Prosa

Síndrome do Ninho Vazio

Síndrome do Ninho Vazio

Às 6h da manhã levanto, não por opção, mas porque eu sempre fui assim: a cama não quer mais o corpo, o corpo não quer mais a cama, mesmo que o sono fique ali deitado.
Levanto, bebo dois copos de água, passo café e sento para ler por mais ou menos uma hora e meia.
Nem sempre foi assim.
Em tempos de correria, quando a filha era pequena, quando eu trabalhava em tempo integral, levantava cedo, mas não lia. Não lia, mas em parcos momentos de um dia atribulado roubava minutos para, com fios de sonhos, tecer esperança.
Fiz, naquela época, o que julguei ser meu dever de casa. A cada noite uma página era virada e pela manhã uma nova página, com novas lições, novos desafios, novos exercícios não vividos e … sem livros para consulta.
Trabalhei, criei uma filha e, embora ela já morasse fora de casa, não a ver “encaminhada” continuava sendo minha principal ocupação, preocupação.
Numa manhã qualquer, um e-mail chamando-a para assumir um cargo conquistado através de concurso muda meu olhar sobre a minha vida e silenciosamente surge a Síndrome do Ninho Vazio: ninho emocional.
Não naquele dia, que era para comemorar. Não no outro, que era para comemorar ainda mais. Mas, depois…
Então…
Então às 6h da manhã levantei e antes de ler olhei para minha idade, olhei para meu corpo em visíveis transformações, olhei para o tempo passado e olhei para o futuro.
Futuro!? Futuro!? Futuro!?
Qual futuro?
O futuro do minuto seguinte, da noite seguinte, do dia seguinte.
O futuro aqui, grudado, de boca aberta e de olhos esbugalhados esperando minhas ordens.
Minhas ordens?
Minhas?
Minhas, sim. Minhas e de mais ninguém.
Eu? Ser dona? Ampla, total, irrestrita, dona e livre? Dona de mim, de meu tempo, de meus pensamentos? …. Eu? De mim?
Nesta manhã voltei para a cama sem ler … e dormi.
Na manhã seguinte a cama também me acolheu e na outra ela me escondeu do mundo, do mundo que sempre espiei pela fresta das possibilidades.
Possibilidades, possibilidades, possibilidades!!! …. Possível.
Então agora eu poderia olhar, não mais pela fresta, mas pela janela escancarada e alcançar as possibilidades.
Mas não desejando saber, eu dormia embalada pelo medo.
Medo!
Medo do desconhecido, medo de ser livre, medo de não ser útil e de ser esquecida, jogada no silêncio.
Medo do tempo que se agigantou à minha frente, porque os ponteiros do relógio passaram a se mexer lentamente pela falta de urgência, dando-me sobrevida.
Medo de saltar do trampolim da responsabilidade familiar, medo de estar em pleno voo – um dos momentos mais solitários em que alguém pode estar – medo de tocar a água lá em baixo e senti-la com carícia se abrindo para me receber como útero invertido, medo de me afogar de tanta emoção, medo de voltar à tona e não receber aplausos e ver-me só e feliz, medo de sair da água e (“que Deus me livre”) dizer apenas para mim: sou feliz com o que tenho, sou feliz com o que sou, sou feliz com o que ainda serei e realizarei.
Mas eu dormia e dormia em tempo integral. Dormia e fugia.
As marcas das rédeas da responsabilidade ainda sangravam no meu pescoço.
Meus amigos me buscavam, ofereciam-me passeios, lugares, reuniões: eu fugia.
Até que, num final de semana, fui constrangida a fazer uma pequena viagem.
Pedi carona num dos três carros da caravana.
O casal, meu amigo, com uma gentileza inominável, acolheu-me em seu carro e eu, por brincadeira, para deixar o ambiente descontraído, disse que eu ia “de filha”, já que o acento de trás a mim pertencia.
