Prosa

Ser Bocó

Quando me escondo na lua de lata e o vento me empina como pandorga, minha cabeça salta de estrela em estrela para pegar uma e amarrar na cabeleira do cometa.
Minha mãe disse que salada de fruta faz bem, por isto, à tardinha, vou chupar manga embaixo do pé de banana.
Contei para o tio que pintei meu dedo de preto para assustar meu irmão, dizendo ter um dedo a menos. Então o tio disse que à noite, quando o dia fica preto, muita coisa desaparece; fui correndo me esconder em baixo da cama, achei minha boneca e descobri que era ali que as coisas desaparecidas ficam.
Nós estávamos todos comendo na cozinha quando meu pai abriu um livro que cuspiu um capirotinho. Meu pai não gostou e fechou o livro, minha mãe bocejou e minha irmã foi chorar dentro do roupeiro, para não ver o rio de sangue. Eu fiquei rindo porque minha irmã não sabe que chorar também faz rio.
Minha mãe é que sabe das coisas: quando ela quer que algo desapareça, ela fecha os olhos.
Eu tenho um saco cheio de bolinhas de gude e uma delas chama “olho de gato”. Minha prima queria, mas não quis mais, porque eu disse que o olho não enxergava nada, então ela ficou contente.
Quem é bocó corre atrás dos versos e salta por cima dos números ímpares. Quem não é, sabe contar até dez.
Minha trisavó é vizinha d’um tal homem de barro chamado Manuel. Ela disse que ele disse que eu sou bocó porque minha alma não expandiu ainda.
Rita Marília
Floripa, 24.05.2017

……….

O texto acima foi citado na crônica do Escritor e Poeta Luiz Carlos Amorim em: Ler mais aqui
que também está em seu outro blog (ler aqui)

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