Prosa

Dois Estranhos

Encontrei um livro na estante da minha casa. 

Ao olhar sua lombada percebi que, depois de colocá-lo ali, nunca mais o havia tocado: estava intacto, imóvel, quase petrificado pelo tempo.
Olhei-o com ternura e vi o tempo que por nós havia passado: eu em pleno rebuliço imposto pela vida, ele, em sepulcral silêncio.
Olhei-o no rosto: imutável como o havia conhecido. Provável, ele não poderia dizer o mesmo de mim… muito mais velha.
Nunca havíamos nos aberto um ao outro: eu nunca lera suas entrelinhas, ele nunca lera meus olhos.
Tive medo de abri-lo. O que nele se escondia? Quais verdades, quais mentiras, quais ilusões, quais promessas? 
E ele, teria coragem de me abrir? O que encontraria? Nuvens, flores que há muito desabrocharam, temporais que se foram, esperanças que jazem no berço ainda?
Quem somos, perguntei a ele
Sem abri-lo deduzi: ele pedra, eu rio.
Caminhei lenta até o sofá, lenta e cuidadosamente como quem carrega o mundo que pode se esfacelar no chão ao primeiro fraquejar: o dele ou o meu?
Sentei-me e, com o amor de quem faz um parto, abri suas entranhas para extrair dele a luz.
Éramos, enfim, dois estranhos a se revelarem: ele em pedra, firme em suas ideias, eu em rio, mutante.
Abracei-o e, então, nos amamos em silêncio para toda a eternidade.

Fotógrafa Rita Marília

Um comentário em “Dois Estranhos

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