Prosa

Um Caso de Amor e Ódio

Hoje saí apressada e esqueci o celular em casa. 

A princípio fiquei chateada. No momento seguinte, fiquei com medo de precisar dele para uma emergência, mas me acalmei percebendo que à minha volta todos tinham celular e que, felizmente, eu carregava minha carteirinha do plano de saúde e o meu cartão de crédito.

Para maior segurança, busquei relembrar, com relativo esforço pela falta de uso, o número do celular da filha caso eu viesse a precisar (quantas saudades da agendinha telefônica).

Assustei-me ante a possibilidade de que minha filha, após alguns segundos decorridos tentando falar comigo sem sucesso, entrasse em pânico e começasse a me procurar nos hospitais, nas delegacias e (principalmente?) nos manicômios.

Infelizmente, por ter hora marcada no dentista, não me permiti voltar para casa a fim de resgatá-lo e o remédio foi seguir, seguir e seguir, tentando não surtar.

Cheguei, estacionei e, caminhando pela calçada em direção ao dentista, fiquei imaginando o que eu faria na sala de espera sem meu celular.

Novamente fiquei aterrorizada pela angústia que se abateria sobre mim naqueles eternos e dramáticos momentos antes da consulta, por não ter nada o que fazer.

Assim caminhei: caminhando e sofrendo, sofrendo e caminhando. E sofri por antecipação e me esconjurei por não ter verificado minha bolsa antes de sair de casa. Como pude cometer tal estrago no meu dia, ainda mais sabendo que depois do dentista, que já era outro estrago físico e financeiro, teria muitas outras coisas a fazer antes de voltar para casa?

Imbuída deste estado de desânimo, segui inconformada até o consultório e, quando lá cheguei, quando lá sentei, deparei-me com minha tragédia anunciada: o que fazer durante aqueles intermináveis minutos que antecediam a tortura? 

Ah! Se eu tivesse meu companheiro, meu amigo de todas as horas! Aquele que me distrai em todos os momentos da minha vida. Aquele que não me deixa observar nada à minha volta por ser extremamente possessivo. Aquele que promove todos os meus risos e todas as minhas lágrimas. Aquele que condensa meu dia num único segundo. Aquele que é meu confidente quando dele me valho para expressar minhas emoções. Aquele que resolve todas as minhas dúvidas. Aquele que me faz esquecer os inimigos e, porque não dizer, os amigos também, que me aproxima de muitos que a tempos eu não via e, mesmo assim, neste intervalo, nunca fizeram falta, mas agora fazem parte dos meus “Milhões de Amigos”, como disse Roberto Carlos, prevendo os “likes” do Face, quando cantou “eu quero ter um milhão de amigos”.  Aquele que, trazendo o mundo para a palma da minha mão, torna-me senhora e centro do universo, a estrela rara de quinta grandeza e a mais amada pelos muitos e muitos “likes” em minhas postagens. Aquele que é vida e morte, trabalho e lazer, aquele que une os que estão longe e separa os que estão próximos, que resolve e dificulta, que é do anjo a mão esquerda de mãos dadas com a mão direita do demônio, aquele que …

A secretária me olhou sem dó. Explico: sem dó do meu desamparo, sem dó da minha futura dor, sem dó do meu desfalque financeiro.

Porém, não me rendi e, com altivez, fingindo não entender a indiferença dela sobre minhas penas, olhei-a e lentamente levantei-me pegando a revista que “adormecia” placidamente sobre a mesinha.

Foi então que, ao folhear a revista, tive meu primeiro momento de vitória sobre a trágica ausência do meu celular.

Por favor, não leia rapidamente a palavra “folhear”. Em tempos atuais da supremacia da tecnologia, “folhear” é uma palavra que remete a um passado longínquo onde o tempo era lento, as horas, compridas e lânguidas, e “folhear” era uma benção.

Mas nada dessa melancolia do passado estava ao alcance da secretária que, pelo contrário, olhou-me de revesgueio ao ver-me “folheando”.

Não posso negar que senti o doce sabor da vitória sobre ela e sobre o imbecil do meu celular que se acha imprescindível e insubstituível.

Mostrei a ele que, a duras penas, ainda sou dona de mim quando longe dele.

E diante desta supremacia deleitei-me com a revista que a mim se entregava a cada folha virada, dizendo-me não ter ela o mundo todo de informações mas, em compensação, trazia-me o prazer da lenta leitura, do doce e nostálgico “folhear”.

Mas o dragão não morre: adormece. E, numa dúvida surgida numa frase qualquer contida na revista, o impulso de pegar o celular para buscar respostas trouxe-me novamente à angústia da separação irresponsável.

Nova pausa. Respiro profundamente e um conselho íntimo dizendo que tudo iria acabar bem, trouxe-me de volta à paz.

Neste momento de elevação e euforia de mim sobre mim mesma, a voz da dentista fez com que eu me despedisse da revista e, lenta e delicadamente, a devolvesse ao seu estado de torpor sobre a mesinha.

Na cadeira da dentista senti a tranquilidade advinda do saber que naquele momento, mesmo se eu tivesse o celular comigo, aquele infeliz estaria desligado e, portanto, não me chamaria, não existiria. Isto significava um zero a zero na nossa relação.

E na cadeira reclinada foi tanto “aiaiai”,  tanto “óóó”, tanto “hum-m-m”, que meu celular, o mundo e toda sua tecnologia não tiveram mais a menor importância para mim.

Por fim, desfalcada financeiramente, torturada e cambaleante, sem a doce companhia do meu celular que poderia servir para eu chamar uma ambulância ou a polícia, ou os dois juntos, um para socorrer-me na dor o outro para escoltar-me, segui para a porta do consultório, percorri o corredor até o elevador, achei a saída do edifício e, finalmente, a rua. Mas, e o celular?

Quem, diga-me leitor? Quem, em sã consciência, numa hora torturante dessas, lembraria de um estúpido celular? Quem? Quem? Quem? … Eu, claro!

Doía a boca, doía o bolso, dói a lembrança do objeto esquecido.

E “firme, como poste em banhado”, segui rumo a concluir as demais tarefas, dentre elas as compras no supermercado que, diga-se de passagem, é um dos bons lugares para se esquecer da existência daquela maldição.

Compras no carro, última tarefa realizada com relativa presteza, sigo para casa.

Ah! Penso eu, e por que não dizer, com profunda aflição e alegria, finalmente o encontro está próximo.

Chego em casa e minha intenção primeira era correr para ele, para que me dissesse quantas ligações, quantos likes, quantos whats, quantas mensagens recebidas; se, como o saudoso “tamagoshi”, ainda estaria vivo, ainda com bateria, se, se…

#ritamariliats

Finjo-me controlada e retiro todas as compras do carro (será que ouvi o sinal de uma mensagem chegando?), levo tudo para a cozinha, (será que esqueci mesmo em casa ou me enganei e perdi no trajeto?).
Guardo tudo, dirijo-me à sala e, finalmente,  …

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