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Pergaminhos

Uma homenagem a meu pai.

Por volta dos seus 5 anos, trepado no balcão da venda, meu pai declamava esta poesia como tinha aprendido, oralmente, de seu pai (meu avô). Os versos que ele declamava eu os coloco no final, pedindo permissão à Alexandre da Conceição, pelos modificações. Como poeta, posso imaginar que Alexandre não se incomodou, pelo contrário, se lá do céu estiver ouvindo, ficará orgulhoso de ter feito parte de uma história tão linda de amor, ingenuidade e muito lirismo.
Meu pai os ensinou a mim, como aprendeu de seu pai, e não sabemos como meu avô aprendeu.Por longos anos eu recitei como aprendi de meu pai mas hoje busco a retratação ou a conciliação. Espero que ambos, meu pai e Alexandre, estejam juntos declamando no céu.

               PERGAMINHOS

ALEXANDRE DA CONCEIÇÃO – Portugal

 

Não me esmagam mulher os teus sorrisos;
Eu tenho mais orgulho do que pensas
E rio-me também;
É debalde que tentas humilhar-me,
Porque eu ouso pensar – vê tu que insania! –
Que também sou alguém.

Alguém que veio ao mundo sem família,
Um produto do acaso, um pária, um mísero,
Um enjeitado enfim,
Um ser sem protecção das leis canoniais,
Filho sem pai no assunto do baptismo,
Mas um ser, inda assim.

Levantou-me da estrada do infortúnio
Um homem que entendeu que um filho espúrio
Tem jus à protecção,
Um homem que entendeu que é vil e infame
Atirar para o Iodo dos hospícios
Uma alma em embrião.

É que eu vi as premissas da vitória,
O aplauso espontâneo dos estranhos
Incitar-me a seguir,
É que eu via diante de meus passos
Rasgar-se ampla, infinita, luminosa
A estrada do porvir.

Se alguma cousa sou a mim o devo,
Ao meu trabalho honrado, ao meu estudo,
Ao amor de meus pais,
À força de vontade, à inteligência,
À sociedade pouco, às leis bem menos…
E a ti não devo mais.

E és tu que vens falar-me em pergaminhos?
E és tu que vens falar-me nas riquezas
Que o destino te deu?
Eu não troco os meus louros de poeta,
As conquistas do estudo e o meu futuro
Por tudo quanto é teu.

Não me compares pois à horda ignara
Que te adora os sorrisos pelo ouro…
Eu tenho coração,
Tenho por pergaminhos o trabalho,
Por tesouro a minha inteligência
E a honra por brasão.

Nós, os homens que andamos procurando
À luz do coração por este mundo
Os caminhos do bem,
Como trazemos alto o pensamento,
E a fronte erguida ao céu, temos orgulhos,
Bem vês, como ninguém.

Nascido a 16 de Outubro de 1842, em Ílhavo, trazia consigo um estigma que pode estar na base de algumas das suas atitudes mais violentas e intempestivas. Extraído de: Publicação semestral da Junta Distrital de Aveiro nrº 10

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…….

NOSSA VERSÃO

Não me esmagam mulher os teus sorrisos, porque tenho mais orgulho do que pensas, e rio-me também. Se é debalde que tentas humilhar-me, ouso pensar – vê tu que insânia! – que eu também sou alguém. Alguém que veio ao mundo sem família, um produto do acaso, um ser, um pária, um mísero, um enjeitado em fim. Um ser sem proteção das leis canônicas, filho sem pai no assento do batismo, mas um ser ainda sim. Levantou-me da estrada do infortúnio um homem que viu um espúrio e uma alma em embrião. Este homem legou-me em vida seu honrado nome e vestiu quem era nu. Depois que me viu robusto e forte disse-me um dia: – Vai, sê homem, luta, trabalha para tu. Lutei, passei curvado sobre os livros nas mais floridas quadras dos meus dias, sereno a trabalhar. Progredi, iluminei-me para entrar em novas lutas ou então descansar. Foi aí que eu vi as premissas da vitória incitarem-me a seguir. Foi aí que eu vi rasgar-se ampla e iluminada a estrada do porvir. E se alguma coisa eu sou, a mim eu devo, ao meu trabalho honrado, à minha inteligência e às minhas ações. E a ti, a ti não devo mais. Se é tu que vens falar em pergaminhos, se é tu que vens falar-me na riqueza que o destino te deu, saiba que eu não troco os meus louros de poeta nem a conquista de um talento por tudo quanto é teu. É louca, sabes o quanto sou rico, rico de muita inteligência e coração, portanto devolvo-te a suspeita dos risos que não mendiguei. Vem e vê mulher, que se és rainha eu sou poeta e tenho orgulho de rei.

2 comentários em “Pergaminhos

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