Prosa

Postigo

Calço os chinelos de pano, chego à janela, vejo o mundo, espio o horror, fecho os postigos, puxo as cortinas, acendo as velas do candelabro, Chopin ou Mozart, me aproximo da lareira, forneço uma acha de lenha, reavivo as línguas de fogo, contemplo a gata dormindo no sofá, vou até a cristaleira, pego uma taça, abro uma garrafa de vinho, volto à lareira, tiro o casacão, agacho-me ao pé do sofá onde está minha gata, coloco no chão a taça e a garrafa, vou até a estante, pego o livro deitado na frente dos outros, coloco-o no chão junto da taça e da garrafa, busco algumas almofadas dispostas no sofá grande, ouço o crepitar da lenha me chamando e os gritos dos seres além de meu postigo, vou até a vitrola, escolho um disco entre alguns nos escaninhos, pego o braço da agulha, empurro-o para trás, vejo o prato girar lentamente, a rotação aumenta, cai o vinil, coloco a agulha na primeira ranhura, ouço o silêncio perfeito criado pela minha apneia, espero, a música se impõe aos gritos apavorantes dos transeuntes atrás do meu postigo, volto ao tapete em frente à lareira, inclino-me, sento no chão, pego meu livro, analiso a capa, aliso seu volume acetinado, releio a contracapa, percebo novamente a música a se sobrepor aos barulhos das sirenes do outro lado do meu postigo, ergo a garrafa, ergo a taça, despejo um pouco de vinho cor de sangue na taça, giro o copo, analiso o anel colorido que o vinho deixa nas paredes da taça, inspiro seu buquê suave, lembro-me do sangue derramado na rua em frente à minha janela, sinto o cheiro ácido-oxidado do sangue livre, volto à suavidade da música, ao perfume do vinho, ao toque macio no livro, ao divino sabor da uva transformada em vinho, lembro-me dos seres transformados em feras do outro lado do meu postigo, acomodo-me entre as almofadas, aqueço-me diante da lareira, lembro-me dos mendigos acomodados nas calçadas, minha gata pula do sofá, aproxima-se de mim, faz um ronronado, estico a mão, aliso sua cabeça macia e peluda, ela devolve-me com um giro de corpo, lembro-me das crianças retorcidas do outro lado do meu postigo, inclino a taça, inspiro novamente o buquê do vinho, bebo um gole, lembro-me da sede entre homens do outro lado da minha janela, abro o livro, busco a marca que aponta onde parei, reclino a cabeça, fecho os olhos, ouço a música suave, sinto a gata do meu lado, toco os contornos do livro, percebo meu coração parando, ouço ao longe os últimos pedidos de socorro, crianças chorando, homens esbravejando, mulheres em histeria, velhos em agonia, respiro com dificuldade, abro os olhos, leio: “tudo é efêmero”, um gole de vinho, uma nota musical, um afago na gata, uma dor no peito, um golpe de ar apaga as velas do candelabro…

19.07.15

5 comentários em “Postigo

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