Prosa

O Medo

Quatro horas da tarde. 

A previsão era de um Ciclone Bomba.

Ciclone já assusta, ciclone bomba deve ser o fim dos tempos.

Penso que nada posso fazer em relação a isto a não ser me proteger, mas esta idéia é apenas teórica e vaga: sempre é, diante da realidade.

A previsão era para a noite: o pior sempre vem a noite.

Preciso levar uma pessoa em casa, já que, nesta época de pandemia, os ônibus andam vazios da espécie humana, mas cheios de vírus C-19, rindo e pulando, deixando suas partes aqui e ali e se refazendo feito lagartixa que perdeu o rabo.

Já estava na programação do dia esta missão.

Adianto-me uma hora para sair de casa e não pegar o vento que sempre prenuncia estes temporais: uma espécie de gentileza do temporal aos viventes, já que as pedras nada sentem e nada podem fazer.

Minha carona e eu, alegres pela decisão de antecipar as ações, estamos  a uma distância de aproximadamente 10 km, e cerca de 7 minutos do destino.

Partimos!

Na rua a silhueta do sol ainda pode ser vista através de uma espécie de plástico leitoso que se estende sob todo o céu.

Olhando o movimento das ruas, percorremos quase todo o trajeto com alegria simples. Minha caroneira é uma das pérolas da minha vida.

Dobrando uma rua, já no destino, ela chama-me a atenção para as nuvens no céu, enquanto eu paro para ela descer.

Ela corre para casa e eu, rapidamente, dou partida no carro.

Uma nuvem relativamente pequena está à minha frente. Ela é cinza, muito escura, está baixa, muito baixa e faz reviravolta feito peão, e por não ser muito grande eu posso ver todo seu tamanho, todas as suas formas que se amalgamam em si … e ao fundo, o horror: o cinza-chumbo-azulado encobrindo tudo.

Meu pensamento é para minha filha: ela estará na rua?

O céu não espera minhas ações! Nem minhas e nem as dos passarinhos, para que pousem em segurança: tudo se resume ao Nada.

Entre um sim e um não de meu genro, sei que ele e minha filha estão em segurança,  podendo, agora, cuidar de mim: a tormenta se faz maior que meu amor materno.

Chegou!

E chegou sem nenhuma gentileza ou delicadeza. Chegou varrendo com fúria tudo que podia. Tudo é seu e sem pudor faz o que quer.

Eu não posso ficar na rua, penso: preciso me abrigar.

O cérebro, mais rápido do que o louco que paira sobre mim, me orienta. 

E a poucos segundos dali uma grande loja, com estacionamento no subsolo, me recebe: a mim e a mais uma centena de insignificantes mortais.

Lá fora, o louco ruge e cospe vento e chuva. Dentro apenas e tão somente seres assustados.

Cinco minutos foi o tempo que o louco arrastou suas correntes, gargalhando dos orgulhosos “nada” que se escondiam feito formigas fugindo de seu formigueiro remexido. Cinco minutos, que foram 30, 60, 90 minutos, talvez uma eternidade para alguns.

Capítulo II – A dança

As notícias eram de outro louco que estava chegando para o horário da madrugada.

Uns diziam que era mais louco, outros, menos louco. Uns diziam que era maior e mais vingativo, outros que não passava de um incompreendido. Enfim, fiquemos atentos que  tudo pode ser!

Quem se apavora acredita já estar ouvindo o ribombar; quem não acredita, vê, ouve e sente a calmaria. 

Seriam estes os sentimentos dos conscientes diante da morte iminente?

É hora de dormir.

No desejo de ainda fazer muitas coisas, as horas passam céleres e a meia-noite se anuncia.

As 3:30 horas minha janela acusa a proximidade do vento.

As 4:00 horas meu espírito não permite que eu fique na cama: meu espírito levanta; meu corpo vai atrás.

A madrugada é fria. Na rua, apenas a música cantada pelo vento e dançada pelas árvores que atiram suas folhas ao chão em condição de total subserviência. Outras, em franca histeria, jogam-se ao chão.

É a dança dançada nos infernos e aplaudida pelos ateus.

Eu…, eu, pobre de mim!

Assustada como na tarde anterior, busco abrigo dentro do meu abrigo: embaixo da escada, na parte mais escura e irrelevante da casa. Embaixo da escada para abrigar a parte mais relevante de mim. 

Ele, o louco, dança na frente da minha casa ao ritmo de todos os ritmos.

Vez ou outra vem aos tropeços e bate com força na porta, na janela, no portão.

Dança e sapateia no telhado, cansa e descansa: silêncio.

As árvores se erguem, ficam empertigadas: eu não consigo sair de minha posição fetal.

Aguardo.

Silêncio.

Tudo passou e eu estou salva.

Mas o que?

Como gato, aprumo o ouvido e ouço, ao longe, o baile dos infernos se aproximando.

… e vem vindo

… e tudo recomeça.

Minhas costas que doíam, já não doem mais.

Minhas pernas amortecidas são esquecidas.

Tudo é escuro e desconfortável embaixo da escada, mas tudo é escuro e assustador fora dela.

E novamente as árvores  dançam se revezando com este bailarino invisível.

Não há nuvens no céu e as estrelas assistem, passivamente, à mais esta tragédia humana: O MEDO.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s