As risadas foram boas e logo na saída, no primeiro quilômetro, percebendo que eles aceitavam a brincadeira e também para relembrar momentos vividos por eles e por mim, falei:
– Já chegamos? Falta muito?
E, sentada no banco de trás, viajei contando e relembrando as coisas da minha infância. Falei que meus pais sempre me levavam em seus passeios de carro, que eu adorava estar à mercê dos desejos deles, e que para mim tudo era bom quando estava com eles …
Assim, fui e voltei brincando, relembrando e me denominando “filha”.
Na última parada já de volta, troquei de carro e eles – adoráveis “eles” – continuando a brincadeira, fizeram mil recomendações para eu me comportar no carro das “tias”.
Por que? Não sei, mas foi assim.
Aquela viagem me fez voltar no tempo e lembrar-me do antes: do antes de ser mãe, do tempo de “ser filha”.
E relembrei aquele tempo, quem eu era, onde eu estava, o que era bom, o que era ruim, o que era inevitável, o tempo que perdi lamentando sem fazer, os porquês, os como, o que eu sonhava ser e fazer.
O que sonhava ser e fazer?
Ser e fazer…
Do “ser” fui mãe com todas as obrigações, alegrias e tristezas, culminando no mérito do “ter encaminhado”.
Consegui criar o hábito da leitura e adquiri o conhecimento que eu sempre julguei importante para mim.
Mas restava tudo o mais que eu queria ser e, assim, de braços dados com o fazer, o ser que queria ser – e que morava no passado – precisava com urgência ser tele transportado para o presente.
Mas ainda a cama era o meu esconderijo, meu conforto e minha conselheira.
No dia seguinte, novamente fiz uma incursão ao ponto dos meus desejos de “ser” e de “ter” quando ainda a responsabilidade sobre minha filha não existia.
Quem eu era naquele passado?
Do que eu reclamava não ter? De não ser? De não poder fazer?
Percebi que eu tinha o privilégio de resgatar estas perguntas e responde-las todas.
Privilégio? Sim, porque estou aqui viva em pensamento, viva em saúde, viva em ação, viva em emoção.
Abri novamente o caderno da minha vida e voltei àquelas páginas amareladas para reassumir as queixas que me impediam de tantas coisas. E daquelas queixas “pueris” extrair os meus “quereres” e me comprometer a transforma-los novamente em sonhos e, de sonhos, em realizações com novas alegrias mesmo que com um corpo menos interessante, mas com uma cabeça muito mais “tudo”.
Quanto à Síndrome do Ninho Vazio? Ela permanecerá aqui comigo, do meu lado a me acompanhar, demarcando tempos vividos, porque ela é real e importante.
No caderno da minha vida, em letras grandes, junto com outras igualmente reais e importantes, vou acrescentá-la:

INFÂNCIA – ok
ADOLESCENCIA – ok
FASE ADULTA – ok
MATERNIDADE – ok
PROFISSÃO – ok
SAÚDE – ok
SINDROME DO NINHO VAZIO – ok
EU… em movimento

Ontem estive em uma reunião de amigos e senti toda a minha mocidade pincelar meu coração. Ali estive alegre, hoje sou feliz.
Alegria se conjuga com o verbo estar; felicidade se conjuga com o verbo ser.
Ser é um verbo de permanência; estar é um verbo de mutação.
E sou feliz porque, olhando para trás, vejo que os grandes desafios foram vencidos.
E sou feliz porque a vida me recompensa devolvendo-me tempo.
Daqui a alguns anos quero enumerar os meus sonhos realizados a partir de agora.
O ninho não estava vazio: havia uma fênix – eu – que aguardava o tempo certo para renascer e voar.

“Viver uma grande vida é realizar na idade adulta um ideal da juventude. ”
Alfred Victor de Vigny

Este post foi incluído na Revista Eletrônica ESCRITORES DO BRASIL nr. 1 à pagina 23.
Segue link: Ler aqui

4 comentários em “Síndrome do Ninho Vazio

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