceitares minha companhia em breves instantes do teu dia faço-te um juramento: Eu prometo que, no silêncio de minha solidão, te descobrirás rico.

E … se me permites, só mais um lembrete, um detalhe do meu ser: 

    A solidão, assim como o chá e o amor que a tudo cura, em demasia, sufoca, prejudica podendo fazer mal.“

20.11.2011

Prosa

Dois Estranhos

Encontrei um livro na estante da minha casa. 

Ao olhar sua lombada percebi que, depois de colocá-lo ali, nunca mais o havia tocado: estava intacto, imóvel, quase petrificado pelo tempo.
Olhei-o com ternura e vi o tempo que por nós havia passado: eu em pleno rebuliço imposto pela vida, ele, em sepulcral silêncio.
Olhei-o no rosto: imutável como o havia conhecido. Provável, ele não poderia dizer o mesmo de mim… muito mais velha.
Nunca havíamos nos aberto um ao outro: eu nunca lera suas entrelinhas, ele nunca lera meus olhos.
Tive medo de abri-lo. O que nele se escondia? Quais verdades, quais mentiras, quais ilusões, quais promessas? 
E ele, teria coragem de me abrir? O que encontraria? Nuvens, flores que há muito desabrocharam, temporais que se foram, esperanças que jazem no berço ainda?
Quem somos, perguntei a ele
Sem abri-lo deduzi: ele pedra, eu rio.
Caminhei lenta até o sofá, lenta e cuidadosamente como quem carrega o mundo que pode se esfacelar no chão ao primeiro fraquejar: o dele ou o meu?
Sentei-me e, com o amor de quem faz um parto, abri suas entranhas para extrair dele a luz.
Éramos, enfim, dois estranhos a se revelarem: ele em pedra, firme em suas ideias, eu em rio, mutante.
Abracei-o e, então, nos amamos em silêncio para toda a eternidade.

Fotógrafa Rita Marília