Prosa

Carta Para Vovó

Bom dia Vovó!

Demorei para responder?  Ontem já estava deitado, eu e as lembranças, tudo em cima da cama.

Me empolguei lendo sua carta e vendo os desenhos que você me mandou e depois fui empolgado pelo sono.

Agora são 7:00 horas e o café está pronto. A Dinda me chama, a mãe me chama mas vou escrever primeiro. Sabe de uma coisa? ainda tem lua e ela está arribando para o cais do nunca.

Por aqui tudo bem: aqui deste outro lado da razão, como diz a Dinda…

Vó!  por aqui às vezes falta luz então acendemos a imaginação. Outras vezes falta água, então abrimos a torneira das emoções. Se falta luz e água corremos pra  baixo da cama e caímos num abismo fundo, escuro e perigoso cheio de lagartixas falantes, vespas gigantes, mulas que voam sem cabeça. O que nunca falta é cama para deitar o corpo cansado de carregar preguiça.

Eu acho que cama pra ser bem gostosa tinha que ter braço. Minha mãe disse que a cama dela tinha. De madrugada eu fui espiar e achei 2 braços. Pela manhã entrei no quarto dela e só encontrei o pai colocando gravata. Eu perguntei pra mãe onde ela escondia os dois braços e ela disse que quem guardava os dois braços era o pai. Perguntei pro pai onde ele escondia os 2 braços da cama da mãe. Ele disse que era segredo. Perguntei pro pai se a minha cama também podia ter 2 braços. O pai disse que só quando eu crescer eu posso colocar dois braços na minha cama. Fui correndo pra cozinha dizer para a Dinda que minha cama vai ter dois braços quando eu crescer. A Dinda riu e me deu um abraço. Eu queria os dois braços da Dinda presos na minha cama, mas se eu roubar os braços dela ela vai ficar sem os dois braços e vai ficar triste porque não vai mais poder me abraçar nem me dar um tapinha sempre que me manda brincar no quintal.

De manhã a coragem sempre me sacode até eu acordar e pular fora da cama. É sempre a hora do café com sono. Na cozinha sempre estão o pai, a mãe, a Dinda, eu e muitas frutas da estação como a goiaba alegria, a banana preguiça,o  kiwi bom humor e muitos outras. Depois chega a minha irmã com cara de sapo beiçudo. Ruim mesmo é que pela porta da cozinha, que dá para o quintal da vida dos outros, como diz a Dinda, sempre entra o moleque da tristeza carregando os mortos do dia anterior. A Dinda suspira, a mãe suspira e eu, sem saber o porquê, suspiro: todos suspiramos e o pai faz a gente agradecer a Deus por ainda não sermos notícia.

Eu repito: Deus muito obrigado por ainda não ser notícia. Eu não sei o que é ser notícia, mas agradeço. O que mais gosto é ir de tarde  jogar corrida com o vento, pular amarelinha com a sombra e, só quando estou sozinho, ir brincar de poetizar assoprando palavras na barriga do caderno de pauta quebrada.

Nem sempre faz sol por aqui, Vó, porque nossa imaginação, de tão grande, faz eclipse o dia todo. A mãe disse pare, mas nós continuamos rabiscando tanto no azul do céu até ele ficar todo furadinho: de noite nasceu estrela espiante.

Atrás de casa não pode brincar de esconde-esconde porque as árvores não sabem contar até 10, só até 5. O filho do vizinho disse que o  tio do meu primo disse que elefante também não pode brincar por causa de quê a tromba sempre fica aparecendo. Fiquei chateado. O elefante é um cara legal.

O pai me perguntou quem era o tio do meu primo. Eu baixei a cabeça porque não sabia responder mas fiquei desconfiado porque um dia o meu primo chamou meu pai de tio. Briguei com meu primo porque não quero que meu pai vire tio. Tio é bom mas não é pai. Dei o Tio para ele e fiquei com meu pai. Acho que meu primo também queria fazer essa troca mas o meu tio disse que ele já tem pai e não pode ter dois pais. Eu não sei porque o meu tio não vira pai dele. Ele fica com um tio e um pai e pode dizer que de dia ele tem pai e de noite ele tem tio. Mas eu não quero. Eu quero pai de dia e de noite.

Meu pai usa gravata… meu primo diz que é “graveta” e dá risada… meu primo é burro mas não tem orelha pontuda. Eu fui espiar a orelha dele e só tem cera dentro de um buraco. Meu primo tem um buraco na orelha e é por isto que às vezes eu chamo e ele não responde. O buraco da orelha do meu primo é bem grandona mas não cabe o dedo: eu tentei.

Minha irmã começou a namorar um homem feio. Meu pai disse para ela que ele era feio. Meu tio disse que ele era feio. Eu disse que o namorado dela era feio. Minha mãe disse pra todos:

“Pro feio ficar bonitinho
Uma coisa vou dizer
Basta olhar com carinho
Pro feio que você vê”.

………………………………………………………….

Este meu texto foi selecionado para compor a revista eletrônica ESCRITORES DO BRASIL número 5, nas páginas 71, 72 e 73, ficando eu, muito honrada.

Segue link; Ler aqui

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